Suplemento de Outono

Imagem retirada de http://www.flickr.com/photos/untitlism
Cheira-nos a outono e é isto. Recomeçamos a dar aquilo que existe de mais maduro em nós. Permitam-me iniciar já com um desplante. Se o virtual não glorifica a densidade correremos em sentido contrário. Se recusamos uma certa tuiterização não é porque a renegamos. Precisávamos, para isso, ter-lhe dado verdadeira existência. Acusam-nos de não vermos o “futuro”. Evitamos desfocar os olhos. Temo-los bem fixos no presente.
Para os que não têm ouvidos há que o clarificar: não somos, nunca fomos, contra a internet. Há que transpor o radicalismo da metáfora. Por isso uso, tantas vezes, o itálico. Há uma distância que separa o MFJEP da realidade. Não pretendemos impor nem inverter o mundo. Iremos, brevemente, dar passadas mais largas e ultrapassar o formato escrito. Mas este é um projecto, acima de tudo, de interpretação. Existe uma base comum em torno de um ideal. Mas não existem argumentos aproximados, para a sua defesa, em nenhum dos intervenientes. Deixemos, pois, a moralidade para o leitor.
Lemos jornalismo digital. Mas não acreditamos na gratuitidade sem um modelo, a par, financiado e baseado na noção de responsabilidade pessoal. Que o suporte. Não pretendemos convencer mais que dois ou três. Eis, para nós, um triunfo. Somos, se calhar, uns elitistas. E, exactamente por isso, queremos continuar a provar, dentro de momentos, a nossa inutilidade.
Afonso Pimenta
Revista I: Protótipo de Salvação

Imagem retirada de www.jonworth.eu
De acordo com o El País do passado dia cinco de Maio, Javier Rodriguez Zapatero, director geral da Google em Espanha, assegurou que a companhia não contempla o fim do formato em papel apesar de inevitáveis falências:
Dentro de dez anos existirão menos publicações. Serão destinadas à leitura reflexiva. 90% do tempo será ocupado com notícias através da rede.
Assegurou; existirão; serão; será: sem querer destruir tão belo desejo profético, este optimismo mercantil – para lá da preguiça – não parece consonante com um dos principais polos de atracção do digital: a sua mutabilidade. E, exactamente porque o excesso de movimento não deixa espaço para a metáfora, resta saber se toda esta acomodação – deslumbre pela actualização – fará nascer amor repentino pela abstracção. Mas não é já alguma opinião, por exemplo, parte constituinte do melhor jornalismo que se faz?
Ao destacar a internet, deixando-se manipular pela promessa do momento, a revista I – protótipo de futuro – promove o negócio externo; conduz à divisão. Ao nomear, em editorial, a sua escrita de reflexiva, também empobrece a noção. Por ser análoga ao habitual nos exemplos superiores de jornalismo integrado. Como o Público. Mas no presente foi a certeza mais fashion que encontramos.
O futuro do Jornalismo segundo Kenneth Lerer
Muita gente estará de olho no Huffington Post. Referência no jornalismo político estado unidense e, segundo o Technorati, o blogue número 1 (lugar que ocupa consistentemente há algum tempo), o Huff Post é um jornal de qualidade que tem existência apenas na internet. O facto de um jornal digital (e os vários investimentos de milhões, feitos por angel investers, permitiram entre outras coisas, alargar a redação, consolidando o profissionalismo que caracteriza a publicação) aparecer na lista de blogues do Technorati é um sinal interessante.
Se o The Nation tem um site que é referência, foi porque fez o percurso que normalmente fazem os jornais. Digitalizou-se. Primeiro abriu o site, porque os outros fizeram o mesmo ou porque achou que não poderia desprezar a importância de ter existência digital. Depois cresceu na internet, enquanto ia definhando no papel. Já o jornal fundado por Arianna Huffington and Kenneth Lere começou onde está: na www. Os gigantes como o NY Times têm sites gigantescos. Mas enquanto pilares tradicionais do jornalismo americano como o New York Times lutam para que a edição em papel continue, o Huffington Post não tem de se preocupar. E, além dos investimentos que depositaram dinheiro e confiança no projecto, tem para mostrar ao mundo e anunciantes quase 9 milhões de visitantes (números de Fevereiro de 2009, referidos pela Wikipedia).
Por tudo isto, quando Kenneth Lerer fala sobre o futuro dos jornais, o mundo escuta. Há que ler o que disse um dos fundadores do que é provavelmente o jornal mais bem sucedido da actulidade. A 23 de Abril, discursou durante as “Columbia Journalism School Annual New Media Lecture Series“. E usou a palavra futuro para dizer coisas como “Alguém que sussurre ou diga bem alto que o futuro do jornalismo está em causa, não poderia estar mais enganado. Estou verdadeiramente entusiasmado e optimista quanto ao seu futuro.” ou como “E mesmo se ninguém sabe como será exactamente o futuro, estou confiante que dentro de alguns anos, no máximo, o cenário das notícias será fundamentalmente diferente do que é agora, com muitos novos agentes, com alguns novos líderes, mas ainda realizando totalmente o seu propósito vital.“
Aqui no MFJEP, temos ainda menos capacidades divinatórias que Kenneth Lerer. Duvidamos, de forma ponderada, que o futuro dos jornais impressos não tenha um peso determinante no futuro das notícias, na sua difusão e na sua qualidade. Mas seguimos com atenção o que se vai passando. E aconselhamos a leitura das palavras do homem por detrás de um caso de sucesso, que, ainda assim, não está neste afã angustiado dos que ainda tentam tornar viável o jornalismo impresso.
Jornalismo: Urgência e irresponsabilidade

AP Photo/Alexandre Meneghini
Toda esta urgência e impulso colectivo para a postagem e publicação, como se o propósito fosse a forma e a chamada de atenção, aprofunda, um pouco mais, a distância que separa estrelato de jornalismo de investigação. Com dois passos atrás e melhor respiração, há que: pensar primeiro. Noticiar depois. Para controlar o medo. Informar melhor.
E urgente, nesse sentido, é o artigo de Carlos Castilho, em Código Aberto, sobre jornalismo, responsabilidade e o folhetim actual: a gripe H1N1.
A questão ignorada

http://www.russiablog.org/
Agora que os maiores exemplos do jornalismo internacional hipotecam, face à crise, anos de prestigio através da internet; que fenómenos de contra- poder local se diluem, equiparados a um blogue: esse objecto de loucura; que velhas empresas de comunicação se degladiam contra os senhores do digital, culpando-os, erradamente, pela falta de exigência geral e, por isso, ajudando-os a difundir o seu discurso, fortalecendo a tendência, já de si inevitável; agora que tudo se perde no debate do formato, acaba-se, por isso, a olhar para o canto errado.
If the news is that important it will find me:
A frase – simbólica – resume tudo o que o mercado - que finge estar em remodelação – deseja. Poderia ser fabricada por uma qualquer empresa de marketing. Poderia ser o novo slogan de um antigo jornal a tentar reinventar-se. Ou mais uma frase feita num discurso de um accionista da World Wide Web. Mas não. Foi num inquérito: a anónimos representantes de uma geração que vai – e está – a reconfigurar o mundo. A expressão, carregada de um narcisismo alarmante, não esconde absolutamente nada. Contudo, indo de encontro à necessária amoralidade do mercado, ninguém lhe está a ligar nenhuma.
A diminuição, nada ingénua, da importância conferida ao jornalista está a favorecer algo e a ocultar o essencial. Há qualquer coisa a irromper.
Pouca gente parece disposta a perguntar qual é.
Crise, jornalismo e ambiente: uma ironia

http://www.flickr.com/photos/hemflock/
Robert Cox, sociólogo, é um optimista. Com preocupações. O ex- presidente do Sierra Club - a maior organização ambientalista norte-americana – esteve recentemente em Portugal como convidado da Fundação Calouste Gulbenkian, da Agência Europeia do Ambiente e do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Onde participou na conferência “Os media e o ambiente: entre a complexidade e a urgência“. Segundo a edição do passado dia três de abril do jornal Público , uma das questões centrais em Cox é a falta de interesse relativamente a temas de cariz ambiental, por parte das populações, em época de crise. Financeira ou militar. Problema que se adensa em tempo de reestruturação - para avolumar os eufemismos; termo nosso - jornalística.
Lança-se uma ironia: ao ler-se o artigo, não deixa de ser digno de atenção o facto de o ambiente – tão ligado a uma economia de longo prazo – ser esquecido em época de balanço. Mas de primeira linha - até há pouco tempo, também empresarial - quando nos entretemos a destruí-lo: mais afincadamente.
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