Washington Times – uma página por dia para o jornalismo de cidadão

"Times Newspaper Puzzle" (imagem obtida aqui: http://is.gd/syGw)
Segundo a Wikipedia, Jornalismo Cidadão, ou Jornalismo Colaborativo, Jornalismo Open Source ou ainda Jornalismo Participativo é uma idéia de jornalismo na qual o conteúdo (texto + imagem + som + vídeo) é produzido por cidadãos sem formação jornalística, em colaboração com jornalistas profissionais. Esta prática se caracteriza pela maior liberdade na produção e veiculação de notícias, já que não exige formação específica em jornalismo para os indivíduos que a executam.
O Washington Times (WT) decidiu dedicar uma página por dia, na versão impressa, ao jornalismo produzido por cidadãos. Às segundas, histórias sobre o mundo académico; às terças, o destaque é para os subúrbios de Maryland e Virginia; as quartas são dedicadas ao distrito de Columbia; as quintas focam as bases militares locais; às sextas é a vez das comunidades religiosas e aos domingos as obras de caridade e o serviço público. (a notícia não refere o sábado).
É já na próxima segunda-feira, dia 20, que é publicada a primeira página de jornalismo colaborativo, no contexto desta iniciativa. Citado no artigo acima linkado, Jonh Solomon, editor executivo do WT, afirma: “sabemos que existem muitos assuntos e comunidades que não temos sido capazes de cobrir totalmente dentro dos limites do orçamento de uma redacção, e estamos entusiasmados por capacitar cidadãos dessas comunidades para nos fornecerem notícias que interessarão aos nossos leitores.” Ainda segundo Solomon, “ao mesmo tempo que expandimos o nosso alcance através deste projecto, não estamos a diminuir a nossa qualidade editorial. As histórias dos cidadãos têm de obedecer aos mesmos padrões rigorosos de precisão, razoabilidade, equilíbrio e ética (accuracy, precision, fairness, balance and ethics, no original) que as que são escritas pelo pessoal que trabalha na redacção.” Pode ler-se na notícia do WT que cada cidadão jornalista receberá um conjunto de regras para a escrita jornalística bem como cópias do regulamento oficial do jornal nas questões relacionadas com ética, fontes anónimas e outros padrões jornalísticos.
É interessante verificar que esta opção editorial traz para a versão impressa do jornal o que seria muito mais fácil, simples e menos arriscado de fazer na versão online. Uma página de jornal tem um estatuto especial. Abrir espaço no site a artigos dos leitores é uma coisa. Dedicar uma página impressa a textos produzidos pelos cidadãos é outra coisa. Um sinal a que não podemos ficar indiferentes. O que chama a atenção não é tanto, ou não é apenas, a decisão de chamar os cidadãos a produzir histórias de qualidade e estilo jornalísticos. Há bastantes experiências, talvez mais informais, menos rigorosas e com visibilidade mais limitada, a decorrer nas versões online. O que realmente é marcante é a opção de trazer para a versão impressa esta experiência.
Depois do NY Times, o The Guardian lança API
Primeiro foi o New York Times. Dia 14 de Outubro de 2008, o histórico jornal americano lançava a Times Developer Network. Nesta página ficou disponível documentação, lista de FAQ’s, uma galeria de aplicações já desenvolvidas e um formulário para se pedir uma API key. API (Aplication Programming Interface) é, segundo a Wikipedia, “um conjunto de rotinas e padrões estabelecidos por um software para a utilização das suas funcionalidades por programas aplicativos — isto é: programas que não querem envolver-se em detalhes da implementação do software, mas apenas usar seus serviços.” Um exemplo de uma aplicação popular que recorre a um API, é o TweetDeck, que nos permite gerir a nossa conta no Twitter, sem ter de ir à página deste, fazendo todas as operações habituais numa aplicação desenvolvida no Adobe® AIR™.
Um jornal que tenha uma API está a disponibilizar aos programadores a possibilidade de desenvolverem aplicações que usam e reorganizam o conteúdo do jornal. Assim, cada programador pode, segundo os termos de uso definidos, filtrar, difundir, estruturar o conteúdo que o jornal disponibiliza desta forma. Para terem uma ideia do que isto é, podem experimentar uma das aplicações já disponíveis a partir da API do NY Times.
Esta parece ser uma estratégia adoptada no intuito de contrariar as quedas nas vendas do jornal impresso e responder ao vazio de alternativas realmente sustentáveis ao actual modelo de negócio. O The Guardian seguiu o exemplo (e está aberto o caminho para que mais publicações experimentem esta solução).
À semelhança do que acontece na “Times Developer Network”, a página da “The guardian Open Plattform” permite aos programadores fazer o pedido de uma API key, gerir as aplicações criadas, acompanhar as actualizações para cada linguagem de programação.
São boas notícias, principalmente para quem desenvolve e está sempre ávido de criar novos usos e reciclagens da informação veiculada na web. Mas não é a solução para o problema de financiamento, nem chega a ser um balão de oxigénio para a crise de caractér global que ameaça o jornalismo. É antes um passo óbvio e previsível, nesta era dos Widgets e do Yahoo Pipes, em que esperamos que o conteúdo assuma a forma que escolhemos, e (como alertou o Afonso) nos distanciamos cada vez mais do livro de estilo e dos editores. Queremos ser nós os editores, queremos que tudo seja personalizável. Se quanto à forma não parece haver falta de alternativas (embora exista a ameaça de extinção da forma impressa), quanto ao conteúdo – e só o uso da palavra conteúdo, para designar peças jornalísticas, tem que se lhe diga – é que nos devemos preocupar seriamente.
Colunista menoriza conclusões de “gurus” da internet sobre jornalismo tradicional
Mark Morford, colunista, analisa em “Die, Newspaper, die?”, publicado a 20 de Março no San Francisco Chronicle, a perspectiva e as soluções propostas por Clay Shirky, consultor para os efeitos sócio- económicos das tecnologias de informação, Steven P. Johnson, um dos pioneiros do formato webzine e por Dave Winer, programador, para a actual crise publicitária e jornalistica da imprensa internacional. Para chegar a uma conclusão: a inexistência de alternativas crediveis numa perspectiva profissional. Antes um descentramento baseado em algum alheamento e fascínio ao olhar para o suporte; demagogia na importância atribuída ao jornalista doméstico: na procura e concepção. Simplificando: o estilhaçar de um livro de estilo. No contexto norte- americano, ideologia de oposição às corporações que sustentam a comunicação social: hipérbole; reflexo de um eterno receio de ingerência na vida privada. Paranóia política. Que ilude a importância da informação.
Revista Nature reflecte sobre o declínio do jornalismo cientifico
As repercussões actuais relativas ao jornalismo escrito não se esgotam na imprensa generalista. O campo científico , segundo o artigo “Science journalism: Supplanting the old media?” , da autoria de George Brumfiel e publicado no passado dia 18 de Março no site da revista “Nature”, também está a ser afectado. A ter em conta, de forma adicional, o artigo de opinião “Filling the Void” .




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