O Papel das Notícias

Tirania e Comunicação

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 29 de Março de 2009

                                          

Foto retirada do Wiseupjournal (http://www.wiseupjournal.com/)

Foto retirada do Wiseupjournal (http://www.wiseupjournal.com/)

 

Perdoe-me Ignacio Ramonet. Se existe uma “Tirania da Comunicação“, poderá ela existir sem informação? Ou ainda, mais objectivamente, para além do controlo, moralização e vigilância a que esta última, necessariamente, conduz? Até onde teria ido – e mesmo assim… – George W. Bush  – o homem  que mais sentenças de morte assinou enquanto governador do Texas; facto esquecido – como presidente dos Estados Unidos da América sem um financiado e eficaz sistema da comunicação social? O instinto perdura, inalterado, na raça humana. Enfeitado, apenas, pela palavra, justiça ou moral social que, de resto, é modificável. Houve quem dissesse que a sociedade corrompe o homem apesar de “infinitamente bom”. Outros contestam e perguntam se não passará a vida a tentar provar que o é.

 

A crescente diminuição na venda de publicações em papel cujo foco se direcciona, ainda, para o conteúdo e para um público antigo que “percebe”, objectivamente ou não, o propósito do jornalismo como denúncia, a contaminação social pela noção de entretenimento ou a valorização abusiva das plataformas digitais como veículos de transmissão de conhecimento transferem a eficácia da investigação para um princípio de rapidez e formatação que ultrapassa – e desvirtua – a importância da coesão social baseada na observação. Que apenas um meio de comunicação pago e generalista – e mesmo assim condenado a uma série de factores politico- económicos, consegue. Como se uma inovação, só por o ser, fosse sinónimo de modernidade. Como se um jornal digital, por ser actual, fosse eficaz. Como se o futuro não fosse o passado de outra coisa qualquer. Como se no presente não existisse uma constância qualitativa, transmissível, independente da matéria. Como se a tecnologia, apenas por se apresentar como tal, fortalecesse uma perspectiva sobre a realidade. Como se “andar para a frente”, o futuro e o fugir fossem essenciais. São. Mas não implicam esquecer o passado. E não deixam de vaguear, por aí, profetas carregados de interesses monetários e industriais a acelerar a transição. Somos, por isso, olhados de soslaio: escravos do Twitter.

 

Se, como refere Nuno Miranda Ribeiro em A nostalgia do papel” no blogue do MFJEP (Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago), a geração que se encontra agora na casa dos 30 anos é motor e vítima de uma metamorfose entre a tradição e o digital, também ela poderá ser, para além da constatação de uma inevitabilidade, promotora de uma comunhão; unificação para o essencial. E a rapidez, aqui, desce para um degrau inferior. O “tempo real”, a actualização constante, a “Breaking News” e a interactividade é cada vez menos, informação. É que, a partir deste momento, mais rápidos, só se soubermos o que vai acontecer antecipadamente.

 

O discurso, excessivamente direccionado para o mercado, afasta-se das pessoas. Procura-se o formato – uma série deles se seguirá – e esquece-se o ponto central: para que serviu – e serve – o jornalismo. Não se trata aqui de ignorar a dinâmica social mas de a complementar. Para além do mais – assim como o meu parecer – os movimentos não carecem de subjectividade. Já diversas experiências – falhadas – se fizeram em nome da salvação do jornalismo. Como alguma semi- tabloidização de veículos de referência – e perda de importância anteriormente conferida a secções de opinião – que acabou por afastar leitores mais exigentes.

 

O “Financial Times anunciou recentemente um novo método de trabalho como forma de integrar o papel e o formato em linha dando especial relevância a este último. Como sempre, o “alarme” está no detalhe. A noção de “right first time” levanta algumas interrogações. O objectivo é o de refinar e simplificar o processo de produção. Observemos esta directiva: “Isto (controlo de qualidade) é importante para o conteúdo on- line mas também o é para o formato em papel”. O digital passou para primeiro plano. Não só a exigência do consumidor se impõe como as próprias redacções a parecem incentivar.

 

José Manuel Fernandes, director do “Público”, anunciou também há dias uma mudança estrutural: “a internet é o futuro”. Não é. A internet é o presente. O futuro passa por uma consciencialização relativamente ao papel – e não necessariamente “em papel” – da investigação jornalística como um dos alicerces essenciais para a manutenção e revitalização de um regime democrático – numa esplanada ou num e- journal – por parte de entidades civis e governamentais.

 

A “sociedade de filhos únicos”, radicalização de fenómenos anteriores, intolerante face à frustração, cuja publicidade lhe é quase exclusivamente direccionada e que tem no prazer o seu leitmotiv, reflexo e imposição de direitos das crianças”, há já muito que se desabituou – ou nunca o sentiu – de financiar a cultura ou a valorizar o esforço que a sustenta. Agrupamentos musicais, que antes promoviam um determinado culto da personalidade e distanciamento face ao seu público- alvo, vêem-se assim, obrigados a serem amigos no Myspace  ou como fizeram recentemente os Radiohead com o seu último trabalho de originais – a distribuírem gratuitamente as composições debaixo do argumento da inovação como estratégia de divulgação. As salas de cinema, encaradas anteriormente como pretexto para alguma sociabilização, esvaziam. Fenómeno a que não é alheia a concentração de filmes em grandes superfícies. Contudo, lança-se a questão: o cinema? Ou mero shopping? São inúmeras as salas de projecção tradicionais que têm vindo a encerrar nos últimos anos. A net aqui ao lado: o download em vinte minutos; as legendas em português do Brasil; o desvio na coluna; os problemas oculares; a solidão. Mas de forma gratuita. A multinacional do aluguer Blockbustar começou já a antever um provável risco de falência. Uma empresa de consultadoria foi contratada para a eventualidade. Em diversos sectores culturais existe uma preferência pelo isolamento, através da gratuitidade, em detrimento da convivência e da qualidade. Característica que afecta, também, a informação e o conhecimento. Limitados a um formato empobrecedor.

 

Lança-se, por tudo isto, um atrevimento: se existe uma geração – descontando a óbvia generalização – que está, de determinada forma, alheada e abstraída num certo autismo existencial, tuiterizada e intolerante perante o mundo real e com uma ligeira inclinação para o narcisismo e o individualismo, que tipo de governantes enfrentará uma humanidade futura? A questão do défice de concentração e da promoção de um autismo por uma sociedade intoxicada pelo excesso de entretenimento tem já sido problematizada por alguns psicólogos embora, como é usual, uma facção mais radical dos militantes da neurologia defenda como explicação a origem genética. De qualquer forma, neste caso, parece-me faltar substância. Alguns neurologistas pecam por demasiada necessidade de simplificação psicológica, parecem desejar fechar o tema rapidamente e não continuar o debate. Existirá o gene do “medo da especulação”? A dopamina explica demasiadas coisas.

 

Haverá, no futuro, uma maior tendência para a imposição e para o ditatorial como reflexo de uma sociedade de um menor esforço baseada no excesso de recompensas e de alguma revolução no tipo de família actual? A confirmar-se, como conjugar este caminho com o decréscimo de qualidade jornalística e consequente falta de atenção face ao poder? O sistema educativo, parental e estatal, a par da modernidade, desresponsabiliza-se. Aumentam os casos de pais que utilizam, como bode expiatório, o sistema de ensino para se poderem considerar, a eles próprios, bons educadores. E aquele, em nome da estatística, facilita a aprendizagem. O que contribui para uma espécie de culta fachada europeia. A ministra da educação ignora, assim, o debate que se desenvolve actualmente nesta área. Pelos vistos, para já, apenas nas livrarias. Também ela será adepta da neurologia. Um exemplo: “Da criança rei à criança tirana” de Didier Pleux (Sinais de Fogo, 2005).

 

Não é só por aqui. Há quem bata mais no fundo: no Reino Unido está a ser preparado um programa de alteração escolar que prevê que os alunos das escolas primárias britânicas irão aprender – como se não o fizessem já em casa – a dominar ferramentas Web como blogues, podcasts, a wikipédia ou o twitter (?) em detrimento do ensino de períodos históricos como a época vitoriana ou a segunda guerra mundial (?). Rasgo de génio. Rasgo político.

 

É esta a nata. Resta esperar por aquela que a sucederá.

 

 

Afonso Pimenta

 

 

Depois do NY Times, o The Guardian lança API

Posted in Notícias by nuno miranda ribeiro on 26 de Março de 2009
The Guardian Open Platform (imagem oficial)

The Guardian Open Platform (imagem oficial)

Primeiro foi o New York Times. Dia 14 de Outubro de 2008, o histórico jornal americano lançava a Times Developer Network. Nesta página ficou disponível documentação, lista de FAQ’s, uma galeria de aplicações já desenvolvidas e um formulário para se pedir uma API key. API (Aplication Programming Interface) é, segundo a Wikipedia, “um conjunto de rotinas e padrões estabelecidos por um software para a utilização das suas funcionalidades por programas aplicativos — isto é: programas que não querem envolver-se em detalhes da implementação do software, mas apenas usar seus serviços.” Um exemplo de uma aplicação popular que recorre a um API, é o TweetDeck, que nos permite gerir a nossa conta no Twitter, sem ter de ir à página deste, fazendo todas as operações habituais numa aplicação desenvolvida no Adobe® AIR™.

Um jornal que tenha uma API está a disponibilizar aos programadores a possibilidade de desenvolverem aplicações que usam e reorganizam o conteúdo do jornal. Assim, cada programador pode, segundo os termos de uso definidos, filtrar, difundir, estruturar o conteúdo que o jornal disponibiliza desta forma. Para terem uma ideia do que isto é, podem experimentar uma das aplicações já disponíveis a partir da API do NY Times.

Esta parece ser uma estratégia adoptada no intuito de contrariar as quedas nas vendas do jornal impresso e responder ao vazio de alternativas realmente sustentáveis ao actual modelo de negócio. O The Guardian seguiu o exemplo (e está aberto o caminho para que mais publicações experimentem esta solução).

À semelhança do que acontece na “Times Developer Network”, a página da “The guardian Open Plattform” permite aos programadores fazer o pedido de uma API key, gerir as aplicações criadas, acompanhar as actualizações para cada linguagem de programação.

São boas notícias, principalmente para quem desenvolve e está sempre ávido de criar novos usos e reciclagens da informação veiculada na web. Mas não é a solução para o problema de financiamento, nem chega a ser um balão de oxigénio para a crise de caractér global que ameaça o jornalismo. É antes um passo óbvio e previsível, nesta era dos Widgets e do Yahoo Pipes, em que esperamos que o conteúdo assuma a forma que escolhemos, e (como alertou o Afonso) nos distanciamos cada vez mais do livro de estilo e dos editores. Queremos ser nós os editores, queremos que tudo seja personalizável. Se quanto à forma não parece haver falta de alternativas (embora exista a ameaça de extinção da forma impressa), quanto ao conteúdo – e só o uso da palavra conteúdo, para designar peças jornalísticas, tem que se lhe diga –  é que nos devemos preocupar seriamente.

Colunista menoriza conclusões de “gurus” da internet sobre jornalismo tradicional

Posted in Notícias by Afonso Duarte Pimenta on 24 de Março de 2009
Mark Morford, foto retirada da galeria de Steve Rhodes

Mark Morford, foto retirada da galeria de Steve Rhodes

Mark Morford, colunista, analisa em “Die, Newspaper, die?”, publicado a 20 de Março no San Francisco Chronicle, a perspectiva e as soluções propostas por Clay Shirky, consultor para os efeitos sócio- económicos das tecnologias de informação, Steven P. Johnson, um dos pioneiros do formato webzine e por Dave Winer, programador, para a actual crise publicitária e jornalistica da imprensa internacional. Para chegar a uma conclusão: a inexistência de alternativas crediveis numa perspectiva profissional. Antes um descentramento baseado em algum alheamento e fascínio ao olhar para o suporte; demagogia na importância atribuída ao jornalista doméstico: na procura e concepção. Simplificando: o estilhaçar de um livro de estilo. No contexto norte- americano, ideologia de oposição às corporações que sustentam a comunicação social: hipérbole; reflexo de um eterno receio de ingerência na vida privada. Paranóia política. Que ilude a importância da informação.

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A nostalgia do papel

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 21 de Março de 2009
Sinclair ZX Spectrum Notebook Mod

Sinclair ZX Spectrum Notebook Mod

É comum, na minha geração e nas anteriores, um sentimento antecipado de nostalgia pelas publicações em papel. Ainda se publicam livros impressos (mais do que nunca) e já sofremos com a antevisão de um odioso mundo novo em que seremos obrigados a ler em ecrãs o que agora podemos desfolhar. Curiosamente, foi a minha geração (a dos que têm actualmente trinta, trinta e poucos anos) a fazer a transição, no que diz respeito aos jornais. Aconteceu comigo e com os da minha idade: passámos, ainda adolescentes, a depender cada vez mais do computador. Foi também a minha geração, parece-me, que garantiu o sucesso de coisas como a playstation: crescemos com o ZX Spectrum e, mais tarde, a playstation cresceu connosco e graças a nós; somos quem tem poder de compra para adquirir os jogos, ao contrário dos que agora são crianças e dependem do dinheiro dos pais para esses gastos – parte substancial dos jogos produzidos são apontados para a faixa etária dos 18-25 e há comunidades imensas de gamers que jogam há mais de 20 anos.

Quando, no final dos anos 1990, a www começou a ser o que é agora, mudámos alegremente de hábitos, adolescentes ainda em processo de formação desses mesmos hábitos. Não conheço estatísticas, mas arrisco dizer que é entre os 30 e os 35 anos que existem mais subscritores de feeds. Fomos os pioneiros do mIRC e mais tarde do Hi5. E mesmo se os actuais pré-adolescentes já não fizeram transição, tendo crescido em plena era da internet, a nossa geração continua, claramante, a ter um peso político, económico e social, absolutamente determinante. Já somos suficientemente velhos para ganhar o nosso próprio dinheiro e fazer escolhas autonomamente mas ainda somos suficientemente novos para que não ignoremos o apelo das últimas trends – por falar nisso, tenho a sensação que no uso do twitter em Portugal, a média de idades também andará na casa dos trinta. Somos, então, suficientemente maduros para decidir e suficientemente novos para que a publicidade nos considere apetecíveis.

Se é comum ouvir dos da minha geração desabafos nostálgicos sobre os livros, não é tão frequente escutar reparos semelhantes sobre os jornais. Durante a minha juventude li as crónicas do MEC, apanhei alguns números da revista K, vi terminar o Independente e a Capital – ambos mantendo ecos em blogues, disponíveis nos links que coloquei ali atrás. Assisti, enquanto jovem formado em jornalismo, à degradação do mercado de trabalho ligado à comunicação social, quase proporcional ao aumento de interesse pela área e com uma aparente multiplicação de ofertas e novas áreas de trabalho – na verdade o que aconteceu foi o declínio do prestígio da figura do jornalista dentro da redacção, o quase-fim da figura do revisor e o abuso sistemático da figura do estagiário (e este último será tema de uma próxima crónica).

Fico com a ideia que o que aconteceu comigo foi mais ou menos generalizado na minha geração. Gradualmente, passei de leitor de jornais e revistas para leitor de publicações online: não só as versões digitais das publicações impressas de que era leitor, mas também de uma infinidade de outras fontes de notícias e inofrmação. Já não sei o que seria de mim sem o imdb ou o allmusic, e sou cada vez mais utilizador da Wikipedia. Revistas estrangeiras, que nunca comprei em Portugal na versão impressa, passaram a estar disponíveis num browser. Mais recentemente, já no fim da minha adolescência, houve a explosão dos blogues. E com a proliferação de páginas de conteúdo actualizado ferquentemente, vieram os feeds. Neste momento, tenho no telemóvel feeds tão diversos como de revistas de música e do blogue do Saramago. Habituei-me à facilidade de utilização e à crescente versatilidade deste conteúdo gratuito e online. A certa altura, praticamente deixei de usar o Google Reader, tantas eras as subscrições que se tornou impraticável acompanhar o conteúdo. Neste momento, o Yahoo Pipes levou mais longe ainda esta capacidade de sermos quase editores do conteúdo que queremos receber. Se não experimentaram, dêm uma espreitadela e vão ver como é atractivo o interface que foi criado.

A verdade é que ler feeds, navegar por sites de jornais e revistas, decidir se determinado wiki é ou não fidedigno, seguir hiperligações, tudo isto é muito diferente de abrir o jornal e ler as notícias. Quantas vezes a leitura de um artigo de opinião é interrompida por uma busca no google, quantas vezes sigo uma hiperligação numa notícia abandonando esta e por vezes também a primeira, quantas vezes o vídeo que acompanha uma reportagem me distrai da informação. Quando iniciei um blogue, em 2003, havia imensa gente a aconselhar-me a ter textos pequenos, parágrafos pequenos e separados, frases curtas, ideias simples – ninguém, diziam-me, tem paciência para ler um texto longo e complexo no ecrã de um computador.

Esta parafernália de oferta digital mudou a forma como digiro a informação. E faz-me falta o tempo de ler uma reportagem no jornal, o ritual de seguir uma coluna de opinião. Desejo que nisto os que são da minha geração se identifiquem comigo. Somos nós que podemos fazer a ponte entre as gerações mais velhas, muito mais relutantes que nós quer em prescindir dos meios antigos quer em usufruir dos novos, e as gerações mais novas, muito resistentes ao papel e à saudável lentidão que lhe está associada. É a nossa geração, apanhada e responsável por uma transição de hábitos, que reflecte mais sobre estes assuntos, ou deve fazê-lo. Aqui está em causa muito mais do que a forma como decidimos consumir. É a qualidade das escolhas que se nos oferecem que está em jogo. Não nos podemos demitir nem do debate nem do peso político das nossas escolhas. E numa democracia de mercado, o que consumimos e onde decidimos gastar dinheiro é tão influente como um voto.

Nuno Miranda Ribeiro

Revista Nature reflecte sobre o declínio do jornalismo cientifico

Posted in Notícias by Afonso Duarte Pimenta on 19 de Março de 2009

As repercussões actuais relativas ao jornalismo escrito não se esgotam na imprensa generalista. O campo científico , segundo o artigo “Science journalism: Supplanting the old media?” , da autoria de George Brumfiel e publicado no passado dia 18 de Março no site da revista “Nature”, também está a ser afectado. A ter em conta, de forma adicional, o artigo de opinião “Filling the Void” .

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Movimento

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 18 de Março de 2009

Faço parte dos muitos que, gradualmente, foram deixando de comprar jornais. O processo começou há anos. A partir de certa altura, todos os principais jornais estavam online. Na internet conseguia ler mais jornais do que seria possível em papel. Quando, há cerca de 8 anos, trabalhei como jornalista num site, nos meus favoritos havia uma pasta “Jornais”, e dentro, uma pasta para cada país. Entre jornais portugueses, espanhóis, franceses, ingleses, alemães, italianos e americanos, tinha uns 30 links disponíveis, que me permitiam saltar rapidamente para a página do jornal. Isto aconteceu, obviamente, na pré-história.

Actualmente, com a subscrição de feeds, o meu método anterior é algo de anacrónico e obsoleto. No Google Reader, no telemóvel, num PDA, em qualquer tipo  de suporte é possível subscrever as actualizações de uma publicação online. É possível organizar, filtrar, personlizar a recepção dos novos textos, através do leitor de feeds que usarmos. Dessa forma podemos acompanhar, arquivar e pesquisar uma quantidade grande de informação. Sei perfeitamente que a internet oferece ferramentas interessantes e versáteis, que – e faço a inversão de sentido sem ironia –  os jornais não podem substituir. O que motivou a minha participação no MFJEP não é sentir, de alguma forma, repulsa ou sobranceria em relação aos jornais e outras publicações online, e muito menos algum tipo de desprezo ou fobia em relação ao meio www.

Associo-me desde o início ao MFJEP – Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago, porque vejo nesta iniciativa uma forma de cidadãos exigentes e atentos lutarem contra a degradação deste pilar fundamental da democracia que é o jornalismo.

Sei que dizer, em relação ao jornalismo, que se trata de “um pilar fundamental da democracia” é um cliché gasto pela repetição – pelo menos tanto quanto a expressão “movimento a favor”. Talvez o desinteresse e a falta de iniciativa, crónicas e contagiosas maleitas de que padecem os portugueses, expliquem que nos custe tanto movimentarmo-nos em conjunto a favor de algo que nos diz respeito. A maior parte das pessoas não se alarma com o perigo de degradação da qualidade do jornalismo, quanto mais reflectir sobre as suas consequências directas na degradação da qualidade da democracia. É também aqui que pretendemos atacar, ferindo a inércia e a preguiça, despertando e usando de saudável agitação. 

Tal como o Afonso refere no texto que lançou este movimento, o jornalismo que conhecemos hoje, pode acabar dentro de pouco tempo. O modelo existente ainda tem o jornal de papel com o seu preço de capa e a sua publicidade tradicional, mesmo se nos sites se concentram mais serviços e, na maior parte dos casos, mais notícias e mais actualizadas que na versão em papel. Ora, com a queda nas compras e os custos de manutenção não só da versão impressa mas também da versão e serviços online, muitos jornais correm o risco de fechar. Outros, ainda que não acabem, poderão ser desvirtuados até ao ponto de se perderem grande parte dos critérios jornalísticos. 

Se nada mudar, ficaremos entregues a um número (ainda mais) reduzido de jornais, quase todos apenas na versão online. E, o problema maior é esse, a versão online não será o que é hoje – com as redacções a serem reduzidas e os jornalistas a acumular tarefas e a ficar sem tempo para assegurar qualidade e rigor.

Compra um jornal por dia! Estás a assegurar o teu futuro, não só o dos jornais. Ou preferes um mundo sem informação credível? Escolhe viver num futuro em que a imprensa livre se reforça e consolida, em vez de desaparecer ou ficar moribunda. 

Nuno Miranda Ribeiro

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O “Anti- Twitter”

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 18 de Março de 2009
"Leyendo el Periódico", David Yerga

"Leyendo el Periódico", David Yerga

O jornalismo, como o tivemos, não durará. Existe uma certa demissão na transferência para o virtual. O cidadão informado – que, acima de tudo, se quer, a ele próprio, informado – reduz-se, em grande medida, à fragmentação; ao pluralismo em linha. Encontra-se, parcialmente, desligado. Este modelo, como complemento de uma tentativa de agarrar o actual, embora menos reflectido, é já necessidade. Longe de substituir o conhecimento integrado que o artigo de opinião, a reportagem densa e a investigação demorada conferem.

Numa realidade em que muita da “actualidade” não passa de tentativa de desinformação, manipulação, apropriação ou veículo de marketing e propaganda, afirma-se a necessidade de atenção ao pormenor.

A tentação do entretenimento, o jornalismo direccionado, o argumento do consumidor activo encerra a contradição de um maior sedentarismo. A World Wide Web torna-se, assim, menos democrática. Na afirmação das nossas escolhas, vamos ao encontro do que já somos. A notícia “num clique”, confirma-nos: mantém-nos longe.

O jornalismo escrito, enquanto produto, não pode ser encarado exclusivamente como tal: ele é aquilo que me alerta para o que eu não sou. O único veículo que possuo para estar atento relativamente ao que é exterior à minha diminuta capacidade de alcance e atenção: o poder.

A acomodação do consumidor à formatação preguiçosa dos jornais em linha tem conduzido ao desinvestimento publicitário , diminuição qualitativa e consequente perda de novos leitores, emagrecimento de redacções e falência de inúmeras publicações a nível global.

O relativista, na sua constante necessidade de almofadar a realidade dirá que tudo se recompõe: o mercado regula sempre, como sempre nos quiseram fazer crer, apesar de inúmeros avisos, a interminável corte de padres economicistas. Começa aqui o problema: o mercado, visto como um gigante, ausente de influência humana. Redundância.

Segundo previsões, o formato em linha, numa hipotética realidade – de resto, segundo alguns, mais próxima do que desejaríamos acreditar – em que o suporte físico desapareça, poderá apenas suportar 10% dos custos que as publicações actuais exigem. Saber custa dinheiro. Pelos vistos, a democracia também.

Por isso, compro um jornal por dia.

Afonso Pimenta

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