O Papel das Notícias

O “Anti- Twitter”

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 18 de Março de 2009
"Leyendo el Periódico", David Yerga

"Leyendo el Periódico", David Yerga

O jornalismo, como o tivemos, não durará. Existe uma certa demissão na transferência para o virtual. O cidadão informado – que, acima de tudo, se quer, a ele próprio, informado – reduz-se, em grande medida, à fragmentação; ao pluralismo em linha. Encontra-se, parcialmente, desligado. Este modelo, como complemento de uma tentativa de agarrar o actual, embora menos reflectido, é já necessidade. Longe de substituir o conhecimento integrado que o artigo de opinião, a reportagem densa e a investigação demorada conferem.

Numa realidade em que muita da “actualidade” não passa de tentativa de desinformação, manipulação, apropriação ou veículo de marketing e propaganda, afirma-se a necessidade de atenção ao pormenor.

A tentação do entretenimento, o jornalismo direccionado, o argumento do consumidor activo encerra a contradição de um maior sedentarismo. A World Wide Web torna-se, assim, menos democrática. Na afirmação das nossas escolhas, vamos ao encontro do que já somos. A notícia “num clique”, confirma-nos: mantém-nos longe.

O jornalismo escrito, enquanto produto, não pode ser encarado exclusivamente como tal: ele é aquilo que me alerta para o que eu não sou. O único veículo que possuo para estar atento relativamente ao que é exterior à minha diminuta capacidade de alcance e atenção: o poder.

A acomodação do consumidor à formatação preguiçosa dos jornais em linha tem conduzido ao desinvestimento publicitário , diminuição qualitativa e consequente perda de novos leitores, emagrecimento de redacções e falência de inúmeras publicações a nível global.

O relativista, na sua constante necessidade de almofadar a realidade dirá que tudo se recompõe: o mercado regula sempre, como sempre nos quiseram fazer crer, apesar de inúmeros avisos, a interminável corte de padres economicistas. Começa aqui o problema: o mercado, visto como um gigante, ausente de influência humana. Redundância.

Segundo previsões, o formato em linha, numa hipotética realidade – de resto, segundo alguns, mais próxima do que desejaríamos acreditar – em que o suporte físico desapareça, poderá apenas suportar 10% dos custos que as publicações actuais exigem. Saber custa dinheiro. Pelos vistos, a democracia também.

Por isso, compro um jornal por dia.

Afonso Pimenta

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4 Respostas

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  1. The “Anti- Twitter” « Guerras do Século XXI said, on 28 de Setembro de 2011 at 8:14

    […] article was originally published in Portuguese on March 18th, 2009 and translated to English on January 14 th, […]

  2. […] article was originally published in portuguese  here on March, the 18 th of 2009 and translated to english on January,  the 14 th of […]

  3. Suicidio do jornalismo? « O Peso e a Leveza said, on 3 de Abril de 2009 at 22:44

    […] Afonso Pimenta […]

  4. […] Dizia o Afonso Pimenta, no texto que iniciou o MFJEP, “O jornalismo escrito, enquanto produto, não pode ser encarado exclusivamente como tal: ele é aquil…“  […]


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