O Papel das Notícias

A nostalgia do papel

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 21 de Março de 2009
Sinclair ZX Spectrum Notebook Mod

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É comum, na minha geração e nas anteriores, um sentimento antecipado de nostalgia pelas publicações em papel. Ainda se publicam livros impressos (mais do que nunca) e já sofremos com a antevisão de um odioso mundo novo em que seremos obrigados a ler em ecrãs o que agora podemos desfolhar. Curiosamente, foi a minha geração (a dos que têm actualmente trinta, trinta e poucos anos) a fazer a transição, no que diz respeito aos jornais. Aconteceu comigo e com os da minha idade: passámos, ainda adolescentes, a depender cada vez mais do computador. Foi também a minha geração, parece-me, que garantiu o sucesso de coisas como a playstation: crescemos com o ZX Spectrum e, mais tarde, a playstation cresceu connosco e graças a nós; somos quem tem poder de compra para adquirir os jogos, ao contrário dos que agora são crianças e dependem do dinheiro dos pais para esses gastos – parte substancial dos jogos produzidos são apontados para a faixa etária dos 18-25 e há comunidades imensas de gamers que jogam há mais de 20 anos.

Quando, no final dos anos 1990, a www começou a ser o que é agora, mudámos alegremente de hábitos, adolescentes ainda em processo de formação desses mesmos hábitos. Não conheço estatísticas, mas arrisco dizer que é entre os 30 e os 35 anos que existem mais subscritores de feeds. Fomos os pioneiros do mIRC e mais tarde do Hi5. E mesmo se os actuais pré-adolescentes já não fizeram transição, tendo crescido em plena era da internet, a nossa geração continua, claramante, a ter um peso político, económico e social, absolutamente determinante. Já somos suficientemente velhos para ganhar o nosso próprio dinheiro e fazer escolhas autonomamente mas ainda somos suficientemente novos para que não ignoremos o apelo das últimas trends – por falar nisso, tenho a sensação que no uso do twitter em Portugal, a média de idades também andará na casa dos trinta. Somos, então, suficientemente maduros para decidir e suficientemente novos para que a publicidade nos considere apetecíveis.

Se é comum ouvir dos da minha geração desabafos nostálgicos sobre os livros, não é tão frequente escutar reparos semelhantes sobre os jornais. Durante a minha juventude li as crónicas do MEC, apanhei alguns números da revista K, vi terminar o Independente e a Capital – ambos mantendo ecos em blogues, disponíveis nos links que coloquei ali atrás. Assisti, enquanto jovem formado em jornalismo, à degradação do mercado de trabalho ligado à comunicação social, quase proporcional ao aumento de interesse pela área e com uma aparente multiplicação de ofertas e novas áreas de trabalho – na verdade o que aconteceu foi o declínio do prestígio da figura do jornalista dentro da redacção, o quase-fim da figura do revisor e o abuso sistemático da figura do estagiário (e este último será tema de uma próxima crónica).

Fico com a ideia que o que aconteceu comigo foi mais ou menos generalizado na minha geração. Gradualmente, passei de leitor de jornais e revistas para leitor de publicações online: não só as versões digitais das publicações impressas de que era leitor, mas também de uma infinidade de outras fontes de notícias e inofrmação. Já não sei o que seria de mim sem o imdb ou o allmusic, e sou cada vez mais utilizador da Wikipedia. Revistas estrangeiras, que nunca comprei em Portugal na versão impressa, passaram a estar disponíveis num browser. Mais recentemente, já no fim da minha adolescência, houve a explosão dos blogues. E com a proliferação de páginas de conteúdo actualizado ferquentemente, vieram os feeds. Neste momento, tenho no telemóvel feeds tão diversos como de revistas de música e do blogue do Saramago. Habituei-me à facilidade de utilização e à crescente versatilidade deste conteúdo gratuito e online. A certa altura, praticamente deixei de usar o Google Reader, tantas eras as subscrições que se tornou impraticável acompanhar o conteúdo. Neste momento, o Yahoo Pipes levou mais longe ainda esta capacidade de sermos quase editores do conteúdo que queremos receber. Se não experimentaram, dêm uma espreitadela e vão ver como é atractivo o interface que foi criado.

A verdade é que ler feeds, navegar por sites de jornais e revistas, decidir se determinado wiki é ou não fidedigno, seguir hiperligações, tudo isto é muito diferente de abrir o jornal e ler as notícias. Quantas vezes a leitura de um artigo de opinião é interrompida por uma busca no google, quantas vezes sigo uma hiperligação numa notícia abandonando esta e por vezes também a primeira, quantas vezes o vídeo que acompanha uma reportagem me distrai da informação. Quando iniciei um blogue, em 2003, havia imensa gente a aconselhar-me a ter textos pequenos, parágrafos pequenos e separados, frases curtas, ideias simples – ninguém, diziam-me, tem paciência para ler um texto longo e complexo no ecrã de um computador.

Esta parafernália de oferta digital mudou a forma como digiro a informação. E faz-me falta o tempo de ler uma reportagem no jornal, o ritual de seguir uma coluna de opinião. Desejo que nisto os que são da minha geração se identifiquem comigo. Somos nós que podemos fazer a ponte entre as gerações mais velhas, muito mais relutantes que nós quer em prescindir dos meios antigos quer em usufruir dos novos, e as gerações mais novas, muito resistentes ao papel e à saudável lentidão que lhe está associada. É a nossa geração, apanhada e responsável por uma transição de hábitos, que reflecte mais sobre estes assuntos, ou deve fazê-lo. Aqui está em causa muito mais do que a forma como decidimos consumir. É a qualidade das escolhas que se nos oferecem que está em jogo. Não nos podemos demitir nem do debate nem do peso político das nossas escolhas. E numa democracia de mercado, o que consumimos e onde decidimos gastar dinheiro é tão influente como um voto.

Nuno Miranda Ribeiro

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3 Respostas

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  1. Tirania e Comunicação « Guerras do Século XXI said, on 28 de Setembro de 2011 at 8:11

    […] como refere Nuno Miranda Ribeiro em “A nostalgia do papel” no blogue do MFJEP (Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago), a geração que se encontra […]

  2. Victor Alves said, on 29 de Março de 2009 at 23:14

    Todos têm razão.
    Mas o tacto e o olfacto, por enquanto, não foram substituídos.
    Claro que já perceberam que sou um jornalista do papel, no papel de jornalista.
    Bem hajam.

  3. […] como refere Nuno Miranda Ribeiro em “A nostalgia do papel” no blogue do MFJEP (Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago), a geração que se encontra […]


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