O Papel das Notícias

O que tem o jornalismo de tão especial?

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 2 de Abril de 2009

Foto de Tim Silverman - http://supertim.deviantart.com/

Foto de Tim Silverman - http://supertim.deviantart.com/

O YouTube mantém o lema inicial: “Broadcast Yourself”. O fenómeno dos blogues, cujo crescimento parece ter abrandado seriamente, veio transformar cada pessoa com um computador com ligação à internet num autor (ou em muitos casos, num simples autómato de repetição ou mesmo plágio). O Twitter, com a pergunta “what are you doing?” veio sugerir-nos que é importante, para os outros, o que estamos a fazer, a pensar, a viver. O nosso ego, neste início do século XXI, tem uma série de ferramentas para se expressar, expandir e convencer de que é especial.

Dizia o Afonso Pimenta, no texto que iniciou o MFJEP, “O jornalismo escrito, enquanto produto, não pode ser encarado exclusivamente como tal: ele é aquilo que me alerta para o que eu não sou. O único veículo que possuo para estar atento relativamente ao que é exterior à minha diminuta capacidade de alcance e atenção: o poder.

Sempre seleccionámos a informação, como qualquer outro produto, segundo os nossos apetites, a nossa cultura e os nossos preconceitos, a nossa personalidade, os grupos de que fazemos parte e os hábitos que fomos adquirindo. Hoje, em 2009, a internet tal como existe reforça o nosso papel de decisores face ao que nos é dado consumir. Há tanto por onde escolher (quanto à forma, ao conteúdo, ao estilo, à fonte, ao suporte, etc), que somos mesmo forçados a escolher, a todo o instante.

O sucesso do YouTube veio confirmar (pregando um valente susto às grandes cadeias de televisão) que as gerações mais novas não têm paciência para esperar pela emissão à hora x de determinado conteúdo. Preferem procurar o conteúdo desejado e vê-lo de imediato. A minha geração, e as gerações anteriores também, de forma mais cautelosa, aderiram à facilidade de aceder ao que se quer quando se quer. Os mais novos já não se sentam tantas horas em frente à televisão como a minha geração fazia. Algumas dessas horas são agora passadas em frente ao ecrã do computador. Vai-se à procura do que se quer ver e ouvir, em vez de se esperar pela transmissão à hora marcada.

Da mesma forma, deixou de se comprar o jornal, para se ir à wikipedia, ler blogues, ocasionalmente consultar a página de uma publicação, principalmente se alguém conhecido nos atirou com um link. Esta mudança de atitude, amplificada pela valorização desmedida do ego, tem algumas consequências nefastas. Grande parte do tempo não estamos receptivos à aprendizagem, ao novo, ao confronto e à surpresa. Apenas procuramos reforçar com mais dados aquilo que julgamos saber, apenas queremos encontrar validação para os nossos valores e preconceitos. Somos o editor e o censor de nós próprios. E com algum sucesso, se deixarmos de consultar a informação que é agregada e difundida por profissionais, sem o filtro da nossa conveniência.

Quando andamos na escola há um programa, que pode ser adaptado aos alunos mas que é razoavelmente fixo. Foi estabelecido como um conjunto de conhecimentos que são essenciais e desejáveis. Na vida adulta, o jornalismo é uma fonte de conhecimento importante. Já não existe a benevolência mais ou menos contaminada, mais ou menos iluminada dos programas escolares. Existe uma selecção, feita por profissionais, do que é importante saber sobre o que está a acontecer.

As regras e o método com que é produzido o jornalismo pretendem contribuir para que o bolo da informação difundida se ponha a jeito de ser apreendido enquanto conhecimento. A alteridade de que o Afonso falava é de extrema importância. Independentemente do mundo em que eu preferiria acreditar, o mundo é o que é. Os jornalistas não me dão o mundo, é verdade. As notícias não devem ser confundidas com a realidade. Mas são resumos, retratos, relatórios, crónicas do que é real e existe fora de mim.

Os jornalistas estão obrigados a distinguir com clareza o que é facto do que é opinião. Algo a que os bloggers, obviamente, não têm de ligar importância. A propósito, o que aqui neste blogue é produzido não é jornalismo. Há uma grande exigência, que nos compromete. Mas damos a nossa visão particular sobre as coisas. Seleccionamos o que julgamos importante segundo o contexto em que criámos o MFJEP. Os jornalistas ouvem as várias partes envolvidas numa história, e devem, embora nem sempre o façam, confrontar as versões obtidas com os factos apurados.

Os editores têm a missão de escolher, de entre avalanches de informação, o que deve ser noticiado. E fazem-no, a isso os obriga a deontologia, segundo o interesse público e não segundo critérios pessoais, políticos ou comerciais. Numa democracia, são os jornalistas que “vigiam” e reportam a actualidade, a acção dos políticos e “o que acontece”, são eles que nos trazem o que de novo se produz em ciência e arte, que nos põem em contacto com o mundo em que vivemos.

Qualquer ameaça à integridade e qualidade do jornalismo é uma ameaça à nossa liberdade. A ignorância e a alienação (que o jornalismo previne e combate) são ameaças constantes à liberdade. Confundimos, desde sempre, “capacidade de fazer coisas” com liberdade. Porque temos dinheiro suficiente para consumir mais, viajar mais, fazer mais coisas que os nossos vizinhos de planeta que habitam na metade pobre, não somos mais livres. Somos livres enquanto soubermos quais as opções que se nos apresentam, somos livres enquanto pudermos construir a nossa escolha. E sem o jornalismo e a sua função de mediação entre realidade e personalidade e de formação da consciência colectiva, não passamos de animais com dinheiro no bolso.

Nuno Miranda Ribeiro

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