O Papel das Notícias

Jornalismo: cenários de ficção

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 27 de Abril de 2009

Se Ashton Kutcher é MTV, ainda é MTV. Mas é modelo de adaptação. Se artilharia moderna é visibilidade, o marketing – mais que empresarial – é individual. Mesmo que ilusório para uma maioria de cidadãos, o tom da temporada é o brand yourself: o homem da multidão. O actor, em jeito de representação bíblica, soube que o twitter existe. E desafiou o gigante informativo CNN. Sabe que a promoção actual é adquirida por aproximação. Finge, por isso, pôr-se ao nível dos seus fans. E através deles enfrentou a corporação: a vitória é nossa”, declarou. O objectivo era o de alcançar o milhão de seguidores e ultrapassar o canal de televisão. Se o conseguisse doaria dez mil redes anti- mosquito em honra ao Dia Mundial da Malária. Se vencesse. O gesto, apesar de bem intencionado, tem qualquer coisa de dificuldade institucional; oposição a um organismo compacto – integrado – que o vigia. Que me limita. Para a estrela foi sinónimo de “supremacia popular” sobre o “sistema”. Sendo que o povo é, essencialmente, ele próprio. E o sistema quem o observa. Contudo, Ashton Kutcher é ainda MTV.

Entretanto, uma nova geração teatraliza- se. Está no centro do palco. Aos nossos olhos: no futuro e na publicidade. Once and for all we´re gonna tell you who we are so shut up and listen, de passagem pela Culturgest, não podia ser mais referencial. O espectáculo, representado por treze adolescentes a encarnar outros tantos actores, ritualiza, supostamente, o comportamento de um determinado tipo de juventude actual. O descontrolo é, aqui, propositadamente coreografado. A banda sonora, contaminada. Representação de uma representação de uma pulsão encenada? Ou, pelo contrário, tentativa de controlo de uma realidade interna latente através da liberdade da representação?

A noção de anarquia – ainda não com esta expressão – foi identificada em Tirania e Comunicação. Escapando a um certo bom senso, idealizei, a partir dali, uma sociedade futura. Em pequenos ímpetos de realização cinematográfica surge a concepção de um mundo em que o excesso de amor e parca informação conduzem ao levantamento de uma vontade maior. Para a liderança. Que se manifesta, de forma superior, numa quantidade considerável de individuos: centrados em si; pouco tolerantes a um vulgar “não” e sedentos de uma distracção que compense, fora de casa, o lugar deixado vago por iPhones, entretenimento e iPods sucessivos. A maior troope de ditadores que jamais caminhou sobre a terra. Com a informação a limitar os passos. Tudo isto não passa de futurismo. É necessário decoro. É mau rascunho para argumento série- b. Por isso – para estar naquele meio termo que lhe é característico – há que juntar realidade.

They´ve got your number: é o titulo atribuído por Charles Arthur a um artigo publicado no passado dia treze de Abril no Guardian. O jornalista de investigação – não são já muitos – precisará, contra o excesso de intromissão estatal e empresarial, de perder um pouco a : na tecnologia. Redescobri-la em armas eternas: papel e caneta. Juntar-lhes um cartão não registado de telemóvel e uma velha motorizada. É o futuro a meio gas. Devido a novo regulamento governamental, as companhias de internet e telefone britânicas serão obrigadas a registar números e contactos. O que poderá facilitar a localização de fontes jornalísticas. Que conduzirá ao medo. E ao decréscimo da delação do crime e corrupção. O negócio paralelo da venda de informação faz-se ao nível da pequena corporação. E o ser humano, quando elevado a posição superior, não sacraliza a instituição. Poder- se- ia parar por aqui. Mas a seguir ao amarelo vem o sinal vermelho: a sofisticação Automatic Numberplate Recognition, introduzida pela polícia, tem como desígnio a identificação de um fugitivo criminal através da matrícula automóvel frontal. Sistema que permite desenhar o trajecto percorrido. Por isso a recomendação: a motorizada não é abrangida. O papel e a caneta não permitem identificação. Um cartão de telemóvel não registado também não. É a metodologia da investigação lado a lado com o terrorismo. Ficção? Realidade. Mas dois cenários confundíveis na demanda de um guião.

São tempos de falência, recuo publicitário e avanço digital: o obituário de um jornal está na sua própria capa. O mercado procura a qualidade. Mas a qualidade na comodidade. A antropologia, tão requisitada a nível empresarial, busca a localização de espaços em branco. A análise microscópica de tendências e inclinações visa a detecção de nichos emocionais. É- lhes atribuído a designação de necessidade. Para a fabricação de novo produto. Que aumenta a dependencia e a fragilidade pessoal. Infantiliza-se. O que, inevitavelmente, promove o surgir de novas oportunidades de negócio. A dinâmica, em espiral, subverte, para toda uma geração de artistas, a informação. Porque a converte em entretenimento. Todo um ciclo de evasão que afecta o trabalhador futuro. Consumidor do presente. Alan Murray define, da seguinte forma, características e funções do reporter para o formato em linha do The Wall Street Journal: “Rapidez”, “Construção de audiências”, “tuitar” e “divertir-se” (?). Nada disto é jornalismo.

Por trás de toda a toxicidade argumentativa esconde-se, quase sempre, uma verdade instintiva. Qualquer coisa – no presente caso – de desvalorização – paradoxo – colectiva da coesão. O despontar de um encapotado e polido sub- género de anarquia. Interessa, por isso, um conhecimento disperso, fragmentado e pouco estruturado. Que não controle. Nem seja controlável.

Sem o olhar distraído e vagamente cúmplice do mercantilista moderno, a frase proferida em inquérito por um jovem consumidor de informação – If the news is that important it will find me – resume o conceito- chave que sustenta a deslocação para o digital. Contudo, ofusca uma outra expressão:

A notícia sou eu

E esta é, quanto a mim, a questão ignorada.

 

Afonso Pimenta

 

 

 

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