O Papel das Notícias

O meio e a mensagem

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 14 de Julho de 2009

Imagem obtida em inkart.com: http://3.ly/gUa

Nuno Miranda Ribeiro

No que diz respeito à internet, eu subscrevo primeiro e pergunto depois. Sou, fui, em muitos serviços, o que se chama um early adopter. Foi o caso do Twitter, que subscrevi e deixei em suspenso durante mais de um ano (principalmente porque me fartei  das constantes falhas no servidor, que faziam interromper o serviço). Sou dos que têm demasiadas contas nas redes sociais (no meu caso, exceptuando o hi5, Orkut, Facebook e sites desse género), tantas que  não me lembro de todas.

Quando descobri os feeds, passei a ler demasiados blogues. Depois descobri o Google Reader e subscrevi tantos feeds que deixei de ler blogues. Recentemente passei a usar o Feedly, o que fez com que voltasse, timidamente, a ler blogues. Gosto do facto de haver, para cada serviço, muitas opções – quando me inscrevi no Geni, abri conta em mais 5 ou 6 sites de criação e gestão de árvores genealógicas. Uso, ao mesmo tempo, o Last.fm e o Grooveshark e estou inscrito em mais uma dezena de serviços semelhantes – embora só use os dois que referi. Não vou continuar a dar exemplos, porque me envergonha um pouco a forma deslumbrada, festiva e caudalosa de me relacionar com os serviços online.

Penso que posso afirmar com alguma exactidão que qualquer pessoa que tenha um curso de jornalismo, comunicação, marketing ou publicidade, conhece a expressão “O Meio é a mensagem”. E muitos conseguirão relacioná-la com Marshall McLuhan. A expressão não é inteiramente pacífica. Na sua formulação hermética, foi muitas vezes recebida mais  como uma provocação e um jogo de palavras do que  como a síntese de uma ideia. É tão relevante, no estudo dos fenómeno envolvidos na comunicação, que mereceu a sua própria página na Wikipédia.

A forma como entendo a expressão de McLuhan deixa-me apreensivo em relação a uma tendência minha de me deslumbrar e envolver no meio (e o contexto é o da internet), desinteressando-me da eficácia da transmissão de conhecimento ou da utilidade didáctica das ferramentas online a que adiro entusiasticamente. Se faço disso motivo de crónica é porque me parece que apenas sou um exemplo de como as pessoas se relacionam com os media. E se o meu comportamento é consonante com o comportamento mais frequente na minha geração e seguintes, a gravidade da minha preocupação está, suspeito, longe de ser habitual.

O You Tube, os feeds, o Twitter, o Facebook e o Myspace são menos ferramentas a que se recorre e mais o ambiente em que se está. Muitos sites procuram criar uma atmosfera lounge, confortável e apelativa, exactamente por perceberem que os utilizadores têm o site aberto e frequentam-no como a uma esplanada, uma biblioteca ou um bar. A diferença é que nesses locais não estamos isolados, medindo tudo pela satisfação do ego. É verdade que comunicamos, que dizemos coisas que são entendidas e entendemos coisas que nos são ditas. Dizemos muito mais coisas do que diziam os nossos avós. Ou melhor, linkamos, reencaminhamos, partilhamos, clicamos.

O que quero sugerir talvez seja mais fácil de entender com o exemplo do telemóvel. Antes de existir a possibilidade de levarmos connosco um engenho que permite fazer chamadas telefónicas, não havia uma necessidade terrível a que fosse imperioso corresponder. Os telefones fixos serviam-nos muito bem. Neste momento, uma empresa que ficasse sem telemóveis, teria imensas dificuldades. Fala-se ao telemóvel porque se pode. E porque se pode falar ao telemóvel, organizamos os nossos compromissos, o nosso quotidiano e a nossa forma de pensar à volta disso. O exemplo do telemóvel vai para além da função inicial do aparelho: falar à distância.

É um exercício interessante observarmos, num local público, as pessoas que estão sozinhas. Uma parte certamente estará de telemóvel na mão, manipulando-o com a perícia do hábito. Sim, desses uma parte estará a enviar sms’s. Mas os outros não. Têm o telemóvel na mão e rodam-no na mesa do café ou passam o polegar pelo ecrã ou vêm as horas, de minuto a minuto. A nova tendência dos ecrãs tácteis, veio exponenciar este contacto sensual e íntimo com o que começou por ser um aparelho telefónico. A forma como nos relacionamos com o telemóvel dá sentido a algo que o McLuhan afirmou: os meios de comunicação são uma extensão do nosso sistema nervoso central, ligando-nos a todos em rede. Proferimos metáforas McLuhanianas diariamente, sem nos apercebermos: “estou sem rede”, “fiquei sem bateria”, “dá-me um toque”. Sou eu que estou sem rede, eu que fiquei sem bateria, eu que receberei um toque. Lembro-me de quando, há uns 8, 9 anos, me surpreendi com as palavras de um homem que fez uma chamada do seu telemóvel, quando o comboio em que seguíamos estava a chegar ao destino. Quando atenderam do outro lado, disse “olha, estou a chegar, sim, não se atrasou, estás aí como combinado?, ok, o comboio está quase a parar, sim, até já”. Espantei-me, divertido e incrédulo, com a inutilidade do telefonema. Hoje, uma parte dos meus telefonemas devem ser assim, inúteis e redundantes – mas cumprem a sua função de me fazer sentir próximo, ligado, disponível.

Quando estamos no Facebook ou no Msn, as coisas passam-se a um nível mais complexo. Sentados em frente ao computador, somos (corpo e máquina) um ser simbiótico, uma silhueta cibernética, de poderes e alcance aparentemente ilimitados. Gostamos de ser estimulados, apaparicados, de receber links e smileys, partilhar o riso à volta de um vídeo, carregar no enter, no fim de uma frase, para poder voltar a encarar a webcam. E o que estamos a comunicar?

Cada vez se começa a usar o telemóvel mais cedo. Os pais parecem aliviados por viver num tempo em que é possível ligar a meio do dia para um número e falar com a cria, para confirmar que tudo está bem. É um cordão umbilical McLuhaniano, que passa a fazer falta, a partir do momento em que é disponibilizado. Enquanto crescia, não tive esta possibilidade de ligar do meu próprio telefone (e portátil, ainda por cima) para os meus amigos. Não tive um computador ligado à internet no quarto onde continuar a conversar com os amigos, mesmo depois das aulas. As crianças, e de forma muito intensa na pré-adolescência, têm esse espaço de ligações e contactos, que não me atrevo a chamar de virtual, que se acrescenta ao espaço físico da rua – menos frequentada -, da carteira da sala, do quarto. Para um adolescente, ficar sem rede, ficar sem bateria, é mesmo um problema.

Todos estes meios que usamos aumentam a eficácia da comunicação? E sem eles, conseguimos comunicar de forma completa, pertinente? Mais ainda, o objectivo principal, ao usarmos telemóveis e computadores, é comunicar?

Destruir e Acreditar

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 1 de Julho de 2009
Fotografia por João de Medeiros

Fotografia por João de Medeiros

 

 João de Medeiros    

Interrompi a rotina diária ao ler a crónica do Afonso, “O Terror da Opinião/Relativismo Nacional”, agarrado por uma ideia gratificante de consciência. Dizem que a consciência é o primeiro passo para a correcção. Ou, se não quisermos entrar nos preconceitos de certo ou errado, bem e o mal, diria: o primeiro passo para mudarmos. Se o nosso mundo se encontra numa situação onde autores se vêem reduzidos ao desabafo, sob a forma de movimento de ruptura com as actuais ideias e valores praticados, encontro apenas refúgio naqueles que, perdidos na morte e passado, nos deixaram um legado premonitório. E é com grande contrariedade e grande paixão que me revejo nas palavras de Ayn Rand. No seu grande romance, “Atlas Shrugged”, onde exercita as noções e conceitos do seu “Objectivismo”, encontramos um enorme paralelismo com a realidade actual: é a história de um grupo de artistas, empresários, industriais e intelectuais que decide revoltar-se contra a crescente sociedade medíocre que os rodeia. Onde a competência é sancionada. Onde a sociedade implacavelmente persegue aqueles que defendem  a liberdade de trabalhar por mérito e lucro. Onde o sucesso monetário é visto como um inimigo social: talvez mesmo o mais perigoso. Revejo muito o destino de Mr.Rearden na cultura. E, quando digo cultura, incluo o jornalismo em Portugal. E passo a citar do original:

 – “You pose as a champion of freedom, but it’s only the freedom to make Money that you’re after.”

-“Yes, of course. Al I want is the freedom to make Money. Do you know what that freedom implies?”

-“Surely, Mr.Rearden, you wouldn’ t want your attitude to be misunderstood. You wouldn’t want to give support to the wide spread impression that you are a man devoid of social  conscience , who feels  no concern for the fellows and Works for nothing but His own profit.”

-“No. I do not want my attitude to be misunderstood. Ishallbeglad to state it for the record. I am in full agreement with the facts of everything said about me in the newspapers – with the facts, but not with the evaluation. I work for nothing but my own profit – wich I make by selling a product they need, to men who are willing and able to buy it. I do not produce it for their benefict at the expense of mine, and they do not buy it for my benefict at the expense of theirs; I do not sacrifice my interests to them nor do they sacrifice theirs to me; we deal as equals by mutual consent to mutual advantage – and I am proud of every penny that I have earned in this manner. (…) I shall answer all the questions you are affraid to ask me openly.

Do I wish to pay my workers more than their services are worth to me? I do not. Do I wish to sell my product for less than my customers are willing to pay me? I do not. Do I wish to sell it at a loss or give it away? I do not. If this is evil, do whatever you please about me, according to whatever standards youhold. These are mine. I am earning my own living, as every honest man must. I refuse to accept as guilt the fact that I am able to do itand to do it well. I refuse to accept as guilt the fact that I am able to do it better than most people the fact that my work is of greater value than the work of my neighbors and that more men are willing to pay me. I refuse to apologize for my ability (…) 1

A primeira reacção que tenho é aquela palavra que nos é tão estranhamente familiar sem sabermos porquê: igualdade. Equals: iguais nos meios de comunicação, nas relações pessoais e profissionais. Igualdade social. A segunda reacção prende-se de forma óbvia com a crónica do Afonso. Atitude, diria até carácter, que nos dias que correm incorpora um fugaz conceito de um passado onde era normal a confrontação de valores e consciencialização dos mesmos. Os Zé Marias – nada tenho contra este individuo sendo o uso desse nome apenas uma ilustração de um fenómeno social – que criaram esse novo vocabulário de clusters, indústrias e bloqueios criativos servem apenas os interesses dos mesmos que acusam Mr.Rearden neste pequeno excerto. Não foi por acaso que citei do original Ayn Rand. Fi-lo porque houve tempos em que “News – Noticias”, vulgo jornalismo, significou oferecer novas visões, pontos de vista, argumentos. Acima de tudo questionamento. Para criar. Não deveríamos submeter os nossos ideais ao conforto das massas. Nem deixar de estabelecer contacto com o público através de um processo de troca. Acima de tudo, deveríamos ter orgulho em defender na praça pública,de forma crua e transparente, aquilo que nos move, aquilo nos representa, aquilo em que acreditamos e aquilo que somos.  E infelizmente tivemos, com o fenómeno de abstenção nas eleições europeias, mais uma demonstração do perpétuo ciclo em que vivemos. Onde não há derrotados. Só vencedores. Onde não existe humildade nem bom senso. Onde na hora mais importante que temos numa democracia plena, os que nos representam não são o melhor que temos mas sim os que apareceram. Se vivêssemos num universo de Rand, há muito tempo que a massa competente teria desaparecido desta sociedade. E agora que tomo consciência disso não estamos tão distantes desse universo ao vermos gerações saírem deste Portugal que é tão nosso. O que será “Liberdade”? E o que serão “Valores”?

 1 inchapter IV “Atlas Shrugged” byAyn Rand