O Papel das Notícias

Destruir e Acreditar

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 1 de Julho de 2009
Fotografia por João de Medeiros

Fotografia por João de Medeiros

 

 João de Medeiros    

Interrompi a rotina diária ao ler a crónica do Afonso, “O Terror da Opinião/Relativismo Nacional”, agarrado por uma ideia gratificante de consciência. Dizem que a consciência é o primeiro passo para a correcção. Ou, se não quisermos entrar nos preconceitos de certo ou errado, bem e o mal, diria: o primeiro passo para mudarmos. Se o nosso mundo se encontra numa situação onde autores se vêem reduzidos ao desabafo, sob a forma de movimento de ruptura com as actuais ideias e valores praticados, encontro apenas refúgio naqueles que, perdidos na morte e passado, nos deixaram um legado premonitório. E é com grande contrariedade e grande paixão que me revejo nas palavras de Ayn Rand. No seu grande romance, “Atlas Shrugged”, onde exercita as noções e conceitos do seu “Objectivismo”, encontramos um enorme paralelismo com a realidade actual: é a história de um grupo de artistas, empresários, industriais e intelectuais que decide revoltar-se contra a crescente sociedade medíocre que os rodeia. Onde a competência é sancionada. Onde a sociedade implacavelmente persegue aqueles que defendem  a liberdade de trabalhar por mérito e lucro. Onde o sucesso monetário é visto como um inimigo social: talvez mesmo o mais perigoso. Revejo muito o destino de Mr.Rearden na cultura. E, quando digo cultura, incluo o jornalismo em Portugal. E passo a citar do original:

 – “You pose as a champion of freedom, but it’s only the freedom to make Money that you’re after.”

-“Yes, of course. Al I want is the freedom to make Money. Do you know what that freedom implies?”

-“Surely, Mr.Rearden, you wouldn’ t want your attitude to be misunderstood. You wouldn’t want to give support to the wide spread impression that you are a man devoid of social  conscience , who feels  no concern for the fellows and Works for nothing but His own profit.”

-“No. I do not want my attitude to be misunderstood. Ishallbeglad to state it for the record. I am in full agreement with the facts of everything said about me in the newspapers – with the facts, but not with the evaluation. I work for nothing but my own profit – wich I make by selling a product they need, to men who are willing and able to buy it. I do not produce it for their benefict at the expense of mine, and they do not buy it for my benefict at the expense of theirs; I do not sacrifice my interests to them nor do they sacrifice theirs to me; we deal as equals by mutual consent to mutual advantage – and I am proud of every penny that I have earned in this manner. (…) I shall answer all the questions you are affraid to ask me openly.

Do I wish to pay my workers more than their services are worth to me? I do not. Do I wish to sell my product for less than my customers are willing to pay me? I do not. Do I wish to sell it at a loss or give it away? I do not. If this is evil, do whatever you please about me, according to whatever standards youhold. These are mine. I am earning my own living, as every honest man must. I refuse to accept as guilt the fact that I am able to do itand to do it well. I refuse to accept as guilt the fact that I am able to do it better than most people the fact that my work is of greater value than the work of my neighbors and that more men are willing to pay me. I refuse to apologize for my ability (…) 1

A primeira reacção que tenho é aquela palavra que nos é tão estranhamente familiar sem sabermos porquê: igualdade. Equals: iguais nos meios de comunicação, nas relações pessoais e profissionais. Igualdade social. A segunda reacção prende-se de forma óbvia com a crónica do Afonso. Atitude, diria até carácter, que nos dias que correm incorpora um fugaz conceito de um passado onde era normal a confrontação de valores e consciencialização dos mesmos. Os Zé Marias – nada tenho contra este individuo sendo o uso desse nome apenas uma ilustração de um fenómeno social – que criaram esse novo vocabulário de clusters, indústrias e bloqueios criativos servem apenas os interesses dos mesmos que acusam Mr.Rearden neste pequeno excerto. Não foi por acaso que citei do original Ayn Rand. Fi-lo porque houve tempos em que “News – Noticias”, vulgo jornalismo, significou oferecer novas visões, pontos de vista, argumentos. Acima de tudo questionamento. Para criar. Não deveríamos submeter os nossos ideais ao conforto das massas. Nem deixar de estabelecer contacto com o público através de um processo de troca. Acima de tudo, deveríamos ter orgulho em defender na praça pública,de forma crua e transparente, aquilo que nos move, aquilo nos representa, aquilo em que acreditamos e aquilo que somos.  E infelizmente tivemos, com o fenómeno de abstenção nas eleições europeias, mais uma demonstração do perpétuo ciclo em que vivemos. Onde não há derrotados. Só vencedores. Onde não existe humildade nem bom senso. Onde na hora mais importante que temos numa democracia plena, os que nos representam não são o melhor que temos mas sim os que apareceram. Se vivêssemos num universo de Rand, há muito tempo que a massa competente teria desaparecido desta sociedade. E agora que tomo consciência disso não estamos tão distantes desse universo ao vermos gerações saírem deste Portugal que é tão nosso. O que será “Liberdade”? E o que serão “Valores”?

 1 inchapter IV “Atlas Shrugged” byAyn Rand

 

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