O Papel das Notícias

O que é isso de defender o Jornalismo Escrito Pago?

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 20 de Outubro de 2009

 Nuno Miranda Ribeiro

 Porque o MFJEP é um projecto de  três pessoas, com divergências e concordâncias (as segundas sendo mais abundantes que as primeiras) e porque não existe um manifesto ou uma lista de intenções, decidi expor, de forma clara, as ideias que defendo neste contexto. Sei que são muito próximas, e coincidentes em alguns casos, com as ideias do Afonso Pimenta.  Mas irei falar em meu nome. Para contextualizar as posições e as motivações que nos levaram a iniciar o MFJEP é bom relembrar os textos com que tudo começou, agrupados em “Porquê o MFJEP?“.

I – Defender o jornalismo escrito pago não é defender o papel contra o online

Sobre o futuro das publicações em papel só conheço especulações e exercícios mais ou menos interessantes de adivinhação. Reduzir o uso  do papel parece-me bem, do ponto de vista ambiental. Reconheço que as novas gerações terão muito menos apego aos livros de papel, aos jornais e revistas que a minha geração e as anteriores. E isso, só por si, não me alarma. Tenho curiosidade em relação ao leitores de e-books, acompanho as novidades no que toca à organização dos feeds, sou cliente habitual de páginas online. Não vejo um conflito directo entre o papel e o online – e talvez isso seja uma característica essencial da minha geração (falo, obviamente, dos que se interessam em ler e em acompanhar as notícias). A minha geração, a dos que agora são trintões, fez a transição. Tive endereço de email aos 17, 18 anos. Comecei a ler jornais na versão online aos 23, 24 anos. Tive o primeiro blogue aos 28 anos. Comecei com o papel, como todos os que têm a minha idade. E se tive um ZX Spectrum aos 10 anos de idade, só tive o primeiro PC  pessoal já com 27, 28 anos – embora trabalhasse, na escola e no trabalho, com computadores desde os 16 anos. Não tenho nostalgia em relação a uma era dourada, nem fobia em relação a um futuro incerto. Os meios vejo-os como são: meios e não fins. A vinda das ferramentas online recebi-a com entusiasmo, que se vai renovando.

II – Defender que o jornalismo deve ser pago é essencial

O jornalismo sempre se debateu com as questões da independência editorial e da viabilidade financeira. Sempre houve tentativas de controle, por parte dos poderes políticos e económicos, sobre o conteúdo e a orientação dos jornais. Assegurar a autonomia, garantir independência editorial e sustentabilidade económica, sempre foi problemático. O modelo económico com que chegámos a este ponto assenta na publicidade nas páginas dos jornais e no preço da capa. A publicidade é mais cara se aparecer num produto de grande consumo e mais barata quando aparece num produto de pequeno consumo – com a excepção de alguns nichos mais bem pagos. Para os jornais, ver as vendas baixar é ver reduzir o preço a que podem vender espaço para publicidade. Somos nós, consumidores, leitores, cidadãos, que podemos e devemos financiar o jornalismo. É a forma de financiamento mais simples, mais directa e a que faz mais sentido. É que somos nós os destinatários das notícias. É por nós que se fazem reportagens e entrevistas. Não faria sentido esperar que o Estado financiasse os jornais (que são e devem ser independentes). Não podemos esperar que os agentes económicos financiem todos os jornais de forma benemérita e desinteressada. Mas podemos comprar j0rnais. Está ao nosso alcance e ao alcance da nossa carteira. Um euro por dia não é uma fortuna. E se fizermos subir as vendas dos jornais, ajudamos a que se tornem viáveis.

III – O modelo do Huffington Post não é exportável

Sim, existe pelo menos um jornal no mundo que, tendo apenas versão online, é um sucesso comercial e produz jornalismo de qualidade.  Mas isso não nos pode alimentar a esperança de que se os nossos jornais portugueses passarem a ter apenas versão online poderão funcionar, financeira e jornalisticamente. O Huffington Post é um jornal estado-unidense, com base no país com a maior economia mundial e que é escrito na língua mais falada no mundo. Os seus potenciais leitores contam-se em centenas de milhões. Nenhum jornal português pode ambicionar ter as visitas diárias que o Huff Post tem. E, online, o valor a que se vende espaço para a publicidade depende disso, do número de visitas diárias. Neste momento, a receita publicitária dos sites dos nossos jornais é escassa, não chega para financiar a página online. E não vejo, sinceramente, maneira de a coisa evoluir de forma positiva. Eliminar os custos da versão em papel é também eliminar a receita da publicidade no papel. E sem esta onde é que se vai buscar forma de financiar os jornais portugueses? Seria viável financiar um jornal (que passasse a ser apenas online) apenas com a receita da publicidade online mais a receita de algumas centenas de subscrições? Numa era em que o gratuito se vai tornando a regra é realista esperar que os leitores, que vão diminuindo, passassem a aceitar que para ler um jornal online é preciso pagar a subscrição?

IV – Está em perigo a qualidade do jornalismo

A situação actual está longe de ser a ideal. Não defendo a o jornalismo em Portugal conforme está contra um futuro ameaçador. Actualmente as redacções estão cheias de estagiários não-pagos ou muito mal pagos, em situação precária e sem tempo nem formação nem memória para se saberem defender ou para saberem defender a integridade da deontologia a que estão obrigados. Muitos dos jornalistas seniores, com mais experiência e memória, foram afastados, despedidos ou isolados. Cada vez há menos dinheiro e menos vontade de gastar dinheiro na investigação. Um jornalista típico é alguém que tirou a licenciatura nos últimos 3 anos, não está vinculado com o seu empregador, muitas vezes não é pago e que, sem sair da redacção, tem de escrever várias notícias para a versão em papel e actualizar a versão online. Tudo em pouco tempo. E sem tempo dificilmente se ouvem todas as partes, se confirmam convenientemente as pistas das fontes – sem tempo, o jornalismo é uma sucessão de relatos apressados, incompletos e minados de erros, e não a construção de histórias bem contadas, fundamentadas e assertivas. Sejamos claros, o jornalismo português actual tem muitos problemas. O facto de o seu modelo de financiamento estar em ruínas, sem substituto à vista, só vem agravar a situação. Redacções com pessoas inexperientes, pseudo-especialistas em conteúdos e actualizações do twitter,  com pouco de jornalista ou de repórter; departamentos de marketing com muito mais peso e capacidade de decisão sobre conteúdos e orientações do que os editores é o que parece vir aí. É a qualidade do jornalismo que está em causa. Se lemos em papel ou em ecrã também importa. Mas isso é pormenor, pesado na balança com a ameaça séria à qualidade da informação produzida. A democracia precisa da vigilância, da independência e da força dos jornalistas. Tendo em conta o que está em causa, um euro por dia é um preço muito razoável a pagarmos.

 

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5 Respostas

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  1. Daniel Meneses said, on 28 de Dezembro de 2009 at 19:30

    Boas Afonso,

    mais uma vez muito bem e tb concordo.

    Abraço

  2. nuno miranda ribeiro said, on 29 de Outubro de 2009 at 20:55

    António, como o Afonso disse, a tua resposta vem enriquecer a reflexão, porque emana da tua experiência diária como jornalista. Eu nunca cheguei a ter carteira de jornalista, não trabalhei o tempo suficiente para me ser atribuída. Em alguns anos, o meu desencanto com a profissão e, acima de tudo, com as condições de trabalho, afastou-me da prática do jornalismo. Se faço parte deste MFJEP, é porque não trabalhando como jornalista, não deixo de ser cidadão que depende, como todos, do jornalismo para fundamentar e alimentar as suas ideias sobre o mundo que o rodeia. Vim do pessimismo e de algum sentimento de derrota, perante as condições de exploração laboral e de degradação da figura do jornalista. Não sou, agora, um optimista de ânimo leve. Há tantas coisas que me preocupam que o pessimismo está sempre presente, de alguma forma. Mas também não acredito em baixar os braços. O MFJEP é uma forma de reflectir publicamente sobre a situação. Eu e o Afonso desconfiamos da verdadeira capacidade de o “jornalismo de cidadão” dar um contributo positivo para a qualidade e a viabilidade do jornalismo. Mas acreditamos profundamente no papel dos cidadãos, nesta como noutras questões.

    O teu testemunho, toca em todos os pontos importantes, para alguém que trabalhe diariamente numa redacção. Vou só reforçar o que dizes sobre o sindicato. Enquanto estudava e depois, enquanto procurava exercer, ouvi de muita gente que o sindicato apenas existia para atribuir a carteira profissional, que de resto não tinha nenhum outro tipo de actuação relevante. Acabei por também ver o sindicato dessa forma, uma instituição burocrática que só com muita agilidade semântica merece o nome de sindicato. Há uns tempos houve a greve dos argumentistas, nos EUA. E lembrei-me na altura, do Sindicato dos Jornalistas. Com tristeza, pensei que seria imensamente improvável algum tipo de manifestação por parte dos jornalistas portugueses, liderada pelo Sindicato dos Jornalistas. E já nem digo uma paralisação, como no caso estado-unidense. Ao menos uma manifestação, que fosse noticiada. Existe esta dificuldade épica: os jornalistas não dão notícias sobre as más práticas dos seus patrões. É como se estivessem presos na sua própria função e circunstância.

    Abraço e obrigado pelo comentário.

  3. António Soares said, on 21 de Outubro de 2009 at 16:37

    Devo dizer que como jornalista vejo diariamente, na redacção onde trabalho, o cenário descrito no seu texto em relação aos estagiários e lamento que assim seja. Como eles, eu também passei por essa fase na minha carreira e nunca ninguém fez o que quer que fosse para para mudar o estado das coisas. As razões são imensas e para começar basta dizer que a culpa é nossa. Sem entrar em politiquices, é nossa, porque não temos mentalidade lutadora, somos comodistas e só acordamos (geralmente tarde) quando mexem com o nosso bolso. Depois, não temos um sindicato activo e forte que trabalhe para revolucionar esta situação e denuncie ilegalidades. É conivente. Talvez aqui se pudesse falar na criação de uma ordem, desde que não fosse outro verbo de encher, enfim. A seguir, não interessa filosofar em redor de qualidade, sustentabilidade ou ética e deontologia em jornalismo, porque todos nós sabemos que isso não passa da teoria, porque vivemos uma ditadura económica, onde o lucro se sobrepõe à qualidade dos jornais num abrir e fechar de olhos. Nos dias de hoje, as coisas só funcionam enquanto dão dinheiro, ou servem determinados interesses. Os jornais vendem menos hoje em dia, por causa da crise, pura e simplesmente, que afectou tudo o resto, porque o poder de compra é o que se sabe com os ordenados miseráveis que pagam, os desempregados são cerca de 10% e, claro, é tão fácil ter acesso a informação gratuita através de tantos meios – porque os jornalistas tiveram de vender os seus direitos de autor por tuta e meia aos grandes grupos económicos, caso contrário vinham para a rua – que nem custa cortar na compra de um jornal. Portanto, enquanto as mentalidades não mudarem profundamente, as coisas vão funcionar da mesma forma. Eu já não acredito, porque não vejo ninguém com coragem para mudar nada, antes pelo contrário, o rebanho de carneiros é tão grande, que já não se conseguem contar. Por isso, até fico corado de vergonha, quando alguém chama ponposamente ao jornalismo o “quarto poder”.

    • afonsopimenta said, on 21 de Outubro de 2009 at 18:34

      António Soares. Obrigado pelo seu comentário. Só vem enriquecer. Sabemos que a discussão é meio utópica. Mas tem que ser feita. Iniciamos o projecto há alguns meses. Tem vindo a crescer. Sabemos que o jornalismo é um negócio. Mas parece-me que existe toda uma discussão de contornos sociais que está a ser evitada. Que não está a ser passada para o público convenientemente.

      Obrigado mais uma vez

  4. Diogo Azevedo said, on 21 de Outubro de 2009 at 9:57

    Concordo 🙂


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