O Papel das Notícias

Cumplicidade: entre online e papel, entre jornalistas e leitores

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 28 de Julho de 2010

Nuno Miranda Ribeiro

Já aqui o disse, não há nenhum motivo para que o online e o papel  sejam concorrentes ou adversários. Pelo contrário, estão reunidos todos os elementos necessários para que sejam complementares. Sou crítico de uma parte dos motivos para o recurso ao chamado “jornalismo de cidadão”, mas isso também não significa que  desconfie de tudo o que é produzido pelos cidadãos, muito menos desta forma de trabalhar voluntariamente, em regime colaborativo, que está na génese de projectos como a Wikipedia, o WikiLeaks e de inúmeras aplicações open source, como o Linux e de produtos como o Firefox e o Gimp.

O mundo não é o mesmo de quando os jornais eram a principal fonte de informação sobre os acontecimentos e a realidade. Os cidadãos já não são meros receptores, assimilando a informação de forma directa e passiva, como descrito na Teoria da Agulha Hipodérmica. Mesmo as perguntas feitas no modelo de Lasswell já não são suficientes para se poder compreender como a informação é produzida, difundida, recebida e retransmitida. Há uma noção de que cada pessoa é, por si só, um produtor de informação. Existe nessa ideia simplista algum excesso de optimismo que deturpa, ou pelo menos amputa a realidade. Talvez seja útil usar uma analogia das tecnologias de comunicação.

Dentro de recintos de grande dimensão, como os centros comerciais, existem inúmeras pequenas antenas, conhecidas, entre outras designações, como reflectores, e que têm por função precisamente reflectir o sinal das antenas maiores, localizadas no exterior, para que os utilizadores dos recintos tenham rede de telemóvel. A ideia de que cada cidadão é um produtor de informação parece implicar que cada pessoa seria uma redacção (digamos, uma redacção de uma rádio), produzindo o seu conteúdo e difundindo-o. Ora, estou convencido de que cada um de nós é como uma dessas pequenas antenas reflectoras, que servem para reflectir o sinal, dentro de determinado contexto e com alcance razoavelmente limitado. Não quero insinuar que a nossa capacidade de “reflectir” a informação que captámos é menosprezável. Pelo contrário,  é potencialmente muito poderosa esta capacidade de inúmeras antenas formarem uma rede ampla, de “contaminação” rápida e eficaz. Prova-o a propagação viral de memes, de todo o tipo de vídeos e textos, que alguém concebeu e que os utilizadores da internet em todo o mundo retransmitem com enorme rapidez.

O que pretendo dizer com o recurso a esta analogia é que a eficácia da retransmissão da informação (aliada a uma crescente e exponencial desvalorização da autoria) nos dá uma falsa sensação de poder. Falsa, não porque o poder não exista, mas porque pensamos que o poder está onde não está, verdadeiramente. Ser reflector, com imensa capacidade de propagar informação (quando e se  aliado a um número considerável de outros reflectores), é ser parte de uma rede de retransmissão, não é ser produtor da informação. Existe, creio, uma dificuldade de auto-contextualização. Acredito que a maior parte da informação credível e fundamentada que circula continua sobretudo a ser produzida pelos jornalistas, mesmo se depois é retransmitida nas redes sociais, dissipando-se a autoria e a proveniência, havendo mesmo deturpações e omissões em relação à informação original.

No entanto, muitos cidadãos de todo o mundo, de facto produzem e ajudam a partilhar informação, como demonstra o exemplo óbvio da Wikipedia e o recentemente noticiado caso do WikiLeaks. Mais dentro do contexto a que me refiro, vários jornais estimulam o envio de textos “mais ou menos jornalísticos” por parte dos leitores e publicam-nos. No Editors Weblog, é analisado o caso do Jornal Brasileiro Zero Hora. Este jornal, com uma penetração de 78% na faixa etária dos 20 aos 29 anos e de 71% dos 15 aos 19 anos, publica conteúdo enviado pelos leitores. O aumento de 2% da circulação do jornal impresso em 2009 é um sinal de que as estratégias adoptadas estão a dar bons resultados. Desengane-se quem pense que receber textos e imagens dos leitores é uma forma de o Zero Hora compensar o fraco investimento nos meios humanos, como é comum acontecer noutros jornais. O jornal brasileiro tem uma redacção de 210 jornalistas,  integrando equipas especializadas na versão online e na versão impressa, que procuram trabalhar de forma integrada.

É frequente encontrar, em jornais que já existiam muito antes de começarem os jornais online, um padrão de evolução que é diferente do caso do Zero Hora, ou, pelo menos, a evolução do Zero Hora levou-o a uma situação actual diferente do mais comum. Muitos jornais abriram o site, inicialmente com pouca informação, para se projectarem como jornais modernos, que não perdem o comboio. Era, como antes acontecia com a maior parte dos sites institucionais, uma forma de afirmarem a presença online, mesmo se o site não oferecia mais do que um rosto dessa presença na web. Gradualmente, o contéudo da versão impressa foi passando para a versão online. Por esta altura já era comum haver “notícias de última hora”, ou pelo menos algumas notícias breves que iam sendo publicadas online ao longo do dia. A partir de certa altura começaram a popularizar-se os feeds e os jornais adoptaram-nos. Primeiramente, criando apenas um ou dois feeds, agregando todas as notícias no mesmo feed, ou separando-as num feed de notícias de última hora e noutro feed com as notícias principais. Rapidamente, começaram a segmentar os feeds, passando a haver um feed para notícias de economia, outro para notícias de política, outro para desporto, outro para sociedade e assim por diante. Vários jornais melhoraram a busca de notícias no site, proporcionando na sua página web uma forma muito prática de consultar edições passadas. Alguns jornais de maior dimensão e capacidade de investimento, transferiram mesmo todas as edições passadas para um arquivo online. Nesta altura, era já frequente encontrar avisos do género “conteúdo premium, para aceder, por favor registe-se”, já que algumas ferramentas, como a busca dentro do arquivo, passaram a ser pagas. Uns jornais foram mais longe do que outros, na transição para os serviços pagos. Alguns jornais acharam que os artigos de opinião seriam mais valorizados e tornaram-nos conteúdos pagos, outros jornais acharam que o que os leitores valorizariam mais, ao ponto de aceitarem pagar, seriam funcionalidades, como a busca avançada (por exemplo, fazer pesquisas no arquivo inteiro do jornal). Chegados ao presente, mesmo alguns dos jornais que sempre mantiveram a sua edição online inteiramente gratuita, passaram a cobrar alguns conteúdos e funcionalidades ou estão a ponderar fazê-lo.

Segundo o artigo, a edição online do Zero Hora dedica-se sobretudo às notícias de última hora e ao multimédia, como é comum com outros jornais. A opção que os distingue é que no site são publicados “teasers”, chamando a atenção para a reportagem de fundo que será publicada na versão impressa no dia seguinte. Altair Nobre, o editor do Zero Hora, disse ao Editors Weblog que não faz sentido esconder conteúdo da edição online, porque isso afecta o impacto que a informação poderia ter. De facto, o que acontece é que as notícias, os artigos de fundo, têm prioridade na versão impressa, sendo nesta publicados primeiro; mas, mais tarde, durante o dia, passam também a estar publicadas na versão online. Neste caso específico, os leitores não parecem sucumbir à filosofia, “se está ou vai estar disponível online, não vale a pena comprar o jornal impresso”. Pelo contrário, o online tem ajudado à venda do jornal impresso. Nada de muito dramático, nenhuma tecnologia de ponta, nenhuma invenção espectacular foram usadas. Simplesmente se procurou promover o jornal impresso como o local de destaque e eleição para o aprofundamento das notícias. E os leitores, que no caso deste jornal, são sobretudo leitores jovens, aderiram. Talvez não sejam universalmente aplicáveis as estratégias do Zero Hora. Mas parece-me inspirador que um jornal cujo público alvo é o público jovem consiga valorizar a versão impressa, que, sendo paga, ajuda também a pagar a versão online.

O envolvimento dos leitores é valorizado por este jornal brasileiro, sendo mais substancial, parece-me, do que noutros jornais que também o procuram alcançar. Além das imagens e textos de leitores que são publicados, há o caso de um jornalista que publica vídeos na sexta-feira sobre a história que será publicada no sábado no jornal impresso, criando mais proximidade com os leitores e envolvendo-os mesmo antes da publicação de facto.  Mas não existe propriamente um deslumbramento com o caudal de informação propagada pelos cidadãos. Diz Nobre que os jornalistas do Zero Hora usam as redes sociais para acompanhar aquilo de que as pessoas estão a falar, mas avisa que esses meios podem ser uma boa fonte de notícias mas também uma armadilha. Além disso os jornalistas com contas em redes como o Twitter são aconselhados a ter cuidado com o que publicam nesses meios, para que não ponham em causa a sua credibilidade enquanto profissionais. O relativo sucesso do Zero Hora deve inspirar-nos. Sem ter descoberto uma fórmula milagrosa, antes usando integradamente estratégias que já existiam, consegue ter sucesso simultaneamente com a versão online e a versão impressa. Uma sustenta a outra e as duas prosperam – não será isto aquilo a que a maior parte dos jornais aspira?

Anúncios