O Papel das Notícias

Suplemento de Outono

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 12 de Setembro de 2009

 

Cheira-nos a outono e é isto. Recomeçamos a dar aquilo que existe de mais maduro em nós. Permitam-me iniciar já com um desplante. Se o virtual não glorifica a densidade correremos em sentido contrário. Se recusamos uma certa tuiterização não é porque a renegamos. Precisávamos, para isso, ter-lhe dado verdadeira existência. Acusam-nos de não vermos o futuro”. Evitamos desfocar os olhos. Temo-los bem fixos no presente.
 
Para os que não têm ouvidos há que o clarificar: não somos, nunca fomos, contra a internet. Há que transpor o radicalismo da metáfora. Por isso uso, tantas vezes, o itálico. Há uma distância que separa o MFJEP da realidade. Não pretendemos impor nem inverter o mundo. Iremos, brevemente, dar passadas mais largas e ultrapassar o formato escrito. Mas este é um projecto, acima de tudo, de interpretação. Existe uma base comum em torno de um ideal. Mas não existem argumentos aproximados, para a sua defesa, em nenhum dos intervenientes. Deixemos, pois, a moralidade para o leitor.
 
Lemos jornalismo digital. Mas não acreditamos na gratuitidade sem um modelo, a par,  financiado e baseado na noção de responsabilidade pessoal. Que o suporte. Não pretendemos convencer mais que dois ou três. Eis, para nós, um triunfo. Somos, se calhar, uns elitistas. E, exactamente por isso, queremos continuar a provar, dentro de momentos, a nossa inutilidade.
 
Afonso Pimenta

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Revista I: Protótipo de Salvação

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 20 de Maio de 2009
Imagem retirada de www.jonworth.eu

Imagem retirada de http://www.jonworth.eu

De acordo com o El País do passado dia cinco de Maio, Javier Rodriguez Zapatero, director geral da Google em Espanha, assegurou que a companhia não contempla o fim do formato em papel apesar de inevitáveis falências:

Dentro de dez anos existirão menos publicações. Serão destinadas à leitura reflexiva. 90% do tempo será ocupado com notícias através da rede.

Assegurou; existirão; serão; será: sem querer destruir tão belo desejo profético, este optimismo mercantil – para lá da preguiça – não parece consonante com um dos principais polos de atracção do digital: a sua mutabilidade. E, exactamente porque o excesso de movimento não deixa espaço para a metáfora, resta saber se toda esta acomodação – deslumbre pela actualização – fará nascer amor repentino pela abstracção. Mas não é já alguma opinião, por exemplo, parte constituinte do melhor jornalismo que se faz?

Ao destacar a internet, deixando-se manipular pela promessa do momento, a revista I – protótipo de futuro – promove o negócio externo; conduz à divisão. Ao nomear, em editorial, a sua escrita de reflexiva, também empobrece a noção. Por ser análoga ao habitual nos exemplos superiores de jornalismo integrado. Como o Público. Mas no presente foi a certeza mais fashion que encontramos.

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O futuro do Jornalismo segundo Kenneth Lerer

Posted in Apontamento by nuno miranda ribeiro on 11 de Maio de 2009
Ardina (estátua nos Aliados, Porto)

clicar na imagem para ver autoria

Muita gente estará de olho no Huffington Post. Referência no jornalismo político estado unidense e, segundo o Technorati, o blogue número 1 (lugar que ocupa consistentemente há algum tempo), o Huff Post é um jornal de qualidade que tem existência apenas na internet. O facto de um jornal digital (e os vários investimentos de milhões, feitos por angel investers, permitiram entre outras coisas, alargar a redação, consolidando o profissionalismo que caracteriza a publicação) aparecer na lista de blogues do Technorati é um sinal interessante.

Se o The Nation tem um site que é referência, foi porque fez o percurso que normalmente fazem os jornais. Digitalizou-se. Primeiro abriu o site, porque os outros fizeram o mesmo ou porque achou que não poderia desprezar a importância de ter existência digital. Depois cresceu na internet, enquanto ia definhando no papel. Já o jornal fundado por Arianna Huffington and Kenneth Lere começou onde está: na www. Os gigantes como o NY Times têm sites gigantescos. Mas enquanto pilares tradicionais do jornalismo americano como o New York Times lutam para que a edição em papel continue, o Huffington Post não tem de se preocupar. E, além dos investimentos que depositaram dinheiro e confiança no projecto, tem  para mostrar ao mundo e anunciantes quase 9 milhões de visitantes (números de Fevereiro de 2009, referidos pela Wikipedia).

Por tudo isto, quando Kenneth Lerer fala sobre o futuro dos jornais, o mundo escuta. Há que ler o que disse um dos fundadores do que é provavelmente o jornal mais bem sucedido da actulidade. A 23 de Abril, discursou durante as “Columbia Journalism School Annual New Media Lecture Series“. E usou a palavra futuro para dizer coisas como “Alguém que sussurre ou diga bem alto que o futuro do jornalismo está em causa, não poderia estar mais enganado. Estou verdadeiramente entusiasmado e optimista quanto ao seu futuro.” ou como “E mesmo se ninguém sabe como será exactamente o futuro, estou confiante que dentro de alguns anos, no máximo, o cenário das notícias será fundamentalmente diferente do que é agora, com muitos novos agentes, com alguns novos líderes, mas ainda realizando totalmente  o seu propósito vital.

Afirmou ainda “Sem surpresa, encontramo-nos agora no seio de um debate do tamanho da indústria sobre o que tudo isto significa em relação ao futuro das notícias. Vitualmente toda a gente com uma palavra a dizer no jornalismo se juntou ao debate. Alguns receiam que o jornalismo irá desaparecer se os jornais de papel deixarem de chegar às casas. Outros dizem que o meio de distribuição não tem qualquer importância; não se importam se as notícias são impressas ou não, desde que a qualidade do conteúdo se mantenha. Mas o futuro do jornalismo não está dependente do futuro dos jornais impressos e enquanto isto é debatido de trás para a frente, é muito importante lembrá-lo.

Aqui no MFJEP, temos ainda menos capacidades divinatórias que Kenneth Lerer. Duvidamos, de forma ponderada, que o futuro dos jornais impressos não tenha um peso determinante no futuro das notícias, na sua difusão e na sua qualidade. Mas seguimos com atenção o que se vai passando. E aconselhamos a leitura das palavras do homem por detrás de um caso de sucesso, que, ainda assim, não está neste afã angustiado dos que ainda tentam tornar viável o jornalismo impresso.

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Jornalismo: Urgência e irresponsabilidade

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 2 de Maio de 2009
AP Photo/Alexandre Meneghini

AP Photo/Alexandre Meneghini

Toda esta urgência e impulso colectivo para a postagem e publicação, como se o propósito fosse a forma e a chamada de atenção, aprofunda, um pouco mais, a distância que separa estrelato de jornalismo de investigação. Com dois passos atrás e melhor respiração, há que: pensar primeiro. Noticiar depois. Para controlar o medo. Informar melhor.

E urgente, nesse sentido, é o artigo de Carlos Castilho, em Código Aberto, sobre jornalismo, responsabilidade e o folhetim actual: a gripe H1N1.

A questão ignorada

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 10 de Abril de 2009

Agora que os maiores exemplos do jornalismo internacional hipotecam, face à crise, anos de prestigio através da internet; que fenómenos de contra- poder local se diluem, equiparados a um blogue:  esse objecto de loucura; que velhas empresas de comunicação se degladiam contra os senhores do digital, culpando-os, erradamente, pela falta de exigência geral e, por isso, ajudando-os a difundir o seu discurso, fortalecendo a tendência, já de si inevitável; agora que tudo se perde no debate do formato, acaba-se, por isso,  a olhar para o canto errado.

If the news is that important it will find me:

A frase – simbólica – resume tudo o que o mercado – que finge estar em remodelação – deseja. Poderia ser fabricada por uma qualquer empresa de marketing. Poderia ser o novo slogan de um antigo jornal a tentar reinventar-se. Ou mais uma frase feita num discurso de um accionista da World Wide Web. Mas não. Foi num inquérito: a anónimos representantes de uma geração que vai – e está – a reconfigurar o mundo.  A expressão, carregada de um narcisismo alarmante, não esconde absolutamente nada. Contudo, indo de encontro à necessária amoralidade do mercado, ninguém lhe está a ligar nenhuma.

A diminuição, nada ingénua, da importância conferida ao jornalista está a favorecer algo e a ocultar o essencial. Há qualquer coisa a irromper.

Pouca gente parece disposta a perguntar qual é.

Crise, jornalismo e ambiente: uma ironia

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 6 de Abril de 2009

Robert Cox, sociólogo, é um optimista. Com preocupações.  O ex- presidente do Sierra Club – a maior organização ambientalista norte-americana – esteve recentemente  em Portugal como convidado da Fundação Calouste Gulbenkian,  da Agência Europeia do Ambiente e do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Onde participou na conferência “Os media e o ambiente: entre a complexidade e a urgência“. Segundo a edição do passado dia três de abril do jornal Público , uma das questões centrais em Cox é a falta de interesse relativamente a temas de cariz ambiental, por parte das populações, em época de crise. Financeira ou militar. Problema que se adensa em tempo de reestruturação – para avolumar os eufemismos; termo nosso –   jornalística.

Lança-se uma ironia: ao ler-se o artigo, não deixa de ser digno de atenção o facto de o ambiente – tão ligado a uma economia de longo prazo – ser esquecido em época de balanço. Mas de primeira linha – até há pouco tempo, também empresarial – quando nos entretemos a destruí-lo: mais afincadamente.