O Papel das Notícias

Destruir e Acreditar

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 1 de Julho de 2009
Fotografia por João de Medeiros

Fotografia por João de Medeiros

 

 João de Medeiros    

Interrompi a rotina diária ao ler a crónica do Afonso, “O Terror da Opinião/Relativismo Nacional”, agarrado por uma ideia gratificante de consciência. Dizem que a consciência é o primeiro passo para a correcção. Ou, se não quisermos entrar nos preconceitos de certo ou errado, bem e o mal, diria: o primeiro passo para mudarmos. Se o nosso mundo se encontra numa situação onde autores se vêem reduzidos ao desabafo, sob a forma de movimento de ruptura com as actuais ideias e valores praticados, encontro apenas refúgio naqueles que, perdidos na morte e passado, nos deixaram um legado premonitório. E é com grande contrariedade e grande paixão que me revejo nas palavras de Ayn Rand. No seu grande romance, “Atlas Shrugged”, onde exercita as noções e conceitos do seu “Objectivismo”, encontramos um enorme paralelismo com a realidade actual: é a história de um grupo de artistas, empresários, industriais e intelectuais que decide revoltar-se contra a crescente sociedade medíocre que os rodeia. Onde a competência é sancionada. Onde a sociedade implacavelmente persegue aqueles que defendem  a liberdade de trabalhar por mérito e lucro. Onde o sucesso monetário é visto como um inimigo social: talvez mesmo o mais perigoso. Revejo muito o destino de Mr.Rearden na cultura. E, quando digo cultura, incluo o jornalismo em Portugal. E passo a citar do original:

 – “You pose as a champion of freedom, but it’s only the freedom to make Money that you’re after.”

-“Yes, of course. Al I want is the freedom to make Money. Do you know what that freedom implies?”

-“Surely, Mr.Rearden, you wouldn’ t want your attitude to be misunderstood. You wouldn’t want to give support to the wide spread impression that you are a man devoid of social  conscience , who feels  no concern for the fellows and Works for nothing but His own profit.”

-“No. I do not want my attitude to be misunderstood. Ishallbeglad to state it for the record. I am in full agreement with the facts of everything said about me in the newspapers – with the facts, but not with the evaluation. I work for nothing but my own profit – wich I make by selling a product they need, to men who are willing and able to buy it. I do not produce it for their benefict at the expense of mine, and they do not buy it for my benefict at the expense of theirs; I do not sacrifice my interests to them nor do they sacrifice theirs to me; we deal as equals by mutual consent to mutual advantage – and I am proud of every penny that I have earned in this manner. (…) I shall answer all the questions you are affraid to ask me openly.

Do I wish to pay my workers more than their services are worth to me? I do not. Do I wish to sell my product for less than my customers are willing to pay me? I do not. Do I wish to sell it at a loss or give it away? I do not. If this is evil, do whatever you please about me, according to whatever standards youhold. These are mine. I am earning my own living, as every honest man must. I refuse to accept as guilt the fact that I am able to do itand to do it well. I refuse to accept as guilt the fact that I am able to do it better than most people the fact that my work is of greater value than the work of my neighbors and that more men are willing to pay me. I refuse to apologize for my ability (…) 1

A primeira reacção que tenho é aquela palavra que nos é tão estranhamente familiar sem sabermos porquê: igualdade. Equals: iguais nos meios de comunicação, nas relações pessoais e profissionais. Igualdade social. A segunda reacção prende-se de forma óbvia com a crónica do Afonso. Atitude, diria até carácter, que nos dias que correm incorpora um fugaz conceito de um passado onde era normal a confrontação de valores e consciencialização dos mesmos. Os Zé Marias – nada tenho contra este individuo sendo o uso desse nome apenas uma ilustração de um fenómeno social – que criaram esse novo vocabulário de clusters, indústrias e bloqueios criativos servem apenas os interesses dos mesmos que acusam Mr.Rearden neste pequeno excerto. Não foi por acaso que citei do original Ayn Rand. Fi-lo porque houve tempos em que “News – Noticias”, vulgo jornalismo, significou oferecer novas visões, pontos de vista, argumentos. Acima de tudo questionamento. Para criar. Não deveríamos submeter os nossos ideais ao conforto das massas. Nem deixar de estabelecer contacto com o público através de um processo de troca. Acima de tudo, deveríamos ter orgulho em defender na praça pública,de forma crua e transparente, aquilo que nos move, aquilo nos representa, aquilo em que acreditamos e aquilo que somos.  E infelizmente tivemos, com o fenómeno de abstenção nas eleições europeias, mais uma demonstração do perpétuo ciclo em que vivemos. Onde não há derrotados. Só vencedores. Onde não existe humildade nem bom senso. Onde na hora mais importante que temos numa democracia plena, os que nos representam não são o melhor que temos mas sim os que apareceram. Se vivêssemos num universo de Rand, há muito tempo que a massa competente teria desaparecido desta sociedade. E agora que tomo consciência disso não estamos tão distantes desse universo ao vermos gerações saírem deste Portugal que é tão nosso. O que será “Liberdade”? E o que serão “Valores”?

 1 inchapter IV “Atlas Shrugged” byAyn Rand

 

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O Terror da Opinião/Relativismo Nacional

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 8 de Junho de 2009
Fotografia retirada de www.lhwe.org

Fotografia retirada de http://www.lhwe.org

Tendência estrutural, em Portugal, chama-se: desresponsabilização; culpabilização externa. Astutamente polida com retórica democrática. A nomeação de um líder recai – outra vez, outra vez – em figura dissimulada, indefinida, desorientada, paroquial. Descansa. Com um dedo no passado e outro na fronteira. Assim como nós – prolongando, assim, a lamentação – o faremos. Com o nosso.

Não é raro o fenómeno de projecção. Passam vários anos desde a desmoralização do Reality Show. Em primeiro Big Brother, Zé Maria, personagem fugidia, assistia – de sorriso contínuo – à sua elevação a símbolo nacional. E, com contornos clericais, pontuava sentenças de superior agressividade com um amaciador: “mas no bom sentido”. Até hoje não se chegou a perceber quem é. Nem ele. Para aumentar a fasquia de identificação: o premiado de uma segunda edição era padre assumido. No ano de 2005 – e depois de ter assistido ao vácuo discursivo inaugural de José Sócrates – entendi: também eu tinha votado em Zé Maria.

A eleição contamina qualquer quadrante. A definição é arrumada através de uma espécie peculiar de psicologia de pacotilha chantagista popular: ter opinião é sinónimo de frustração”. Não são raros os exemplos em que a pseudo- interpretação generalizadora, a nível nacional, é utilizada como carimbo de desvalorização. Instrumento moral a favor de um silêncio abstencionista colectivo. Como também a cor política é objecto de arremesso. A posição vincada é, como defesa, atirada para a armadilha partidária. Valorizando a neblina; um bloco central. A indecisão promovida a “sensatez”. Filha perversa de um estado novo que teimamos em acreditar que repudiamos. E virtude unificadora para a irresponsabilidade civil. Relativismo português necessita de condição prévia: almofadar a realidade. O terror do radicalismo, aqui, é subserviência. Procura a todo o custo o olhar certo. E, nesse processo, passa a ser falso. Sem crítica, auto- critica ou tolerância à critica não haverá entendimento que nos salve. O que se discute – quando se discute – é feito, em comunhão, já às portas do abismo. E, apenas, se não for censurável.

Exceptuando o caso isolado, fora de sitio, redacções e orgãos televisivos não escapam a um marchar: o artigo de opinião tem cartão partidário, institucional e empresarial. A liderança está na mesa redonda. O olhar – à distância – do psicólogo, historiador, sociólogo ou filósofo é evitado.

 O debate desenvolvido em torno de um novo modelo de negócio jornalístico parece ignorar, em larga escala, a sedução do leitor relativamente à importância determinante da opinião e da investigação na defesa do regime democrático. A gratuitidade cultural manipula o discurso em direcção ao formato. Toda uma demagogia digital que utiliza o direito do consumidor, uma noção ilusória de intervenção individual e o ódio à instituição – como se as empresas que os promovem não o fossem –  como argumentos mobilizadores. E externos ao próprio jornalismo.

 Tão peculiar oposição abre caminho à caça ao voto. Qualquer ideia é preterida a favor da propaganda. Culparemos, mais tarde, a política. Que foi aquilo que desejamos que fosse. Sempre de pedra na mão não há espelho que resista. Apontei-vos o dedo. Mas no bom sentido. Outra vez.

 

Afonso Pimenta

Revista I: Protótipo de Salvação

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 20 de Maio de 2009
Imagem retirada de www.jonworth.eu

Imagem retirada de http://www.jonworth.eu

De acordo com o El País do passado dia cinco de Maio, Javier Rodriguez Zapatero, director geral da Google em Espanha, assegurou que a companhia não contempla o fim do formato em papel apesar de inevitáveis falências:

Dentro de dez anos existirão menos publicações. Serão destinadas à leitura reflexiva. 90% do tempo será ocupado com notícias através da rede.

Assegurou; existirão; serão; será: sem querer destruir tão belo desejo profético, este optimismo mercantil – para lá da preguiça – não parece consonante com um dos principais polos de atracção do digital: a sua mutabilidade. E, exactamente porque o excesso de movimento não deixa espaço para a metáfora, resta saber se toda esta acomodação – deslumbre pela actualização – fará nascer amor repentino pela abstracção. Mas não é já alguma opinião, por exemplo, parte constituinte do melhor jornalismo que se faz?

Ao destacar a internet, deixando-se manipular pela promessa do momento, a revista I – protótipo de futuro – promove o negócio externo; conduz à divisão. Ao nomear, em editorial, a sua escrita de reflexiva, também empobrece a noção. Por ser análoga ao habitual nos exemplos superiores de jornalismo integrado. Como o Público. Mas no presente foi a certeza mais fashion que encontramos.

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O futuro do Jornalismo segundo Kenneth Lerer

Posted in Apontamento by nuno miranda ribeiro on 11 de Maio de 2009
Ardina (estátua nos Aliados, Porto)

clicar na imagem para ver autoria

Muita gente estará de olho no Huffington Post. Referência no jornalismo político estado unidense e, segundo o Technorati, o blogue número 1 (lugar que ocupa consistentemente há algum tempo), o Huff Post é um jornal de qualidade que tem existência apenas na internet. O facto de um jornal digital (e os vários investimentos de milhões, feitos por angel investers, permitiram entre outras coisas, alargar a redação, consolidando o profissionalismo que caracteriza a publicação) aparecer na lista de blogues do Technorati é um sinal interessante.

Se o The Nation tem um site que é referência, foi porque fez o percurso que normalmente fazem os jornais. Digitalizou-se. Primeiro abriu o site, porque os outros fizeram o mesmo ou porque achou que não poderia desprezar a importância de ter existência digital. Depois cresceu na internet, enquanto ia definhando no papel. Já o jornal fundado por Arianna Huffington and Kenneth Lere começou onde está: na www. Os gigantes como o NY Times têm sites gigantescos. Mas enquanto pilares tradicionais do jornalismo americano como o New York Times lutam para que a edição em papel continue, o Huffington Post não tem de se preocupar. E, além dos investimentos que depositaram dinheiro e confiança no projecto, tem  para mostrar ao mundo e anunciantes quase 9 milhões de visitantes (números de Fevereiro de 2009, referidos pela Wikipedia).

Por tudo isto, quando Kenneth Lerer fala sobre o futuro dos jornais, o mundo escuta. Há que ler o que disse um dos fundadores do que é provavelmente o jornal mais bem sucedido da actulidade. A 23 de Abril, discursou durante as “Columbia Journalism School Annual New Media Lecture Series“. E usou a palavra futuro para dizer coisas como “Alguém que sussurre ou diga bem alto que o futuro do jornalismo está em causa, não poderia estar mais enganado. Estou verdadeiramente entusiasmado e optimista quanto ao seu futuro.” ou como “E mesmo se ninguém sabe como será exactamente o futuro, estou confiante que dentro de alguns anos, no máximo, o cenário das notícias será fundamentalmente diferente do que é agora, com muitos novos agentes, com alguns novos líderes, mas ainda realizando totalmente  o seu propósito vital.

Afirmou ainda “Sem surpresa, encontramo-nos agora no seio de um debate do tamanho da indústria sobre o que tudo isto significa em relação ao futuro das notícias. Vitualmente toda a gente com uma palavra a dizer no jornalismo se juntou ao debate. Alguns receiam que o jornalismo irá desaparecer se os jornais de papel deixarem de chegar às casas. Outros dizem que o meio de distribuição não tem qualquer importância; não se importam se as notícias são impressas ou não, desde que a qualidade do conteúdo se mantenha. Mas o futuro do jornalismo não está dependente do futuro dos jornais impressos e enquanto isto é debatido de trás para a frente, é muito importante lembrá-lo.

Aqui no MFJEP, temos ainda menos capacidades divinatórias que Kenneth Lerer. Duvidamos, de forma ponderada, que o futuro dos jornais impressos não tenha um peso determinante no futuro das notícias, na sua difusão e na sua qualidade. Mas seguimos com atenção o que se vai passando. E aconselhamos a leitura das palavras do homem por detrás de um caso de sucesso, que, ainda assim, não está neste afã angustiado dos que ainda tentam tornar viável o jornalismo impresso.

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Jornalismo: Urgência e irresponsabilidade

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 2 de Maio de 2009
AP Photo/Alexandre Meneghini

AP Photo/Alexandre Meneghini

Toda esta urgência e impulso colectivo para a postagem e publicação, como se o propósito fosse a forma e a chamada de atenção, aprofunda, um pouco mais, a distância que separa estrelato de jornalismo de investigação. Com dois passos atrás e melhor respiração, há que: pensar primeiro. Noticiar depois. Para controlar o medo. Informar melhor.

E urgente, nesse sentido, é o artigo de Carlos Castilho, em Código Aberto, sobre jornalismo, responsabilidade e o folhetim actual: a gripe H1N1.

Jornalismo: cenários de ficção

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 27 de Abril de 2009

Se Ashton Kutcher é MTV, ainda é MTV. Mas é modelo de adaptação. Se artilharia moderna é visibilidade, o marketing – mais que empresarial – é individual. Mesmo que ilusório para uma maioria de cidadãos, o tom da temporada é o brand yourself: o homem da multidão. O actor, em jeito de representação bíblica, soube que o twitter existe. E desafiou o gigante informativo CNN. Sabe que a promoção actual é adquirida por aproximação. Finge, por isso, pôr-se ao nível dos seus fans. E através deles enfrentou a corporação: a vitória é nossa”, declarou. O objectivo era o de alcançar o milhão de seguidores e ultrapassar o canal de televisão. Se o conseguisse doaria dez mil redes anti- mosquito em honra ao Dia Mundial da Malária. Se vencesse. O gesto, apesar de bem intencionado, tem qualquer coisa de dificuldade institucional; oposição a um organismo compacto – integrado – que o vigia. Que me limita. Para a estrela foi sinónimo de “supremacia popular” sobre o “sistema”. Sendo que o povo é, essencialmente, ele próprio. E o sistema quem o observa. Contudo, Ashton Kutcher é ainda MTV.

Entretanto, uma nova geração teatraliza- se. Está no centro do palco. Aos nossos olhos: no futuro e na publicidade. Once and for all we´re gonna tell you who we are so shut up and listen, de passagem pela Culturgest, não podia ser mais referencial. O espectáculo, representado por treze adolescentes a encarnar outros tantos actores, ritualiza, supostamente, o comportamento de um determinado tipo de juventude actual. O descontrolo é, aqui, propositadamente coreografado. A banda sonora, contaminada. Representação de uma representação de uma pulsão encenada? Ou, pelo contrário, tentativa de controlo de uma realidade interna latente através da liberdade da representação?

A noção de anarquia – ainda não com esta expressão – foi identificada em Tirania e Comunicação. Escapando a um certo bom senso, idealizei, a partir dali, uma sociedade futura. Em pequenos ímpetos de realização cinematográfica surge a concepção de um mundo em que o excesso de amor e parca informação conduzem ao levantamento de uma vontade maior. Para a liderança. Que se manifesta, de forma superior, numa quantidade considerável de individuos: centrados em si; pouco tolerantes a um vulgar “não” e sedentos de uma distracção que compense, fora de casa, o lugar deixado vago por iPhones, entretenimento e iPods sucessivos. A maior troope de ditadores que jamais caminhou sobre a terra. Com a informação a limitar os passos. Tudo isto não passa de futurismo. É necessário decoro. É mau rascunho para argumento série- b. Por isso – para estar naquele meio termo que lhe é característico – há que juntar realidade.

They´ve got your number: é o titulo atribuído por Charles Arthur a um artigo publicado no passado dia treze de Abril no Guardian. O jornalista de investigação – não são já muitos – precisará, contra o excesso de intromissão estatal e empresarial, de perder um pouco a : na tecnologia. Redescobri-la em armas eternas: papel e caneta. Juntar-lhes um cartão não registado de telemóvel e uma velha motorizada. É o futuro a meio gas. Devido a novo regulamento governamental, as companhias de internet e telefone britânicas serão obrigadas a registar números e contactos. O que poderá facilitar a localização de fontes jornalísticas. Que conduzirá ao medo. E ao decréscimo da delação do crime e corrupção. O negócio paralelo da venda de informação faz-se ao nível da pequena corporação. E o ser humano, quando elevado a posição superior, não sacraliza a instituição. Poder- se- ia parar por aqui. Mas a seguir ao amarelo vem o sinal vermelho: a sofisticação Automatic Numberplate Recognition, introduzida pela polícia, tem como desígnio a identificação de um fugitivo criminal através da matrícula automóvel frontal. Sistema que permite desenhar o trajecto percorrido. Por isso a recomendação: a motorizada não é abrangida. O papel e a caneta não permitem identificação. Um cartão de telemóvel não registado também não. É a metodologia da investigação lado a lado com o terrorismo. Ficção? Realidade. Mas dois cenários confundíveis na demanda de um guião.

São tempos de falência, recuo publicitário e avanço digital: o obituário de um jornal está na sua própria capa. O mercado procura a qualidade. Mas a qualidade na comodidade. A antropologia, tão requisitada a nível empresarial, busca a localização de espaços em branco. A análise microscópica de tendências e inclinações visa a detecção de nichos emocionais. É- lhes atribuído a designação de necessidade. Para a fabricação de novo produto. Que aumenta a dependencia e a fragilidade pessoal. Infantiliza-se. O que, inevitavelmente, promove o surgir de novas oportunidades de negócio. A dinâmica, em espiral, subverte, para toda uma geração de artistas, a informação. Porque a converte em entretenimento. Todo um ciclo de evasão que afecta o trabalhador futuro. Consumidor do presente. Alan Murray define, da seguinte forma, características e funções do reporter para o formato em linha do The Wall Street Journal: “Rapidez”, “Construção de audiências”, “tuitar” e “divertir-se” (?). Nada disto é jornalismo.

Por trás de toda a toxicidade argumentativa esconde-se, quase sempre, uma verdade instintiva. Qualquer coisa – no presente caso – de desvalorização – paradoxo – colectiva da coesão. O despontar de um encapotado e polido sub- género de anarquia. Interessa, por isso, um conhecimento disperso, fragmentado e pouco estruturado. Que não controle. Nem seja controlável.

Sem o olhar distraído e vagamente cúmplice do mercantilista moderno, a frase proferida em inquérito por um jovem consumidor de informação – If the news is that important it will find me – resume o conceito- chave que sustenta a deslocação para o digital. Contudo, ofusca uma outra expressão:

A notícia sou eu

E esta é, quanto a mim, a questão ignorada.

 

Afonso Pimenta

 

 

 

Washington Times – uma página por dia para o jornalismo de cidadão

Posted in Notícias by nuno miranda ribeiro on 15 de Abril de 2009

"Times Newspaper Puzzle

"Times Newspaper Puzzle" (imagem obtida aqui: http://is.gd/syGw)

Segundo a Wikipedia, Jornalismo Cidadão, ou Jornalismo Colaborativo, Jornalismo Open Source ou ainda Jornalismo Participativo é uma idéia de jornalismo na qual o conteúdo (texto + imagem + som + vídeo) é produzido por cidadãos sem formação jornalística, em colaboração com jornalistas profissionais. Esta prática se caracteriza pela maior liberdade na produção e veiculação de notícias, já que não exige formação específica em jornalismo para os indivíduos que a executam.

O Washington Times (WT) decidiu dedicar uma página por dia, na versão impressa, ao jornalismo produzido por cidadãos. Às segundas, histórias sobre o mundo académico; às terças, o destaque é para os subúrbios de Maryland e Virginia; as quartas são dedicadas ao distrito de Columbia; as quintas focam as bases militares locais; às sextas é a vez das comunidades religiosas e aos domingos as obras de caridade e o serviço público. (a notícia não refere o sábado).

É já na próxima segunda-feira, dia 20, que é publicada a primeira página de jornalismo colaborativo, no contexto desta iniciativa. Citado no artigo acima linkado, Jonh Solomon, editor executivo do WT, afirma: “sabemos que existem muitos assuntos e comunidades que não temos sido capazes de cobrir totalmente dentro dos limites do orçamento de uma redacção, e estamos entusiasmados por capacitar cidadãos dessas comunidades para nos fornecerem notícias que interessarão aos nossos leitores.” Ainda segundo Solomon, “ao mesmo tempo que expandimos o nosso alcance através deste projecto, não estamos a diminuir a nossa qualidade editorial. As histórias dos cidadãos têm de obedecer aos mesmos padrões rigorosos de precisão, razoabilidade, equilíbrio e ética (accuracy, precision, fairness, balance and ethics, no original) que as que são escritas pelo pessoal que trabalha na redacção.” Pode ler-se na notícia do WT que cada cidadão jornalista receberá um conjunto de regras para a escrita jornalística bem como cópias do regulamento oficial do jornal nas questões relacionadas com ética, fontes anónimas e outros padrões jornalísticos.

É interessante verificar que esta opção editorial traz para a versão impressa do jornal o que seria muito mais fácil, simples e menos arriscado de fazer na versão online. Uma página de jornal tem um estatuto especial. Abrir  espaço no site a artigos dos leitores é uma coisa. Dedicar uma página impressa a textos produzidos pelos cidadãos é outra coisa. Um sinal a que não podemos ficar indiferentes. O que chama a atenção não é tanto, ou não é apenas, a decisão de chamar os cidadãos a produzir histórias de qualidade e estilo jornalísticos. Há bastantes experiências, talvez mais informais, menos rigorosas e com visibilidade mais limitada, a decorrer nas versões online. O que realmente é marcante é a opção de trazer para a versão impressa esta experiência.

A questão ignorada

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 10 de Abril de 2009

Agora que os maiores exemplos do jornalismo internacional hipotecam, face à crise, anos de prestigio através da internet; que fenómenos de contra- poder local se diluem, equiparados a um blogue:  esse objecto de loucura; que velhas empresas de comunicação se degladiam contra os senhores do digital, culpando-os, erradamente, pela falta de exigência geral e, por isso, ajudando-os a difundir o seu discurso, fortalecendo a tendência, já de si inevitável; agora que tudo se perde no debate do formato, acaba-se, por isso,  a olhar para o canto errado.

If the news is that important it will find me:

A frase – simbólica – resume tudo o que o mercado – que finge estar em remodelação – deseja. Poderia ser fabricada por uma qualquer empresa de marketing. Poderia ser o novo slogan de um antigo jornal a tentar reinventar-se. Ou mais uma frase feita num discurso de um accionista da World Wide Web. Mas não. Foi num inquérito: a anónimos representantes de uma geração que vai – e está – a reconfigurar o mundo.  A expressão, carregada de um narcisismo alarmante, não esconde absolutamente nada. Contudo, indo de encontro à necessária amoralidade do mercado, ninguém lhe está a ligar nenhuma.

A diminuição, nada ingénua, da importância conferida ao jornalista está a favorecer algo e a ocultar o essencial. Há qualquer coisa a irromper.

Pouca gente parece disposta a perguntar qual é.

Crise, jornalismo e ambiente: uma ironia

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 6 de Abril de 2009

Robert Cox, sociólogo, é um optimista. Com preocupações.  O ex- presidente do Sierra Club – a maior organização ambientalista norte-americana – esteve recentemente  em Portugal como convidado da Fundação Calouste Gulbenkian,  da Agência Europeia do Ambiente e do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Onde participou na conferência “Os media e o ambiente: entre a complexidade e a urgência“. Segundo a edição do passado dia três de abril do jornal Público , uma das questões centrais em Cox é a falta de interesse relativamente a temas de cariz ambiental, por parte das populações, em época de crise. Financeira ou militar. Problema que se adensa em tempo de reestruturação – para avolumar os eufemismos; termo nosso –   jornalística.

Lança-se uma ironia: ao ler-se o artigo, não deixa de ser digno de atenção o facto de o ambiente – tão ligado a uma economia de longo prazo – ser esquecido em época de balanço. Mas de primeira linha – até há pouco tempo, também empresarial – quando nos entretemos a destruí-lo: mais afincadamente.

O que tem o jornalismo de tão especial?

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 2 de Abril de 2009

Foto de Tim Silverman - http://supertim.deviantart.com/

Foto de Tim Silverman - http://supertim.deviantart.com/

O YouTube mantém o lema inicial: “Broadcast Yourself”. O fenómeno dos blogues, cujo crescimento parece ter abrandado seriamente, veio transformar cada pessoa com um computador com ligação à internet num autor (ou em muitos casos, num simples autómato de repetição ou mesmo plágio). O Twitter, com a pergunta “what are you doing?” veio sugerir-nos que é importante, para os outros, o que estamos a fazer, a pensar, a viver. O nosso ego, neste início do século XXI, tem uma série de ferramentas para se expressar, expandir e convencer de que é especial.

Dizia o Afonso Pimenta, no texto que iniciou o MFJEP, “O jornalismo escrito, enquanto produto, não pode ser encarado exclusivamente como tal: ele é aquilo que me alerta para o que eu não sou. O único veículo que possuo para estar atento relativamente ao que é exterior à minha diminuta capacidade de alcance e atenção: o poder.

Sempre seleccionámos a informação, como qualquer outro produto, segundo os nossos apetites, a nossa cultura e os nossos preconceitos, a nossa personalidade, os grupos de que fazemos parte e os hábitos que fomos adquirindo. Hoje, em 2009, a internet tal como existe reforça o nosso papel de decisores face ao que nos é dado consumir. Há tanto por onde escolher (quanto à forma, ao conteúdo, ao estilo, à fonte, ao suporte, etc), que somos mesmo forçados a escolher, a todo o instante.

O sucesso do YouTube veio confirmar (pregando um valente susto às grandes cadeias de televisão) que as gerações mais novas não têm paciência para esperar pela emissão à hora x de determinado conteúdo. Preferem procurar o conteúdo desejado e vê-lo de imediato. A minha geração, e as gerações anteriores também, de forma mais cautelosa, aderiram à facilidade de aceder ao que se quer quando se quer. Os mais novos já não se sentam tantas horas em frente à televisão como a minha geração fazia. Algumas dessas horas são agora passadas em frente ao ecrã do computador. Vai-se à procura do que se quer ver e ouvir, em vez de se esperar pela transmissão à hora marcada.

Da mesma forma, deixou de se comprar o jornal, para se ir à wikipedia, ler blogues, ocasionalmente consultar a página de uma publicação, principalmente se alguém conhecido nos atirou com um link. Esta mudança de atitude, amplificada pela valorização desmedida do ego, tem algumas consequências nefastas. Grande parte do tempo não estamos receptivos à aprendizagem, ao novo, ao confronto e à surpresa. Apenas procuramos reforçar com mais dados aquilo que julgamos saber, apenas queremos encontrar validação para os nossos valores e preconceitos. Somos o editor e o censor de nós próprios. E com algum sucesso, se deixarmos de consultar a informação que é agregada e difundida por profissionais, sem o filtro da nossa conveniência.

Quando andamos na escola há um programa, que pode ser adaptado aos alunos mas que é razoavelmente fixo. Foi estabelecido como um conjunto de conhecimentos que são essenciais e desejáveis. Na vida adulta, o jornalismo é uma fonte de conhecimento importante. Já não existe a benevolência mais ou menos contaminada, mais ou menos iluminada dos programas escolares. Existe uma selecção, feita por profissionais, do que é importante saber sobre o que está a acontecer.

As regras e o método com que é produzido o jornalismo pretendem contribuir para que o bolo da informação difundida se ponha a jeito de ser apreendido enquanto conhecimento. A alteridade de que o Afonso falava é de extrema importância. Independentemente do mundo em que eu preferiria acreditar, o mundo é o que é. Os jornalistas não me dão o mundo, é verdade. As notícias não devem ser confundidas com a realidade. Mas são resumos, retratos, relatórios, crónicas do que é real e existe fora de mim.

Os jornalistas estão obrigados a distinguir com clareza o que é facto do que é opinião. Algo a que os bloggers, obviamente, não têm de ligar importância. A propósito, o que aqui neste blogue é produzido não é jornalismo. Há uma grande exigência, que nos compromete. Mas damos a nossa visão particular sobre as coisas. Seleccionamos o que julgamos importante segundo o contexto em que criámos o MFJEP. Os jornalistas ouvem as várias partes envolvidas numa história, e devem, embora nem sempre o façam, confrontar as versões obtidas com os factos apurados.

Os editores têm a missão de escolher, de entre avalanches de informação, o que deve ser noticiado. E fazem-no, a isso os obriga a deontologia, segundo o interesse público e não segundo critérios pessoais, políticos ou comerciais. Numa democracia, são os jornalistas que “vigiam” e reportam a actualidade, a acção dos políticos e “o que acontece”, são eles que nos trazem o que de novo se produz em ciência e arte, que nos põem em contacto com o mundo em que vivemos.

Qualquer ameaça à integridade e qualidade do jornalismo é uma ameaça à nossa liberdade. A ignorância e a alienação (que o jornalismo previne e combate) são ameaças constantes à liberdade. Confundimos, desde sempre, “capacidade de fazer coisas” com liberdade. Porque temos dinheiro suficiente para consumir mais, viajar mais, fazer mais coisas que os nossos vizinhos de planeta que habitam na metade pobre, não somos mais livres. Somos livres enquanto soubermos quais as opções que se nos apresentam, somos livres enquanto pudermos construir a nossa escolha. E sem o jornalismo e a sua função de mediação entre realidade e personalidade e de formação da consciência colectiva, não passamos de animais com dinheiro no bolso.

Nuno Miranda Ribeiro