O Papel das Notícias

Formatação Informativa e Cultura PowerPoint

Posted in Crónicas, jornalismo, literatura by Afonso Duarte Pimenta on 11 de Fevereiro de 2012

Apesar de toda a exaltação – “Era da Criatividade” -: este é, conjuntamente, um momento no qual se consegue testemunhar, em determinadas áreas, uma tentativa de simplificação. Ao mesmo tempo em que é utilizada e incentivada uma retórica que se apropria de conceitos como “liberdade” ou “diversidade” distribuem-se “directrizes” de género algo contrário.

Facilitar, dar a entender, integrar o leitor, “comunicar”: “readability” – legibilidade – é expressão que “cai bem” na “Sociedade do Conhecimento”. Será que, algumas vez, James Joyce conseguiria ser nomeado para o prémio, literário, Man Booker? Um editorial no The Observer formulou esta pergunta a 16 de Outubro de 2011. O júri tem que ler cerca de 120 romances num período de seis meses: um e meio de dois em dois dias. Uma das exigências: que sejam obras fáceis de assimilar. “Readability”. Dá jeito a toda a gente: quem julga não pensa muito e integra-se a “comunidade”. O troféu Literature, entretanto, parece ter surgido com vista a um equilíbrio. Andrew Kidd, porta-voz, sentiu, como foi noticiado a 13 de Outubro de 2011, no artigo “New literature prize launched to rival Booker”, por Tim Masters na plataforma, em linha, pertencente à BBC News, necessidade de se justificar: “é uma acusação – a de elitismo – tola. Tem mais a ver com a nossa sensação de que se abriu um espaço para um prémio que tenha a ver, inequivocamente, com excelência. Mesmo que isso, por vezes, signifique que os vencedores sejam desafiantes e que não caiam, necessariamente, em categorizações, simplistas, de legibilidade”. A especificidade, a criatividade e, por isso, a liberdade são, assim, dissolvidas para que não exista espectro desta continua paranóia que constitui este “medo do elitismo”. Esta acusação abre portas à standardização em vários sectores. Por exemplo: jornalísticos e musicais. “Cuidado! Nada de tiques! Nada de si. Pode ofender”. Em época ultra- individualista. Contradição? Não. Por isso mesmo: esmaguemo-nos uns aos outros. É “necessário” que tudo se encontre dentro dos limites bem definidos do espírito das “indústrias culturais e criativas”. Ou seja: pensar dentro da caixa do “pensar fora da caixa”. É a formatação da mensagem ao serviço de um nivelamento. Artificial e forçado. Onde não interessa, tanto, uma verdade interior, uma originalidade ou o confronto de ideias. Importa a sensação – uma aparência – de compreensão.

Assiste-se a uma sobrevalorização do conceito de “comunicação”. Da “conectividade” pela “conectividade”. Nem que, devido a condicionantes relativos ao negócio e ao suporte, se altere, muitas vezes para pior, a forma e o enquadramento. A velocidade, na publicação, ou a diminuição do número de caracteres, a nível textual, é defendida em, múltiplos, artigos de opinião, diáriamente, de modo aberto ou indirecto. Sem, qualquer, vestigio de análise sociológica. Que resultados e objectivos, jornalísticos, globais e colectivos, de médio e longo prazo – quando nem mesmo os mercantis o estão -, se poderão garantir se tal condicionar densidade, investigação e reflexão? Principalmente numa altura em que se ataca, cada vez mais, a figura do jornalista como intermediário? Quando está em marcha este anseio, tão em voga, de destruição do denominado “middleman”? Ficaremos, devido a esta mistura, confusa, de “revolução democrática”, ressentimento e branding, comercial, individualista, satisfeitos, apenas, com um “jornalismo- cidadão”, impreparado e insuficiente? Com a comunicação, directa, do líder político e empresarial? Sujeitos a todo o tipo de manipulações, discursivas, e simplificações? Neste momento, delicado, de reascenção de nacionalismos? A “Sociedade da Informação” deseja, realmente, contacto com o diverso? Há, demasiada, relativização sobre este assunto.

José Pacheco Pereira, num artigo, de opinião, essencial no jornal Público, de 04 de Fevereiro de 2012, responde a uma das “Perguntas que não levam a parte nenhuma”: “Porque razão os blogues têm cada vez menos importância?”. Uma questão, abrangente, que não ignora mas que ultrapassa, na minha opinião, razões políticas. Ou, qualquer, dinâmica de “conversação”. A imposição económica e a “incorporação”, faseada e social, da ideia de “tempo real”, uma, certa, impaciência para a reflexão, em silêncio, sem “partilha” ou interrupção e esta pulsão, recentemente, fabricada para a, perpétua, intervenção – para a “revolução” – substituem, tendencialmente, a leitura “mergulhada”. O impulso para a escrita longa e demorada

O Twitter – arma de “curadoria”, organização e protesto – para a defesa de valores distintos e, por vezes, opostos -; de disseminação, ultra- rápida, de informação; de marketing pessoal e empresarial – construiu-se, essencialmente, à custa do impacto forte, minimalista, da obrigatoriedade do uso de 140 caracteres. Confrontamo-nos, ultrapassando a linha vermelha, com uma, armadilhada, inversão de ideal´que nos deixa “paralisados” e sem reacção: “terá que ser mais inteligente”. É todo um, novo, caminho a ser criado.

Jornais adoptam a imediatez e o brilho como forma de captação de receitas publicitárias e atenção. Numa tentativa para se combater a dispersão do usuário. Vulgariza-se, assim, a ampliação do tamanho da letra, a utilização da cor forte, o “abandono” – em certos casos: a predominância da – à imagem, ao vídeo, à oralidade. Reduz-se o alcance e a dimensão do artigo. Integra-se o live- blogging. Para uma – na falta de meios – substituição: a ilusão de se estar a ser, melhor, informado. Como “testemunha”. “No local da acção”. Importa “criar” – em sociedade “artística”; da “manipulação” -; fingir um movimento. Para favorecer – não tanto a compreensão do acontecimento – a clicagem constante. Reina a voragem da busca e do link. Não raras vezes: mais da busca do que do link. Chamemos-lhe: zapping digital.

O problema, principal, de todo este discurso e desta tendência, excessivamente, direccionada para o mercado é, exactamente, esse: normalmente está preocupada com o mercado. Evita a interpretação, a perspectva, a causa e a consequência de médio ou de longo prazo. O “jornalismo”, quando é discutido, circunda questões relacionadas com “rentabilidade”. A importância do rigor e da investigação são relativizadas a favor de uma noção, indiscriminada, de “conteúdo”. Não se questiona, tanto e por exemplo, o facto de existir alguma falta de paciência para a escrita densa e bem fundamentada. Caminha-se muitas vezes, pelo contrário, ainda mais nesse sentido. O artigo “What newspapers have to learn from magazines“, postado por Emma Heald, em 24 de Janeiro de 2012, no Editors Weblog, aponta aquilo que segundo o director da área de design da Bonnier Business Press, Jacek Utko, deve ser a abordagem “criativa” – expressão que, neste momento, serve para tudo – da imprensa escrita para fazer face à decepção, comercial, que o tablet, também, tem constituído. A “solução”, desta vez, passa pela adopção de, pequenas, formas visuais já que estas reinam no universo do Twitter e do SMS. Aconselha, por isso, o uso de secções mais pequenas, com mais pontos, listas, caixas e gráficos para que a informação seja facilmente compreendida. Já não falamos, aqui, de fast- food. Entramos no terreno de uma estética PowerPoint. A estupidificação, clara, do leitor e usuário. A falha deste tipo de abordagem, puramente mercantil, reside no facto de Utko – como de grande parte dos “especialistas de comunicação” – não entender, ou fingir que não percebe, que esta facilitação obrigaria, depois de cristalizada em norma e moral, mais tarde a uma, nova, adaptação em nome da “competitividade”. E o sentido não seria, com certeza absoluta, o da complexificação.

Parece não bastar a proliferação de dicas sobre “como escrever bonito na internet” ou “como escrever com resultados para a internet”. Surgem, adicionalmente, fenómenos como o do workshop para se “aprender a ler mais rápido”. No planeta comunicacional das Breaking News e da última hora: interessa a quantidade. Das postagens que se lêem ou distribuem. É “informação” pela “informação”. Em detrimento de uma intimidade com o texto. Para que seja, melhor, sentido. E, por isto, compreendido e memorizado.

Escreve, num artigo de opinião, intitulado “Mais informação, menos conhecimento“, que pode ser encontrado no blogue Página 23, Eduardo Jorge Madureira: “Não é estranho, por isso, que alguns fanáticos da Web, como o professor Joe O’Shea, filósofo da Universidade da Florida, afirmem: Sentar-se e ler um livro do princípio ao fim não tem sentido. Não é um bom uso do meu tempo, já que posso ter toda a informação que queira com maior rapidez através da Web. Quando alguém se torna um caçador experiente na Internet, os livros são supérfluos. O atroz desta frase não é a afirmação final, mas que o filósofo julgue que se lêem livros apenas para obter informação“. Está “tudo” ali: a sobrevalorização do conceito de “informação” em época de comparação, crescente, entre o cérebro e o digito, a velocidade e já agora, vou “abusar”, a, inescapável, perda de “capacidade” para a demora. Para a concentração. Já lá chegou. Numa assentada: é toda uma “filosofia” – um forma de estar – a “destruir” outra. Se “toda a informação” está na internet: tudo o que foi escrito, até hoje e em literatura, tornou-se irrelevante? Que sentido toma – com que finalidade; devido a qual origem – esta necessidade de esquecimento e de fragmentação? Porque foge, este homem, do passado?

Nada disto se resume a questões de conteúdo ou formato. O idioma – esse imaginário e “esperanto” anglo- saxónico predominante – formata. A ânsia de se aumentar a popularidade mundial, de se ser detentor do “perfil mais seguido” ou a demanda por uma posição, considerável, no “top”, literário, da Amazon conduzem a uma “exigência” de mercado para a utilização do inglês. Que empobrece a representação e o imaginário pessoal. “Conversamos” mais. Contudo: também, mais, da mesma forma. E é, exactamente, porque nos “seguimos” uns aos outros que não é rara a repetição e a imitação de expressões em diferentes plataformas quando estão em causa assuntos iguais. Um exemplo, exaustivo e recente, é a utilização do termo “behemoth” como adjectivo referente a grandes companhias do sector digital ou da comunicação. Outros exemplos: “transparency”, “content”, “narrative”, “innovation”. Na “Era da Criatividade”: também se imita melhor. Por outro lado: inúmeros “evangelistas” dos média e canais informativos incentivam, insistentemente, à utilização de palavras- chave, consideradas, populares. Para que os artigos sejam encontrados, mais facilmente, através dos motores de busca.

Nada disto ficará por aqui. Um artigo de Steve Lohr ,In Case You Wondered, a Real Human Wrote This Column“, publicado a 10 de Setembro de 2011, no New York Times, destaca o trabalho desenvolvido pela empresa Narrative Science no campo da inteligência artifical. Nomeadamente no departamento da criação de software que, segundo responsáveis, imita o raciocínio humano. Recolhe dados, por exemplo, de resultados desportivos para os converter em “artigos”, curtos, que são postados um ou dois minutos depois do fim de cada partida. Tem clientes como a The Big Ten Network, uma parceria entre a Big Ten Conference e a Fox Networks, que passou a usar, a partir da primavera do ano de 2010, a escrita automatizada para recapitular jogos de baseball e softball. Builderonline.com, um sítio dedicado ao mercado imobiliário, utiliza-o para a postagem de relatórios mensais porque, segundo Andrew Reid –  presidente na área dos média digitais –, “contratar pessoas ficaria muito caro”. Vamos utilizar a tecnologia como muleta? Ou, afinal, também como substituta – ultrapassando o “manual” – do trabalho “criativo”? De qualquer forma é evidente a formatação estilística e da mensagem que promete a implementação. A comunicação e o jornalismo ultrapassam, assim, a esfera humana.

Existe, claro, “criação”. Mas é dinâmica que em, grande medida, se inclina para o campo da tecnologia, das aplicações, do desenvolvimento de redes sociais, do open source. Estratégias e refúgios de um mundo instável e atomizado onde a sobrevivência, individual, não está garantida. Um “gesticular” que é causa e espelho da crise económica e financeira.

Tende, por outro lado, para a imagem, o design, a “interactividade”. Para o comércio da sensação que os valida. Este impulso para o toque, a sensualidade e a manipulação – uma forma, algo, inquieta, para se interferir; “participar” sem esperar  – reduz a relevância do que é, textualmente, transmitido, da interpretação e do contexto. Mas o multitask que inquietou – reduziu, com o passar dos anos, a “capacidade” de concentração do usuário – serve, agora, de motivo e justificação. O aumento da utilização do vídeo, a gamification of news, a mulher, na imagem em movimento, de saia ao vento: a informação é agora, mais do que divertimento, “experiência”. Nada poderá ser “boring”. É exigência grátis e “fun”. O que existe de “realidade” – de responsabilidade – é, não convertido, mas moldado na direcção de, ainda mais, entretenimento.

Proponho por isso, sempre que possível, um exercicio de “força contrária”. Existe um paradoxo entre um mundo que se complica e um imaginário que, de forma extrema, se comercializa; se simplifica. Parece-me ser necessária uma resistência. Evitar regras, “requentadas”, servidas, muitas vezes, por quem nunca teve um interesse, genuíno, pela escrita ou por um tipo de “literatura” que não seja comercial. Fugir, um pouco, à noção de fabricação do “conteúdo”. Não ter, demasiado, receio da metáfora devido a uma “necessidade” de se alcançar a “legibilidade” perfeita. Que, no fim de contas, é baseada em conceitos abstractos, pessoais e subjectivos, de “normalidade” ou “igualdade”. Que acabam, sempre, por tudo nivelar e, por isso, empobrecer. A atenção à forma não é, apenas, estilo e “arrogância”. A diferença e a experimentação constituem, também, uma mensagem e um sentido. Nem que seja: o da liberdade pessoal. Esquecer, por momentos, a popularidade. Transferir a noção de quantidade. Da postagem para a letra. Para um significado. Precisamos de “mundo”; de “complicação”. A realidade, bem o sei, é, actualmente, distinta. Cada um poderá construir, contudo, um  tempo próprio. Para que exista interpretação. Mais pessoal. Também por isso: mais rica e verdadeira. É que nem tudo é “data”. E, com certeza, nem tudo é “content”.

Afonso Duarte Pimenta

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Download: “Passivo” (Consumismo Agressivo/ Do Medo do “Elitismo” II)

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 25 de Setembro de 2011

Não estamos, felizmente, ainda a partir montras. Para além de uma obsessão – um fascínio – pelo ecrã, devido a uma capacidade de representação – e publicação – colectiva, o que o diluiu, tornando-o, ao mesmo tempo, impessoal e omnipresente, imprescindível e irrelevante, diversificando o “consumidor”, colocando-o, finalmente, como “artista”; figura “mediática”; mais do que uma pulsão para a filmagem e transmissão: abraçamos uma aparência; um ideal, forjado, de “democratização”.

Estamos, por causa de uma necessidade de desforra relativamente ao fenómeno de glamourização – construção do estatuto de “estrela” – da sociedade do espectáculo que percorreu, principalmente com a ascenção do cinema, todo o século XX, a reduzir as possibilidades de remuneração em determinados sectores do trabalho jornalístico e cultural. Não os financiando. Sem “novos modelos de negócio” que, embora amplamente anunciados, os substituam, verdadeiramente. Limitamo-nos, progressivamente, a uma realidade tecnológica em constante mutação e fragmentação. Que assegura, essencialmente, a distribuição. Através de uma publicidade de retorno reduzido. Por causa de uma dispersão e impossibilidade de financiamento suficiente – ou possibilidade de financiamento insuficiente: resistindo, o usuário, a pagar pelo que consome – é obrigada a reduzir a mão- de- obra – para lá da exploração, via substituição e submissão, graças ao aumento da mecanização, robótica e do software disponível -, favorecendo o multi-task e, por isto, a erosão de uma capacidade de concentração, análise e reflexão. Indispensáveis a uma interpretação individual e, por isso, social, mais ou menos, objectiva. Imprescindível a uma produção, densa e fundamentada. Que nos afaste, um pouco, da desinformação – do espírito de fábrica – vinculada por um mercado escravizado pela rapidez, pelos “objectivos” e “resultados” imediatos. Precisamos, mais do que nunca, de uma visão de conjunto. De um espírito, de integração, que beneficie o produzido. Em detrimento da forma. E do efeito.

Embora exista um discurso, actual, que parece valorizar o “conteúdo”: este é apenas acessório, facilmente substituível pelas condicionantes, arbitrárias, do mercado tecnológico. Meio descartável e, sempre que necessário, modificável. Veículo para uma disseminação do gadget, da plataforma, da aplicação. O que nos desloca para um género de pensamento, tendencialmente, enclausurado na programação informática, na “ditadura” da “conectividade”. Em certo sentido: numa predominância do raciocínio matemático.

O aperfeiçoamento das técnicas de sedução – não sem alguma perversidade – por parte de um, venerado, espirito de marketing que está, actualmente, por todo o lado – para se atingir uma “marca”; um “valor de mercado” – fazia algum sentido quando não era, ainda, parte constituinte de um tipo de sistema que, entretanto, se tornou auto- destrutivo e desesperado. Devido, em grande medida, a uma atomização e multiplicação das actividades comerciais: todos somos, a partir de agora – e simultaneamente -, “CEO´s” e o artigo que vendemos. Media-se uma eficácia quando se considerava o “cultural” em pé de igualdade com outro produto qualquer. Integrado e inerente: não escravizado por um olhar – uma ideologia -, exclusivamente, digital. Merecedor de uma valorização que se despreza, agora, como adicional.

Embora, para se pacificar, haja quem o tente negar: um preço – interpretado, aqui, como “dificuldade”; acima de tudo: responsabilidade – acrescenta, sempre, algo ao desejado: a existência do outro, nada virtual, que o concebe. O que pode, dentro desta perspectiva, significar quase tudo. Uma obra de ficção, um álbum de originais ou um jornal serão melhor aproveitados se for “complicada” a aquisição. Ganhando, com isto, um significado – aqui sim – “comunitário”. Porque o discutido é aprofundado.

Mas o individualismo, contemporâneo, exige conforto – “receamos”, contudo, que tenha, brevemente, que se adaptar à impossibilidade de um regresso; a uma outra forma de estar. A desestruturante competição “empresarial” desenha-se sobre uma, inesgotável, demanda pela oferta e facilidade. Acontece que o bem estar físico não se traduz, de forma inevitável, em emocional. Levanta-se, pelo excesso, “estranha” intuição. A chegada desta sensação, afinal, entediante: de a tudo se aceder. Um enfraquecimento dialético. Não parece, por aqui, haver muito a conquistar.

A noção de valor é anarquizada e subjectivada ao afastarmos o “criador” do processo. Sujeita, em larga escala, a variáveis que em nada se relacionam com o objecto. Mas com inclinações momentãneas – inconscientes, desonestas, ressentidas – por parte de quem “avalia”. Com uma tendência, natural, para uma diminuição, em espiral, ou eliminação. Por se encontrar ausente de uma normalização ou regulamentação que lhe confira protecção; um maior equilíbrio. Relativamente à utilização, anterior, do adjectivo “criador”: tenho que ironizar. Não no sentido que se possa, normalmente, considerar. Há que usar, aqui – para se fazer um favor – , um jargão pouco “económico”. Embora exista, por vezes, a sensação de que é, exactamente, terminologia como esta – contaminada, moralmente, por uma raiva – quecondiciona”, por vezes, a um não pagamento.

Generalizou-se, nos últimos anos, com a proliferação de estratégias de divulgação que têm por base o conteúdo oferecido – na impossibilidade: com a multiplicação de mecanismos, como o download, para o tornar oferecido – uma espécie de “feira digital” que o confundiu ao ponto de ser considerado como “direito”, no tempo de todos os direitos – principalmente de alguns que devido a um abuso, talvez – quem sabe – excesso de mimo, provocam uma inversão tal que quase – ? – roça a desigualdade: o de “sermos informados” – sem uma contribuição; quando se fala – tanto – de “sociedade civil” – mas, preferencialmente, entretidos. O que se converteu, rapidamente, em exigência, tornada inevitável, de fuga e alheamento. Mesmo que estas sejam também uma causa. Porque o método é apenas atalho. Tudo isto é, igualmente, arbitrariedade: devido a uma dificuldade em legislar; incapacidade, até ao momento, de controle – do estado – da internet; da internet como estado: um governo, se impotente – quando se vê incapacitado para agir -, também costuma, para se popularizar – e fazer esquecer -,privatizar”.

Existem termos que se adequam menos do que se pretende acreditar: “espírito de colaboração”: que género de “partilha” existe no facto de se fazer uma descarga, desde sempre não consentida, de um ficheiro, com uma obra que nunca nos pertenceu, ainda está por apurar. Beneficiar o consumidor, pondo de parte o “autor” – “esse prepotente; como ousa intitular-se assim?” -, é metade da “revolução”. Mas – creio poder-se dizer -: não há memória de alguma sem um pouco de “sangue”. É claro que o tentaremos “limpar” ao, como exemplo, exclamarmos: “Com o download dou visibilidade a um agrupamento que, de outra forma, seria, para sempre, desconhecido”. Um salvador. Os diferentes processos que levaram à fabricação e aceitação deste tipo de falsificações como “verdades” e normas sociais foram, contudo, indispensáveis ao mecanismo de transição para o digital, à emergência e tomada de poder por parte de novos actores, empresariais e profissionais, na re – hierarquização, mundial, em curso. Foi fácil persuadir: a quantidade – uma maioria – transforma tudo – à primeira vista – em “democracia”. Não está – pelo contrário – em formação uma distribuição das oportunidades nos termos em que se pretende assegurar. Foi este o golpe de génio. Inatacável pelas expectativas que criou. A “promessa” que constituiu, essencialmente, uma manobra para efeitos de propaganda. A manipulação argumentativa a olear a engrenagem.

O universo empresarial pensou a sociedade do gratuito como “inevitável”. Incorporando-a; favorecendo-a. Colocando-a, de vez, no patamar da moral: uma causa a defender. Não se trata, já, do “melhor produto” a ser vendido ao menor preço: a competição é pela oferta. Devido a uma abundância: o “normal” passou a ser, frequentemente, desinteressante. O “exclusivo” ou “especial”considerado como algo vulgar; mais ou menos apreciável, dependendo do “tempo”, de uma tolerância e disposição. De uma “boa vontade”. Não é difícil compreender que tanta espera – tão pouco esforço – não revela – beneficia – um crescimento ou maturidade. Há qualquer coisa de falha fundamental nesta tentativa de erosão de uma possibilidade de trabalho em sectores, teoricamente, desejados.

Podem – jornalista, escritor, cineasta, compositor – continuar a esbracejar. Dir- lhes- emos – para uma consciência mais tranquila – que o fazemos, únicamente, para “os ajudar”. Em prol de uma luta – pedida por quem? Não chegou ao contrato? – contra a “exploração da multinacional”. Como se não estivesse a ser posto em causa, a partir deste momento, também um mundo “independente”. Por vezes, e em última análise, bastante solitário. Mesmo que, com esta atitude, façamos quadruplicar os lucros de outra. Desta vez em sector alheio: o tecnológico e o digital. Poderiamos, num repente, inventar uma designação. Talvez: sobre- exploração?.

Tudo isto se assemelha a “espírito de natal”. Vem-nos, subitamente, à memória aquela criança – asfixiada por prendas; cercada de adultos – que começa a rasgar o segundo embrulho antes de acabar, de abrir, o primeiro. Finalizou a visualização do último vídeo dos Artic Monkeys antes de o colocar na rede social?

Não ajuda qualquer negócio: palavra intrusiva, chata, inoportuna. “Devia resguardar-se; mostrar algum decoro”. Isto: se aplicada ao sector cultural. Mesmo que seja, por aí, distribuído – com toda a sabedoria do “guru” da economia – que “acabou o tempo do emprego para a vida”. O tipo de advertência que, para além de ser alarme, materializa uma sentença. Contudo: bateremos palmas ao ultra- monopólio que nos fizer a vontade – mesmo que, pelo caminho, arrecade vários milhões; nos disponibilzar a biblioteca ou uma “nuvem”; nos substituir a cópia pelo original: uma das “caracteristicas” da cloud – da Apple – é, exactamente, a possibilidade de “renovação” automática, através de um sistema de detecção, de temas musicais, anteriormente, adquiridos por nós. Agora com qualidade sonora superior. Uma porta, aberta, fatal. Para a institucionalização da pirataria. Para uma injusta distribuição. Entretanto: as “indústrias culturais” são realçadas – pelo governo; por um “criativo” – como “motor” de uma futura – e, aqui, atenção ao advérbio – “recuperação económica”. Mea culpa: eu, no passado, incluído.

Não beneficia o “consumidor” que poderá aspirar, um dia destes, a ser autor. Mas que, provavelmente, acabará, também, a desenvolver “aplicações”. Por exemplo: de “conteúdos personalizados”. Uma das propostas mais recentes, antes da próxima, para se “monetizar” informação – devedora, sem dúvida, de uma certo egocentrismo e autismo existencial; ou a conceber outra qualquer – talvez desnecessária até ao momento da sua criação – para telemóvel. Se, entretanto, o conceito não tiver desaparecido. Sido substituído devido a uma inovação permanente. Que não “pretende”, porque incontrolável, mudar de direcção. Para onde o limite de velocidade seja um pouco mais humano. Prefere, de facto, o desvio contínuo. O desatino contínuo? Instabilidade perpétua a ser vendida como “progresso”.

Há uma diminuição, considerável, em termos de satisfação quando se encontra ausente uma luta pela obtenção. Do que o outro produz. A não ser que, através desta passividade, tenhamos descoberto – e aproveitado – para um novo prazer: usufruir da recusa. Exactamente: porque o outro produz. Todos, somos, agora: um “artista”, “actor” e avatar. Atravessamos o ecrâ. Estamos, por fim, no centro do palco. Se, contra toda a lógica, acreditamos nisto: para quê pagar? Debaixo de um outro foco – um pouco mais real – alguém se ri. Sabe o que iremos comprar. Conhece a razão. E, antes de correr as cortinas: agradece.

 Afonso Duarte Pimenta