O Papel das Notícias

O Público Está “Morto”

Posted in Crónicas, internet, jornalismo by Afonso Duarte Pimenta on 19 de Outubro de 2012

Senão: está a caminho de morrer. Espero que me perdoem o empréstimo nietzschiano – o que, nesta altura, pouca diferença fará: estamos em época de entronização do plágio em nome “colectivo” -: mas também somos nós, os indiferentes, que o estamos a matar. 48 é o número de trabalhadores “dispensados”.

Print is Dead: este slogan, continuamente repetido para que se venha a  tornar, definitivamente, realidade, resulta de uma constatação? Ou, pelo contrário, de um desejo? De uma vontade de superação, de destruição, daquilo que se resolveu catalogar como “tradicional” (desculpemos. Mesmo que mal esgalhada: foi necessário encontrar uma narrativa para um outro comércio; para a “revolução”) ? De uma necessidade, ansiosa, de fuga e, por isto, de renovação?

Digital Is The Future: propaganda que se generalizou desde o advento da internet. Monótona; cansativa; pouco criativa: não há marketeer que lhe resista. E, para lá das monetárias, que se aperceba das razões profundas dessa inquietação. De tão aproveitada: converteu-se em verdade presente. Continuamos, contudo, a ver, ainda, bastante papel. Ali: onde a informação, de qualidade, está visível. Não diluída. Não parece que nos afecte. Mas, se acontecer, conseguiremos ser, um pouco mais, tolerantes?  Menos apressados? Mais integrados e ambivalentes? Não esqueci: é- nos conveniente. Podemos, desta forma, olhar para o lado. Não gastamos dinheiro. ”Estamos em época de crise”. De disseminação e desvalorização das receitas publicitárias – senhores: por isto mesmo -.  Além, claro, do “direito à informação”.

Porém: quantas vezes nos lembramos e quantas vezes esquecemos, o que é ligeiramente distinto, que de nada vale o “direito” a essa informação se ela estiver, também por nós, empobrecida? Que necessita, urgentemente, de financiamento para que nos “devolva” a democracia?

Em Portugal, ao contrário de países como França ou Espanha – mesmo que insuficiente -, não existiu discussão sobre o assunto. Quase que não foram organizados debates, programas de rádio ou de televisão. Sobre o que está a suceder ao jornalismo. Para além da frase feita. Do artigo de “opinião” do “guru da comunicação”. Em nome das pageviews: tiveram medo de nos ofender. Como se fossemos crianças amedrontadas. Com a possibilidade de perdermos a quota habitual de escapismo e entretenimento. Sem nunca darmos, absolutamente nada, em troca. Será que somos?

Existe, contudo, um obstáculo: esta tentativa de sacralização´- com todas as suas coordenadas; toda uma moral orientadora – de um império que se resolveu denominar como “digital”. Como se não houvesse nada, para além dele – como o temos agora -, que merecesse ser pensado ou avaliado. É esta certeza absoluta – este engano – que precisa de ser demolido. Questionado. Não para ser eliminado. Tarefa absurda e impossível. Mas para que seja alterado. Em direcção a uma cultura que não seja, apenas, a da valorização do sound- byte. Do curto prazo. Da irresponsabilidade pessoal. Para que se concretizem, um pouco melhor, os outros dois anúncios. Para que não se satisfaçam pelo facto de permanecerem em estado de utopia: “a sociedade do conhecimento” e – esse mesmo ! -: o “espírito de colaboração”.

Afonso Duarte Pimenta

Do Medo do “Elitismo”: Chantagem Cultural

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 3 de Outubro de 2009

Imagem retirada de http://www.ehow.com/

 Afonso Pimenta

Começou a guerra pela exposição. Embora a noção “jornalismo de cidadão”; apesar da justificação democrática: o twitter é, além de atalho, mais do que um passo na aniquilação da diferença. Apelidá-lo de “jornalismo”, apesar de instrumental, peca por abuso. Na ausência de um provedor. Na inexistência de um livro de estilo. Mesmo que utilizado, como exemplo, para relato, mais ou menos nebuloso, de manifestações de vigília e protesto como as que ocorreram no Irão. Ou para denúncia face à fraude eleitoral por parte do regime de Mahmoud Ahmadinejad. A não ser que “cidadão”, aqui, seja sinónimo de impreparação. Posto às claras.

Na recente aproximação cultural entre leitor e jornalista – audiófilo e compositor; aspirante e autor – um criador está, doravante, sujeito a inclinar-se – e a oferecer – em nome de um novo conceito libertário. Sob pena de ser  rejeitado. “Preserva, ainda, uma intimidade? O seu direito? Individualidade? Aponto-lhe um dedo. Anti- democrata!”. Contudo, como bom “comunismo”, será, ainda assim, consumido. Mesmo que mal digerido: será bem descartado. Com 140 caracteres.

O sonho, a projecção e a imaginação tomam a forma de uma amizade. Redutora de conteúdos. A megalomania, hoje incolor, era privacidade. Vontade de criação para algo maior. Agora é plural, de contacto, de partilha e, acima de tudo, acessível: nivelada. Em detrimento de um confronto: originalidade perigosa. Criar, na zona cinzenta, não é nada civilizado. É o medo do elitismo. Promovido, e utilizado, pela demagogia panfletária digital. Que usa o modelo de negócio, cada rede social, como instrumento para a ascenção ilusória individual. O cidadão, na ânsia de poder, é desviado. Para uma reorganização, apesar de dispersa culturalmente, mais concentrada economicamente. Dominam, subvertendo regras anteriormente – exteriormente – lógicas de propriedade pessoal, os gigantes da World Wide Web. E ganham. Por terem a base a seu lado. O resultado, por não permitir uma audácia, é, afinal, o esbatimento da vontade pessoal. E deriva, antes de mais, de uma sensação, difusa e oculta, de inveja social:

O gratuito é o instrumento de vingança contra a sociedade do espectáculo.

O marketing, na identificação do processo, tornou-o consciente. E, mais uma vez, potenciou a realidade em nome da publicidade. Em nome, na configuração actual, do “nicho de mercado” e do “brand yourself”. Contacto directo entre consumidor e produto. A exigência do indivíduo é a prioridade. Mesmo que se ponha em causa um valor. Se abra caminho ao favor. A obra secundariza-se. Ser-se criativo é fazer “marketing de aproximação”.

Sejamos claros: vislumbrar o essencial na sociedade do livre acesso torna-se, no meio dos escombros, uma tarefa. A consequente eliminação do desejo e vontade de criação – esforçada; demorada – conduz, a meu ver, a um movimento de atracção mútua através da qual a substância passa, definitivamente, para segundo plano. A agregação de quem se deseja ser aquele que deseja ser tem como objectivo, bem disfarçado por uma retórica, a ultrapassagem do segundo pelo primeiro. Nada de novo.

Olhando o jornalista, o músico ou o designer que se promovem, minuto a minuto, através da actualização, na ilusão propagandeada de tal ser necessário (acaba por ser, por um momento), só nos atrevemos a uma expressão: desespero. Links irreflectidos atrás de posts ignorados. Consideramos, se ainda fossemos suficientemente humanos para isso, o que se tornou dispensável. É verídico: estamos às apalpadelas. A fuga ao instinto através do gadget tecnológico. Está em curso a ligação neuronal pré- biónica planetária. E já acena, por aí, o Google Wave.

Apesar do extremo conseguido até agora foi ao Myspace que coube a inauguração da desmoralização do estatuto. Se Madonna era religião agora suplica. Que sejamos, na sua página, um amigo. O mistério e o mundo interior, arrancados à força, perderam valor moral. Esta  necessidade, de agradar, transforma- nos, consumidores, em parasitas. Exigimos gratuitidade. Deixamos, aos poucos, de conceber o seu contrário. Estamos demasiado perto. Ainda assim, perdidos num excesso, intitulamo-nos “democratas”. Útil virtude a favor da chantagem.

Os Radiohead, ao iniciarem o ciclo das ofertas conscientes de um álbum de originais, elevaram-se a símbolo de uma subserviência. Que contamina outros sectores culturais. Entre os quais o jornalismo. Relevante por representar um intuito concreto: manutenção do regime democrático. Este objectivo – mais ou menos evitado; mais ou menos esquecido – implica a aceitação social da especialização. Da importância de um financiamento responsável.

Mas a criança, hoje, é rei. Exige ser tratada por “tu”. Denunciamos, também aqui, um masoquismo. E constatamos: proliferam workshops, formações, espectáculos musicais, debates culturais, cineastas, jornalistas, “bienais”, exposições e instalações artísticas. E nunca foi tão vulgar o download. Mas gostaríamos de ver,  no meio do pântano, uma planta carnívora. Mas é o medo do elitismo. E, por certo: pouca vontade de sobrevivência.

Suplemento de Outono

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 12 de Setembro de 2009

 

Cheira-nos a outono e é isto. Recomeçamos a dar aquilo que existe de mais maduro em nós. Permitam-me iniciar já com um desplante. Se o virtual não glorifica a densidade correremos em sentido contrário. Se recusamos uma certa tuiterização não é porque a renegamos. Precisávamos, para isso, ter-lhe dado verdadeira existência. Acusam-nos de não vermos o futuro”. Evitamos desfocar os olhos. Temo-los bem fixos no presente.
 
Para os que não têm ouvidos há que o clarificar: não somos, nunca fomos, contra a internet. Há que transpor o radicalismo da metáfora. Por isso uso, tantas vezes, o itálico. Há uma distância que separa o MFJEP da realidade. Não pretendemos impor nem inverter o mundo. Iremos, brevemente, dar passadas mais largas e ultrapassar o formato escrito. Mas este é um projecto, acima de tudo, de interpretação. Existe uma base comum em torno de um ideal. Mas não existem argumentos aproximados, para a sua defesa, em nenhum dos intervenientes. Deixemos, pois, a moralidade para o leitor.
 
Lemos jornalismo digital. Mas não acreditamos na gratuitidade sem um modelo, a par,  financiado e baseado na noção de responsabilidade pessoal. Que o suporte. Não pretendemos convencer mais que dois ou três. Eis, para nós, um triunfo. Somos, se calhar, uns elitistas. E, exactamente por isso, queremos continuar a provar, dentro de momentos, a nossa inutilidade.
 
Afonso Pimenta

O meio e a mensagem

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 14 de Julho de 2009

Imagem obtida em inkart.com: http://3.ly/gUa

Nuno Miranda Ribeiro

No que diz respeito à internet, eu subscrevo primeiro e pergunto depois. Sou, fui, em muitos serviços, o que se chama um early adopter. Foi o caso do Twitter, que subscrevi e deixei em suspenso durante mais de um ano (principalmente porque me fartei  das constantes falhas no servidor, que faziam interromper o serviço). Sou dos que têm demasiadas contas nas redes sociais (no meu caso, exceptuando o hi5, Orkut, Facebook e sites desse género), tantas que  não me lembro de todas.

Quando descobri os feeds, passei a ler demasiados blogues. Depois descobri o Google Reader e subscrevi tantos feeds que deixei de ler blogues. Recentemente passei a usar o Feedly, o que fez com que voltasse, timidamente, a ler blogues. Gosto do facto de haver, para cada serviço, muitas opções – quando me inscrevi no Geni, abri conta em mais 5 ou 6 sites de criação e gestão de árvores genealógicas. Uso, ao mesmo tempo, o Last.fm e o Grooveshark e estou inscrito em mais uma dezena de serviços semelhantes – embora só use os dois que referi. Não vou continuar a dar exemplos, porque me envergonha um pouco a forma deslumbrada, festiva e caudalosa de me relacionar com os serviços online.

Penso que posso afirmar com alguma exactidão que qualquer pessoa que tenha um curso de jornalismo, comunicação, marketing ou publicidade, conhece a expressão “O Meio é a mensagem”. E muitos conseguirão relacioná-la com Marshall McLuhan. A expressão não é inteiramente pacífica. Na sua formulação hermética, foi muitas vezes recebida mais  como uma provocação e um jogo de palavras do que  como a síntese de uma ideia. É tão relevante, no estudo dos fenómeno envolvidos na comunicação, que mereceu a sua própria página na Wikipédia.

A forma como entendo a expressão de McLuhan deixa-me apreensivo em relação a uma tendência minha de me deslumbrar e envolver no meio (e o contexto é o da internet), desinteressando-me da eficácia da transmissão de conhecimento ou da utilidade didáctica das ferramentas online a que adiro entusiasticamente. Se faço disso motivo de crónica é porque me parece que apenas sou um exemplo de como as pessoas se relacionam com os media. E se o meu comportamento é consonante com o comportamento mais frequente na minha geração e seguintes, a gravidade da minha preocupação está, suspeito, longe de ser habitual.

O You Tube, os feeds, o Twitter, o Facebook e o Myspace são menos ferramentas a que se recorre e mais o ambiente em que se está. Muitos sites procuram criar uma atmosfera lounge, confortável e apelativa, exactamente por perceberem que os utilizadores têm o site aberto e frequentam-no como a uma esplanada, uma biblioteca ou um bar. A diferença é que nesses locais não estamos isolados, medindo tudo pela satisfação do ego. É verdade que comunicamos, que dizemos coisas que são entendidas e entendemos coisas que nos são ditas. Dizemos muito mais coisas do que diziam os nossos avós. Ou melhor, linkamos, reencaminhamos, partilhamos, clicamos.

O que quero sugerir talvez seja mais fácil de entender com o exemplo do telemóvel. Antes de existir a possibilidade de levarmos connosco um engenho que permite fazer chamadas telefónicas, não havia uma necessidade terrível a que fosse imperioso corresponder. Os telefones fixos serviam-nos muito bem. Neste momento, uma empresa que ficasse sem telemóveis, teria imensas dificuldades. Fala-se ao telemóvel porque se pode. E porque se pode falar ao telemóvel, organizamos os nossos compromissos, o nosso quotidiano e a nossa forma de pensar à volta disso. O exemplo do telemóvel vai para além da função inicial do aparelho: falar à distância.

É um exercício interessante observarmos, num local público, as pessoas que estão sozinhas. Uma parte certamente estará de telemóvel na mão, manipulando-o com a perícia do hábito. Sim, desses uma parte estará a enviar sms’s. Mas os outros não. Têm o telemóvel na mão e rodam-no na mesa do café ou passam o polegar pelo ecrã ou vêm as horas, de minuto a minuto. A nova tendência dos ecrãs tácteis, veio exponenciar este contacto sensual e íntimo com o que começou por ser um aparelho telefónico. A forma como nos relacionamos com o telemóvel dá sentido a algo que o McLuhan afirmou: os meios de comunicação são uma extensão do nosso sistema nervoso central, ligando-nos a todos em rede. Proferimos metáforas McLuhanianas diariamente, sem nos apercebermos: “estou sem rede”, “fiquei sem bateria”, “dá-me um toque”. Sou eu que estou sem rede, eu que fiquei sem bateria, eu que receberei um toque. Lembro-me de quando, há uns 8, 9 anos, me surpreendi com as palavras de um homem que fez uma chamada do seu telemóvel, quando o comboio em que seguíamos estava a chegar ao destino. Quando atenderam do outro lado, disse “olha, estou a chegar, sim, não se atrasou, estás aí como combinado?, ok, o comboio está quase a parar, sim, até já”. Espantei-me, divertido e incrédulo, com a inutilidade do telefonema. Hoje, uma parte dos meus telefonemas devem ser assim, inúteis e redundantes – mas cumprem a sua função de me fazer sentir próximo, ligado, disponível.

Quando estamos no Facebook ou no Msn, as coisas passam-se a um nível mais complexo. Sentados em frente ao computador, somos (corpo e máquina) um ser simbiótico, uma silhueta cibernética, de poderes e alcance aparentemente ilimitados. Gostamos de ser estimulados, apaparicados, de receber links e smileys, partilhar o riso à volta de um vídeo, carregar no enter, no fim de uma frase, para poder voltar a encarar a webcam. E o que estamos a comunicar?

Cada vez se começa a usar o telemóvel mais cedo. Os pais parecem aliviados por viver num tempo em que é possível ligar a meio do dia para um número e falar com a cria, para confirmar que tudo está bem. É um cordão umbilical McLuhaniano, que passa a fazer falta, a partir do momento em que é disponibilizado. Enquanto crescia, não tive esta possibilidade de ligar do meu próprio telefone (e portátil, ainda por cima) para os meus amigos. Não tive um computador ligado à internet no quarto onde continuar a conversar com os amigos, mesmo depois das aulas. As crianças, e de forma muito intensa na pré-adolescência, têm esse espaço de ligações e contactos, que não me atrevo a chamar de virtual, que se acrescenta ao espaço físico da rua – menos frequentada -, da carteira da sala, do quarto. Para um adolescente, ficar sem rede, ficar sem bateria, é mesmo um problema.

Todos estes meios que usamos aumentam a eficácia da comunicação? E sem eles, conseguimos comunicar de forma completa, pertinente? Mais ainda, o objectivo principal, ao usarmos telemóveis e computadores, é comunicar?

Jornalismo: cenários de ficção

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 27 de Abril de 2009

Se Ashton Kutcher é MTV, ainda é MTV. Mas é modelo de adaptação. Se artilharia moderna é visibilidade, o marketing – mais que empresarial – é individual. Mesmo que ilusório para uma maioria de cidadãos, o tom da temporada é o brand yourself: o homem da multidão. O actor, em jeito de representação bíblica, soube que o twitter existe. E desafiou o gigante informativo CNN. Sabe que a promoção actual é adquirida por aproximação. Finge, por isso, pôr-se ao nível dos seus fans. E através deles enfrentou a corporação: a vitória é nossa”, declarou. O objectivo era o de alcançar o milhão de seguidores e ultrapassar o canal de televisão. Se o conseguisse doaria dez mil redes anti- mosquito em honra ao Dia Mundial da Malária. Se vencesse. O gesto, apesar de bem intencionado, tem qualquer coisa de dificuldade institucional; oposição a um organismo compacto – integrado – que o vigia. Que me limita. Para a estrela foi sinónimo de “supremacia popular” sobre o “sistema”. Sendo que o povo é, essencialmente, ele próprio. E o sistema quem o observa. Contudo, Ashton Kutcher é ainda MTV.

Entretanto, uma nova geração teatraliza- se. Está no centro do palco. Aos nossos olhos: no futuro e na publicidade. Once and for all we´re gonna tell you who we are so shut up and listen, de passagem pela Culturgest, não podia ser mais referencial. O espectáculo, representado por treze adolescentes a encarnar outros tantos actores, ritualiza, supostamente, o comportamento de um determinado tipo de juventude actual. O descontrolo é, aqui, propositadamente coreografado. A banda sonora, contaminada. Representação de uma representação de uma pulsão encenada? Ou, pelo contrário, tentativa de controlo de uma realidade interna latente através da liberdade da representação?

A noção de anarquia – ainda não com esta expressão – foi identificada em Tirania e Comunicação. Escapando a um certo bom senso, idealizei, a partir dali, uma sociedade futura. Em pequenos ímpetos de realização cinematográfica surge a concepção de um mundo em que o excesso de amor e parca informação conduzem ao levantamento de uma vontade maior. Para a liderança. Que se manifesta, de forma superior, numa quantidade considerável de individuos: centrados em si; pouco tolerantes a um vulgar “não” e sedentos de uma distracção que compense, fora de casa, o lugar deixado vago por iPhones, entretenimento e iPods sucessivos. A maior troope de ditadores que jamais caminhou sobre a terra. Com a informação a limitar os passos. Tudo isto não passa de futurismo. É necessário decoro. É mau rascunho para argumento série- b. Por isso – para estar naquele meio termo que lhe é característico – há que juntar realidade.

They´ve got your number: é o titulo atribuído por Charles Arthur a um artigo publicado no passado dia treze de Abril no Guardian. O jornalista de investigação – não são já muitos – precisará, contra o excesso de intromissão estatal e empresarial, de perder um pouco a : na tecnologia. Redescobri-la em armas eternas: papel e caneta. Juntar-lhes um cartão não registado de telemóvel e uma velha motorizada. É o futuro a meio gas. Devido a novo regulamento governamental, as companhias de internet e telefone britânicas serão obrigadas a registar números e contactos. O que poderá facilitar a localização de fontes jornalísticas. Que conduzirá ao medo. E ao decréscimo da delação do crime e corrupção. O negócio paralelo da venda de informação faz-se ao nível da pequena corporação. E o ser humano, quando elevado a posição superior, não sacraliza a instituição. Poder- se- ia parar por aqui. Mas a seguir ao amarelo vem o sinal vermelho: a sofisticação Automatic Numberplate Recognition, introduzida pela polícia, tem como desígnio a identificação de um fugitivo criminal através da matrícula automóvel frontal. Sistema que permite desenhar o trajecto percorrido. Por isso a recomendação: a motorizada não é abrangida. O papel e a caneta não permitem identificação. Um cartão de telemóvel não registado também não. É a metodologia da investigação lado a lado com o terrorismo. Ficção? Realidade. Mas dois cenários confundíveis na demanda de um guião.

São tempos de falência, recuo publicitário e avanço digital: o obituário de um jornal está na sua própria capa. O mercado procura a qualidade. Mas a qualidade na comodidade. A antropologia, tão requisitada a nível empresarial, busca a localização de espaços em branco. A análise microscópica de tendências e inclinações visa a detecção de nichos emocionais. É- lhes atribuído a designação de necessidade. Para a fabricação de novo produto. Que aumenta a dependencia e a fragilidade pessoal. Infantiliza-se. O que, inevitavelmente, promove o surgir de novas oportunidades de negócio. A dinâmica, em espiral, subverte, para toda uma geração de artistas, a informação. Porque a converte em entretenimento. Todo um ciclo de evasão que afecta o trabalhador futuro. Consumidor do presente. Alan Murray define, da seguinte forma, características e funções do reporter para o formato em linha do The Wall Street Journal: “Rapidez”, “Construção de audiências”, “tuitar” e “divertir-se” (?). Nada disto é jornalismo.

Por trás de toda a toxicidade argumentativa esconde-se, quase sempre, uma verdade instintiva. Qualquer coisa – no presente caso – de desvalorização – paradoxo – colectiva da coesão. O despontar de um encapotado e polido sub- género de anarquia. Interessa, por isso, um conhecimento disperso, fragmentado e pouco estruturado. Que não controle. Nem seja controlável.

Sem o olhar distraído e vagamente cúmplice do mercantilista moderno, a frase proferida em inquérito por um jovem consumidor de informação – If the news is that important it will find me – resume o conceito- chave que sustenta a deslocação para o digital. Contudo, ofusca uma outra expressão:

A notícia sou eu

E esta é, quanto a mim, a questão ignorada.

 

Afonso Pimenta

 

 

 

O que tem o jornalismo de tão especial?

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 2 de Abril de 2009

Foto de Tim Silverman - http://supertim.deviantart.com/

Foto de Tim Silverman - http://supertim.deviantart.com/

O YouTube mantém o lema inicial: “Broadcast Yourself”. O fenómeno dos blogues, cujo crescimento parece ter abrandado seriamente, veio transformar cada pessoa com um computador com ligação à internet num autor (ou em muitos casos, num simples autómato de repetição ou mesmo plágio). O Twitter, com a pergunta “what are you doing?” veio sugerir-nos que é importante, para os outros, o que estamos a fazer, a pensar, a viver. O nosso ego, neste início do século XXI, tem uma série de ferramentas para se expressar, expandir e convencer de que é especial.

Dizia o Afonso Pimenta, no texto que iniciou o MFJEP, “O jornalismo escrito, enquanto produto, não pode ser encarado exclusivamente como tal: ele é aquilo que me alerta para o que eu não sou. O único veículo que possuo para estar atento relativamente ao que é exterior à minha diminuta capacidade de alcance e atenção: o poder.

Sempre seleccionámos a informação, como qualquer outro produto, segundo os nossos apetites, a nossa cultura e os nossos preconceitos, a nossa personalidade, os grupos de que fazemos parte e os hábitos que fomos adquirindo. Hoje, em 2009, a internet tal como existe reforça o nosso papel de decisores face ao que nos é dado consumir. Há tanto por onde escolher (quanto à forma, ao conteúdo, ao estilo, à fonte, ao suporte, etc), que somos mesmo forçados a escolher, a todo o instante.

O sucesso do YouTube veio confirmar (pregando um valente susto às grandes cadeias de televisão) que as gerações mais novas não têm paciência para esperar pela emissão à hora x de determinado conteúdo. Preferem procurar o conteúdo desejado e vê-lo de imediato. A minha geração, e as gerações anteriores também, de forma mais cautelosa, aderiram à facilidade de aceder ao que se quer quando se quer. Os mais novos já não se sentam tantas horas em frente à televisão como a minha geração fazia. Algumas dessas horas são agora passadas em frente ao ecrã do computador. Vai-se à procura do que se quer ver e ouvir, em vez de se esperar pela transmissão à hora marcada.

Da mesma forma, deixou de se comprar o jornal, para se ir à wikipedia, ler blogues, ocasionalmente consultar a página de uma publicação, principalmente se alguém conhecido nos atirou com um link. Esta mudança de atitude, amplificada pela valorização desmedida do ego, tem algumas consequências nefastas. Grande parte do tempo não estamos receptivos à aprendizagem, ao novo, ao confronto e à surpresa. Apenas procuramos reforçar com mais dados aquilo que julgamos saber, apenas queremos encontrar validação para os nossos valores e preconceitos. Somos o editor e o censor de nós próprios. E com algum sucesso, se deixarmos de consultar a informação que é agregada e difundida por profissionais, sem o filtro da nossa conveniência.

Quando andamos na escola há um programa, que pode ser adaptado aos alunos mas que é razoavelmente fixo. Foi estabelecido como um conjunto de conhecimentos que são essenciais e desejáveis. Na vida adulta, o jornalismo é uma fonte de conhecimento importante. Já não existe a benevolência mais ou menos contaminada, mais ou menos iluminada dos programas escolares. Existe uma selecção, feita por profissionais, do que é importante saber sobre o que está a acontecer.

As regras e o método com que é produzido o jornalismo pretendem contribuir para que o bolo da informação difundida se ponha a jeito de ser apreendido enquanto conhecimento. A alteridade de que o Afonso falava é de extrema importância. Independentemente do mundo em que eu preferiria acreditar, o mundo é o que é. Os jornalistas não me dão o mundo, é verdade. As notícias não devem ser confundidas com a realidade. Mas são resumos, retratos, relatórios, crónicas do que é real e existe fora de mim.

Os jornalistas estão obrigados a distinguir com clareza o que é facto do que é opinião. Algo a que os bloggers, obviamente, não têm de ligar importância. A propósito, o que aqui neste blogue é produzido não é jornalismo. Há uma grande exigência, que nos compromete. Mas damos a nossa visão particular sobre as coisas. Seleccionamos o que julgamos importante segundo o contexto em que criámos o MFJEP. Os jornalistas ouvem as várias partes envolvidas numa história, e devem, embora nem sempre o façam, confrontar as versões obtidas com os factos apurados.

Os editores têm a missão de escolher, de entre avalanches de informação, o que deve ser noticiado. E fazem-no, a isso os obriga a deontologia, segundo o interesse público e não segundo critérios pessoais, políticos ou comerciais. Numa democracia, são os jornalistas que “vigiam” e reportam a actualidade, a acção dos políticos e “o que acontece”, são eles que nos trazem o que de novo se produz em ciência e arte, que nos põem em contacto com o mundo em que vivemos.

Qualquer ameaça à integridade e qualidade do jornalismo é uma ameaça à nossa liberdade. A ignorância e a alienação (que o jornalismo previne e combate) são ameaças constantes à liberdade. Confundimos, desde sempre, “capacidade de fazer coisas” com liberdade. Porque temos dinheiro suficiente para consumir mais, viajar mais, fazer mais coisas que os nossos vizinhos de planeta que habitam na metade pobre, não somos mais livres. Somos livres enquanto soubermos quais as opções que se nos apresentam, somos livres enquanto pudermos construir a nossa escolha. E sem o jornalismo e a sua função de mediação entre realidade e personalidade e de formação da consciência colectiva, não passamos de animais com dinheiro no bolso.

Nuno Miranda Ribeiro

Tirania e Comunicação

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 29 de Março de 2009

                                          

Foto retirada do Wiseupjournal (http://www.wiseupjournal.com/)

Foto retirada do Wiseupjournal (http://www.wiseupjournal.com/)

 

Perdoe-me Ignacio Ramonet. Se existe uma “Tirania da Comunicação“, poderá ela existir sem informação? Ou ainda, mais objectivamente, para além do controlo, moralização e vigilância a que esta última, necessariamente, conduz? Até onde teria ido – e mesmo assim… – George W. Bush  – o homem  que mais sentenças de morte assinou enquanto governador do Texas; facto esquecido – como presidente dos Estados Unidos da América sem um financiado e eficaz sistema da comunicação social? O instinto perdura, inalterado, na raça humana. Enfeitado, apenas, pela palavra, justiça ou moral social que, de resto, é modificável. Houve quem dissesse que a sociedade corrompe o homem apesar de “infinitamente bom”. Outros contestam e perguntam se não passará a vida a tentar provar que o é.

 

A crescente diminuição na venda de publicações em papel cujo foco se direcciona, ainda, para o conteúdo e para um público antigo que “percebe”, objectivamente ou não, o propósito do jornalismo como denúncia, a contaminação social pela noção de entretenimento ou a valorização abusiva das plataformas digitais como veículos de transmissão de conhecimento transferem a eficácia da investigação para um princípio de rapidez e formatação que ultrapassa – e desvirtua – a importância da coesão social baseada na observação. Que apenas um meio de comunicação pago e generalista – e mesmo assim condenado a uma série de factores politico- económicos, consegue. Como se uma inovação, só por o ser, fosse sinónimo de modernidade. Como se um jornal digital, por ser actual, fosse eficaz. Como se o futuro não fosse o passado de outra coisa qualquer. Como se no presente não existisse uma constância qualitativa, transmissível, independente da matéria. Como se a tecnologia, apenas por se apresentar como tal, fortalecesse uma perspectiva sobre a realidade. Como se “andar para a frente”, o futuro e o fugir fossem essenciais. São. Mas não implicam esquecer o passado. E não deixam de vaguear, por aí, profetas carregados de interesses monetários e industriais a acelerar a transição. Somos, por isso, olhados de soslaio: escravos do Twitter.

 

Se, como refere Nuno Miranda Ribeiro em A nostalgia do papel” no blogue do MFJEP (Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago), a geração que se encontra agora na casa dos 30 anos é motor e vítima de uma metamorfose entre a tradição e o digital, também ela poderá ser, para além da constatação de uma inevitabilidade, promotora de uma comunhão; unificação para o essencial. E a rapidez, aqui, desce para um degrau inferior. O “tempo real”, a actualização constante, a “Breaking News” e a interactividade é cada vez menos, informação. É que, a partir deste momento, mais rápidos, só se soubermos o que vai acontecer antecipadamente.

 

O discurso, excessivamente direccionado para o mercado, afasta-se das pessoas. Procura-se o formato – uma série deles se seguirá – e esquece-se o ponto central: para que serviu – e serve – o jornalismo. Não se trata aqui de ignorar a dinâmica social mas de a complementar. Para além do mais – assim como o meu parecer – os movimentos não carecem de subjectividade. Já diversas experiências – falhadas – se fizeram em nome da salvação do jornalismo. Como alguma semi- tabloidização de veículos de referência – e perda de importância anteriormente conferida a secções de opinião – que acabou por afastar leitores mais exigentes.

 

O “Financial Times anunciou recentemente um novo método de trabalho como forma de integrar o papel e o formato em linha dando especial relevância a este último. Como sempre, o “alarme” está no detalhe. A noção de “right first time” levanta algumas interrogações. O objectivo é o de refinar e simplificar o processo de produção. Observemos esta directiva: “Isto (controlo de qualidade) é importante para o conteúdo on- line mas também o é para o formato em papel”. O digital passou para primeiro plano. Não só a exigência do consumidor se impõe como as próprias redacções a parecem incentivar.

 

José Manuel Fernandes, director do “Público”, anunciou também há dias uma mudança estrutural: “a internet é o futuro”. Não é. A internet é o presente. O futuro passa por uma consciencialização relativamente ao papel – e não necessariamente “em papel” – da investigação jornalística como um dos alicerces essenciais para a manutenção e revitalização de um regime democrático – numa esplanada ou num e- journal – por parte de entidades civis e governamentais.

 

A “sociedade de filhos únicos”, radicalização de fenómenos anteriores, intolerante face à frustração, cuja publicidade lhe é quase exclusivamente direccionada e que tem no prazer o seu leitmotiv, reflexo e imposição de direitos das crianças”, há já muito que se desabituou – ou nunca o sentiu – de financiar a cultura ou a valorizar o esforço que a sustenta. Agrupamentos musicais, que antes promoviam um determinado culto da personalidade e distanciamento face ao seu público- alvo, vêem-se assim, obrigados a serem amigos no Myspace  ou como fizeram recentemente os Radiohead com o seu último trabalho de originais – a distribuírem gratuitamente as composições debaixo do argumento da inovação como estratégia de divulgação. As salas de cinema, encaradas anteriormente como pretexto para alguma sociabilização, esvaziam. Fenómeno a que não é alheia a concentração de filmes em grandes superfícies. Contudo, lança-se a questão: o cinema? Ou mero shopping? São inúmeras as salas de projecção tradicionais que têm vindo a encerrar nos últimos anos. A net aqui ao lado: o download em vinte minutos; as legendas em português do Brasil; o desvio na coluna; os problemas oculares; a solidão. Mas de forma gratuita. A multinacional do aluguer Blockbustar começou já a antever um provável risco de falência. Uma empresa de consultadoria foi contratada para a eventualidade. Em diversos sectores culturais existe uma preferência pelo isolamento, através da gratuitidade, em detrimento da convivência e da qualidade. Característica que afecta, também, a informação e o conhecimento. Limitados a um formato empobrecedor.

 

Lança-se, por tudo isto, um atrevimento: se existe uma geração – descontando a óbvia generalização – que está, de determinada forma, alheada e abstraída num certo autismo existencial, tuiterizada e intolerante perante o mundo real e com uma ligeira inclinação para o narcisismo e o individualismo, que tipo de governantes enfrentará uma humanidade futura? A questão do défice de concentração e da promoção de um autismo por uma sociedade intoxicada pelo excesso de entretenimento tem já sido problematizada por alguns psicólogos embora, como é usual, uma facção mais radical dos militantes da neurologia defenda como explicação a origem genética. De qualquer forma, neste caso, parece-me faltar substância. Alguns neurologistas pecam por demasiada necessidade de simplificação psicológica, parecem desejar fechar o tema rapidamente e não continuar o debate. Existirá o gene do “medo da especulação”? A dopamina explica demasiadas coisas.

 

Haverá, no futuro, uma maior tendência para a imposição e para o ditatorial como reflexo de uma sociedade de um menor esforço baseada no excesso de recompensas e de alguma revolução no tipo de família actual? A confirmar-se, como conjugar este caminho com o decréscimo de qualidade jornalística e consequente falta de atenção face ao poder? O sistema educativo, parental e estatal, a par da modernidade, desresponsabiliza-se. Aumentam os casos de pais que utilizam, como bode expiatório, o sistema de ensino para se poderem considerar, a eles próprios, bons educadores. E aquele, em nome da estatística, facilita a aprendizagem. O que contribui para uma espécie de culta fachada europeia. A ministra da educação ignora, assim, o debate que se desenvolve actualmente nesta área. Pelos vistos, para já, apenas nas livrarias. Também ela será adepta da neurologia. Um exemplo: “Da criança rei à criança tirana” de Didier Pleux (Sinais de Fogo, 2005).

 

Não é só por aqui. Há quem bata mais no fundo: no Reino Unido está a ser preparado um programa de alteração escolar que prevê que os alunos das escolas primárias britânicas irão aprender – como se não o fizessem já em casa – a dominar ferramentas Web como blogues, podcasts, a wikipédia ou o twitter (?) em detrimento do ensino de períodos históricos como a época vitoriana ou a segunda guerra mundial (?). Rasgo de génio. Rasgo político.

 

É esta a nata. Resta esperar por aquela que a sucederá.

 

 

Afonso Pimenta

 

 

Depois do NY Times, o The Guardian lança API

Posted in Notícias by nuno miranda ribeiro on 26 de Março de 2009
The Guardian Open Platform (imagem oficial)

The Guardian Open Platform (imagem oficial)

Primeiro foi o New York Times. Dia 14 de Outubro de 2008, o histórico jornal americano lançava a Times Developer Network. Nesta página ficou disponível documentação, lista de FAQ’s, uma galeria de aplicações já desenvolvidas e um formulário para se pedir uma API key. API (Aplication Programming Interface) é, segundo a Wikipedia, “um conjunto de rotinas e padrões estabelecidos por um software para a utilização das suas funcionalidades por programas aplicativos — isto é: programas que não querem envolver-se em detalhes da implementação do software, mas apenas usar seus serviços.” Um exemplo de uma aplicação popular que recorre a um API, é o TweetDeck, que nos permite gerir a nossa conta no Twitter, sem ter de ir à página deste, fazendo todas as operações habituais numa aplicação desenvolvida no Adobe® AIR™.

Um jornal que tenha uma API está a disponibilizar aos programadores a possibilidade de desenvolverem aplicações que usam e reorganizam o conteúdo do jornal. Assim, cada programador pode, segundo os termos de uso definidos, filtrar, difundir, estruturar o conteúdo que o jornal disponibiliza desta forma. Para terem uma ideia do que isto é, podem experimentar uma das aplicações já disponíveis a partir da API do NY Times.

Esta parece ser uma estratégia adoptada no intuito de contrariar as quedas nas vendas do jornal impresso e responder ao vazio de alternativas realmente sustentáveis ao actual modelo de negócio. O The Guardian seguiu o exemplo (e está aberto o caminho para que mais publicações experimentem esta solução).

À semelhança do que acontece na “Times Developer Network”, a página da “The guardian Open Plattform” permite aos programadores fazer o pedido de uma API key, gerir as aplicações criadas, acompanhar as actualizações para cada linguagem de programação.

São boas notícias, principalmente para quem desenvolve e está sempre ávido de criar novos usos e reciclagens da informação veiculada na web. Mas não é a solução para o problema de financiamento, nem chega a ser um balão de oxigénio para a crise de caractér global que ameaça o jornalismo. É antes um passo óbvio e previsível, nesta era dos Widgets e do Yahoo Pipes, em que esperamos que o conteúdo assuma a forma que escolhemos, e (como alertou o Afonso) nos distanciamos cada vez mais do livro de estilo e dos editores. Queremos ser nós os editores, queremos que tudo seja personalizável. Se quanto à forma não parece haver falta de alternativas (embora exista a ameaça de extinção da forma impressa), quanto ao conteúdo – e só o uso da palavra conteúdo, para designar peças jornalísticas, tem que se lhe diga –  é que nos devemos preocupar seriamente.

Colunista menoriza conclusões de “gurus” da internet sobre jornalismo tradicional

Posted in Notícias by Afonso Duarte Pimenta on 24 de Março de 2009
Mark Morford, foto retirada da galeria de Steve Rhodes

Mark Morford, foto retirada da galeria de Steve Rhodes

Mark Morford, colunista, analisa em “Die, Newspaper, die?”, publicado a 20 de Março no San Francisco Chronicle, a perspectiva e as soluções propostas por Clay Shirky, consultor para os efeitos sócio- económicos das tecnologias de informação, Steven P. Johnson, um dos pioneiros do formato webzine e por Dave Winer, programador, para a actual crise publicitária e jornalistica da imprensa internacional. Para chegar a uma conclusão: a inexistência de alternativas crediveis numa perspectiva profissional. Antes um descentramento baseado em algum alheamento e fascínio ao olhar para o suporte; demagogia na importância atribuída ao jornalista doméstico: na procura e concepção. Simplificando: o estilhaçar de um livro de estilo. No contexto norte- americano, ideologia de oposição às corporações que sustentam a comunicação social: hipérbole; reflexo de um eterno receio de ingerência na vida privada. Paranóia política. Que ilude a importância da informação.

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