O Papel das Notícias

O Público Está “Morto”

Posted in Crónicas, internet, jornalismo by Afonso Duarte Pimenta on 19 de Outubro de 2012

Senão: está a caminho de morrer. Espero que me perdoem o empréstimo nietzschiano – o que, nesta altura, pouca diferença fará: estamos em época de entronização do plágio em nome “colectivo” -: mas também somos nós, os indiferentes, que o estamos a matar. 48 é o número de trabalhadores “dispensados”.

Print is Dead: este slogan, continuamente repetido para que se venha a  tornar, definitivamente, realidade, resulta de uma constatação? Ou, pelo contrário, de um desejo? De uma vontade de superação, de destruição, daquilo que se resolveu catalogar como “tradicional” (desculpemos. Mesmo que mal esgalhada: foi necessário encontrar uma narrativa para um outro comércio; para a “revolução”) ? De uma necessidade, ansiosa, de fuga e, por isto, de renovação?

Digital Is The Future: propaganda que se generalizou desde o advento da internet. Monótona; cansativa; pouco criativa: não há marketeer que lhe resista. E, para lá das monetárias, que se aperceba das razões profundas dessa inquietação. De tão aproveitada: converteu-se em verdade presente. Continuamos, contudo, a ver, ainda, bastante papel. Ali: onde a informação, de qualidade, está visível. Não diluída. Não parece que nos afecte. Mas, se acontecer, conseguiremos ser, um pouco mais, tolerantes?  Menos apressados? Mais integrados e ambivalentes? Não esqueci: é- nos conveniente. Podemos, desta forma, olhar para o lado. Não gastamos dinheiro. ”Estamos em época de crise”. De disseminação e desvalorização das receitas publicitárias – senhores: por isto mesmo -.  Além, claro, do “direito à informação”.

Porém: quantas vezes nos lembramos e quantas vezes esquecemos, o que é ligeiramente distinto, que de nada vale o “direito” a essa informação se ela estiver, também por nós, empobrecida? Que necessita, urgentemente, de financiamento para que nos “devolva” a democracia?

Em Portugal, ao contrário de países como França ou Espanha – mesmo que insuficiente -, não existiu discussão sobre o assunto. Quase que não foram organizados debates, programas de rádio ou de televisão. Sobre o que está a suceder ao jornalismo. Para além da frase feita. Do artigo de “opinião” do “guru da comunicação”. Em nome das pageviews: tiveram medo de nos ofender. Como se fossemos crianças amedrontadas. Com a possibilidade de perdermos a quota habitual de escapismo e entretenimento. Sem nunca darmos, absolutamente nada, em troca. Será que somos?

Existe, contudo, um obstáculo: esta tentativa de sacralização´- com todas as suas coordenadas; toda uma moral orientadora – de um império que se resolveu denominar como “digital”. Como se não houvesse nada, para além dele – como o temos agora -, que merecesse ser pensado ou avaliado. É esta certeza absoluta – este engano – que precisa de ser demolido. Questionado. Não para ser eliminado. Tarefa absurda e impossível. Mas para que seja alterado. Em direcção a uma cultura que não seja, apenas, a da valorização do sound- byte. Do curto prazo. Da irresponsabilidade pessoal. Para que se concretizem, um pouco melhor, os outros dois anúncios. Para que não se satisfaçam pelo facto de permanecerem em estado de utopia: “a sociedade do conhecimento” e – esse mesmo ! -: o “espírito de colaboração”.

Afonso Duarte Pimenta

Cumplicidade: entre online e papel, entre jornalistas e leitores

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 28 de Julho de 2010

Nuno Miranda Ribeiro

Já aqui o disse, não há nenhum motivo para que o online e o papel  sejam concorrentes ou adversários. Pelo contrário, estão reunidos todos os elementos necessários para que sejam complementares. Sou crítico de uma parte dos motivos para o recurso ao chamado “jornalismo de cidadão”, mas isso também não significa que  desconfie de tudo o que é produzido pelos cidadãos, muito menos desta forma de trabalhar voluntariamente, em regime colaborativo, que está na génese de projectos como a Wikipedia, o WikiLeaks e de inúmeras aplicações open source, como o Linux e de produtos como o Firefox e o Gimp.

O mundo não é o mesmo de quando os jornais eram a principal fonte de informação sobre os acontecimentos e a realidade. Os cidadãos já não são meros receptores, assimilando a informação de forma directa e passiva, como descrito na Teoria da Agulha Hipodérmica. Mesmo as perguntas feitas no modelo de Lasswell já não são suficientes para se poder compreender como a informação é produzida, difundida, recebida e retransmitida. Há uma noção de que cada pessoa é, por si só, um produtor de informação. Existe nessa ideia simplista algum excesso de optimismo que deturpa, ou pelo menos amputa a realidade. Talvez seja útil usar uma analogia das tecnologias de comunicação.

Dentro de recintos de grande dimensão, como os centros comerciais, existem inúmeras pequenas antenas, conhecidas, entre outras designações, como reflectores, e que têm por função precisamente reflectir o sinal das antenas maiores, localizadas no exterior, para que os utilizadores dos recintos tenham rede de telemóvel. A ideia de que cada cidadão é um produtor de informação parece implicar que cada pessoa seria uma redacção (digamos, uma redacção de uma rádio), produzindo o seu conteúdo e difundindo-o. Ora, estou convencido de que cada um de nós é como uma dessas pequenas antenas reflectoras, que servem para reflectir o sinal, dentro de determinado contexto e com alcance razoavelmente limitado. Não quero insinuar que a nossa capacidade de “reflectir” a informação que captámos é menosprezável. Pelo contrário,  é potencialmente muito poderosa esta capacidade de inúmeras antenas formarem uma rede ampla, de “contaminação” rápida e eficaz. Prova-o a propagação viral de memes, de todo o tipo de vídeos e textos, que alguém concebeu e que os utilizadores da internet em todo o mundo retransmitem com enorme rapidez.

O que pretendo dizer com o recurso a esta analogia é que a eficácia da retransmissão da informação (aliada a uma crescente e exponencial desvalorização da autoria) nos dá uma falsa sensação de poder. Falsa, não porque o poder não exista, mas porque pensamos que o poder está onde não está, verdadeiramente. Ser reflector, com imensa capacidade de propagar informação (quando e se  aliado a um número considerável de outros reflectores), é ser parte de uma rede de retransmissão, não é ser produtor da informação. Existe, creio, uma dificuldade de auto-contextualização. Acredito que a maior parte da informação credível e fundamentada que circula continua sobretudo a ser produzida pelos jornalistas, mesmo se depois é retransmitida nas redes sociais, dissipando-se a autoria e a proveniência, havendo mesmo deturpações e omissões em relação à informação original.

No entanto, muitos cidadãos de todo o mundo, de facto produzem e ajudam a partilhar informação, como demonstra o exemplo óbvio da Wikipedia e o recentemente noticiado caso do WikiLeaks. Mais dentro do contexto a que me refiro, vários jornais estimulam o envio de textos “mais ou menos jornalísticos” por parte dos leitores e publicam-nos. No Editors Weblog, é analisado o caso do Jornal Brasileiro Zero Hora. Este jornal, com uma penetração de 78% na faixa etária dos 20 aos 29 anos e de 71% dos 15 aos 19 anos, publica conteúdo enviado pelos leitores. O aumento de 2% da circulação do jornal impresso em 2009 é um sinal de que as estratégias adoptadas estão a dar bons resultados. Desengane-se quem pense que receber textos e imagens dos leitores é uma forma de o Zero Hora compensar o fraco investimento nos meios humanos, como é comum acontecer noutros jornais. O jornal brasileiro tem uma redacção de 210 jornalistas,  integrando equipas especializadas na versão online e na versão impressa, que procuram trabalhar de forma integrada.

É frequente encontrar, em jornais que já existiam muito antes de começarem os jornais online, um padrão de evolução que é diferente do caso do Zero Hora, ou, pelo menos, a evolução do Zero Hora levou-o a uma situação actual diferente do mais comum. Muitos jornais abriram o site, inicialmente com pouca informação, para se projectarem como jornais modernos, que não perdem o comboio. Era, como antes acontecia com a maior parte dos sites institucionais, uma forma de afirmarem a presença online, mesmo se o site não oferecia mais do que um rosto dessa presença na web. Gradualmente, o contéudo da versão impressa foi passando para a versão online. Por esta altura já era comum haver “notícias de última hora”, ou pelo menos algumas notícias breves que iam sendo publicadas online ao longo do dia. A partir de certa altura começaram a popularizar-se os feeds e os jornais adoptaram-nos. Primeiramente, criando apenas um ou dois feeds, agregando todas as notícias no mesmo feed, ou separando-as num feed de notícias de última hora e noutro feed com as notícias principais. Rapidamente, começaram a segmentar os feeds, passando a haver um feed para notícias de economia, outro para notícias de política, outro para desporto, outro para sociedade e assim por diante. Vários jornais melhoraram a busca de notícias no site, proporcionando na sua página web uma forma muito prática de consultar edições passadas. Alguns jornais de maior dimensão e capacidade de investimento, transferiram mesmo todas as edições passadas para um arquivo online. Nesta altura, era já frequente encontrar avisos do género “conteúdo premium, para aceder, por favor registe-se”, já que algumas ferramentas, como a busca dentro do arquivo, passaram a ser pagas. Uns jornais foram mais longe do que outros, na transição para os serviços pagos. Alguns jornais acharam que os artigos de opinião seriam mais valorizados e tornaram-nos conteúdos pagos, outros jornais acharam que o que os leitores valorizariam mais, ao ponto de aceitarem pagar, seriam funcionalidades, como a busca avançada (por exemplo, fazer pesquisas no arquivo inteiro do jornal). Chegados ao presente, mesmo alguns dos jornais que sempre mantiveram a sua edição online inteiramente gratuita, passaram a cobrar alguns conteúdos e funcionalidades ou estão a ponderar fazê-lo.

Segundo o artigo, a edição online do Zero Hora dedica-se sobretudo às notícias de última hora e ao multimédia, como é comum com outros jornais. A opção que os distingue é que no site são publicados “teasers”, chamando a atenção para a reportagem de fundo que será publicada na versão impressa no dia seguinte. Altair Nobre, o editor do Zero Hora, disse ao Editors Weblog que não faz sentido esconder conteúdo da edição online, porque isso afecta o impacto que a informação poderia ter. De facto, o que acontece é que as notícias, os artigos de fundo, têm prioridade na versão impressa, sendo nesta publicados primeiro; mas, mais tarde, durante o dia, passam também a estar publicadas na versão online. Neste caso específico, os leitores não parecem sucumbir à filosofia, “se está ou vai estar disponível online, não vale a pena comprar o jornal impresso”. Pelo contrário, o online tem ajudado à venda do jornal impresso. Nada de muito dramático, nenhuma tecnologia de ponta, nenhuma invenção espectacular foram usadas. Simplesmente se procurou promover o jornal impresso como o local de destaque e eleição para o aprofundamento das notícias. E os leitores, que no caso deste jornal, são sobretudo leitores jovens, aderiram. Talvez não sejam universalmente aplicáveis as estratégias do Zero Hora. Mas parece-me inspirador que um jornal cujo público alvo é o público jovem consiga valorizar a versão impressa, que, sendo paga, ajuda também a pagar a versão online.

O envolvimento dos leitores é valorizado por este jornal brasileiro, sendo mais substancial, parece-me, do que noutros jornais que também o procuram alcançar. Além das imagens e textos de leitores que são publicados, há o caso de um jornalista que publica vídeos na sexta-feira sobre a história que será publicada no sábado no jornal impresso, criando mais proximidade com os leitores e envolvendo-os mesmo antes da publicação de facto.  Mas não existe propriamente um deslumbramento com o caudal de informação propagada pelos cidadãos. Diz Nobre que os jornalistas do Zero Hora usam as redes sociais para acompanhar aquilo de que as pessoas estão a falar, mas avisa que esses meios podem ser uma boa fonte de notícias mas também uma armadilha. Além disso os jornalistas com contas em redes como o Twitter são aconselhados a ter cuidado com o que publicam nesses meios, para que não ponham em causa a sua credibilidade enquanto profissionais. O relativo sucesso do Zero Hora deve inspirar-nos. Sem ter descoberto uma fórmula milagrosa, antes usando integradamente estratégias que já existiam, consegue ter sucesso simultaneamente com a versão online e a versão impressa. Uma sustenta a outra e as duas prosperam – não será isto aquilo a que a maior parte dos jornais aspira?

Suplemento de Outono

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 12 de Setembro de 2009

 

Cheira-nos a outono e é isto. Recomeçamos a dar aquilo que existe de mais maduro em nós. Permitam-me iniciar já com um desplante. Se o virtual não glorifica a densidade correremos em sentido contrário. Se recusamos uma certa tuiterização não é porque a renegamos. Precisávamos, para isso, ter-lhe dado verdadeira existência. Acusam-nos de não vermos o futuro”. Evitamos desfocar os olhos. Temo-los bem fixos no presente.
 
Para os que não têm ouvidos há que o clarificar: não somos, nunca fomos, contra a internet. Há que transpor o radicalismo da metáfora. Por isso uso, tantas vezes, o itálico. Há uma distância que separa o MFJEP da realidade. Não pretendemos impor nem inverter o mundo. Iremos, brevemente, dar passadas mais largas e ultrapassar o formato escrito. Mas este é um projecto, acima de tudo, de interpretação. Existe uma base comum em torno de um ideal. Mas não existem argumentos aproximados, para a sua defesa, em nenhum dos intervenientes. Deixemos, pois, a moralidade para o leitor.
 
Lemos jornalismo digital. Mas não acreditamos na gratuitidade sem um modelo, a par,  financiado e baseado na noção de responsabilidade pessoal. Que o suporte. Não pretendemos convencer mais que dois ou três. Eis, para nós, um triunfo. Somos, se calhar, uns elitistas. E, exactamente por isso, queremos continuar a provar, dentro de momentos, a nossa inutilidade.
 
Afonso Pimenta

O Terror da Opinião/Relativismo Nacional

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 8 de Junho de 2009
Fotografia retirada de www.lhwe.org

Fotografia retirada de http://www.lhwe.org

Tendência estrutural, em Portugal, chama-se: desresponsabilização; culpabilização externa. Astutamente polida com retórica democrática. A nomeação de um líder recai – outra vez, outra vez – em figura dissimulada, indefinida, desorientada, paroquial. Descansa. Com um dedo no passado e outro na fronteira. Assim como nós – prolongando, assim, a lamentação – o faremos. Com o nosso.

Não é raro o fenómeno de projecção. Passam vários anos desde a desmoralização do Reality Show. Em primeiro Big Brother, Zé Maria, personagem fugidia, assistia – de sorriso contínuo – à sua elevação a símbolo nacional. E, com contornos clericais, pontuava sentenças de superior agressividade com um amaciador: “mas no bom sentido”. Até hoje não se chegou a perceber quem é. Nem ele. Para aumentar a fasquia de identificação: o premiado de uma segunda edição era padre assumido. No ano de 2005 – e depois de ter assistido ao vácuo discursivo inaugural de José Sócrates – entendi: também eu tinha votado em Zé Maria.

A eleição contamina qualquer quadrante. A definição é arrumada através de uma espécie peculiar de psicologia de pacotilha chantagista popular: ter opinião é sinónimo de frustração”. Não são raros os exemplos em que a pseudo- interpretação generalizadora, a nível nacional, é utilizada como carimbo de desvalorização. Instrumento moral a favor de um silêncio abstencionista colectivo. Como também a cor política é objecto de arremesso. A posição vincada é, como defesa, atirada para a armadilha partidária. Valorizando a neblina; um bloco central. A indecisão promovida a “sensatez”. Filha perversa de um estado novo que teimamos em acreditar que repudiamos. E virtude unificadora para a irresponsabilidade civil. Relativismo português necessita de condição prévia: almofadar a realidade. O terror do radicalismo, aqui, é subserviência. Procura a todo o custo o olhar certo. E, nesse processo, passa a ser falso. Sem crítica, auto- critica ou tolerância à critica não haverá entendimento que nos salve. O que se discute – quando se discute – é feito, em comunhão, já às portas do abismo. E, apenas, se não for censurável.

Exceptuando o caso isolado, fora de sitio, redacções e orgãos televisivos não escapam a um marchar: o artigo de opinião tem cartão partidário, institucional e empresarial. A liderança está na mesa redonda. O olhar – à distância – do psicólogo, historiador, sociólogo ou filósofo é evitado.

 O debate desenvolvido em torno de um novo modelo de negócio jornalístico parece ignorar, em larga escala, a sedução do leitor relativamente à importância determinante da opinião e da investigação na defesa do regime democrático. A gratuitidade cultural manipula o discurso em direcção ao formato. Toda uma demagogia digital que utiliza o direito do consumidor, uma noção ilusória de intervenção individual e o ódio à instituição – como se as empresas que os promovem não o fossem –  como argumentos mobilizadores. E externos ao próprio jornalismo.

 Tão peculiar oposição abre caminho à caça ao voto. Qualquer ideia é preterida a favor da propaganda. Culparemos, mais tarde, a política. Que foi aquilo que desejamos que fosse. Sempre de pedra na mão não há espelho que resista. Apontei-vos o dedo. Mas no bom sentido. Outra vez.

 

Afonso Pimenta

Jornalismo: Urgência e irresponsabilidade

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 2 de Maio de 2009
AP Photo/Alexandre Meneghini

AP Photo/Alexandre Meneghini

Toda esta urgência e impulso colectivo para a postagem e publicação, como se o propósito fosse a forma e a chamada de atenção, aprofunda, um pouco mais, a distância que separa estrelato de jornalismo de investigação. Com dois passos atrás e melhor respiração, há que: pensar primeiro. Noticiar depois. Para controlar o medo. Informar melhor.

E urgente, nesse sentido, é o artigo de Carlos Castilho, em Código Aberto, sobre jornalismo, responsabilidade e o folhetim actual: a gripe H1N1.

Washington Times – uma página por dia para o jornalismo de cidadão

Posted in Notícias by nuno miranda ribeiro on 15 de Abril de 2009

"Times Newspaper Puzzle

"Times Newspaper Puzzle" (imagem obtida aqui: http://is.gd/syGw)

Segundo a Wikipedia, Jornalismo Cidadão, ou Jornalismo Colaborativo, Jornalismo Open Source ou ainda Jornalismo Participativo é uma idéia de jornalismo na qual o conteúdo (texto + imagem + som + vídeo) é produzido por cidadãos sem formação jornalística, em colaboração com jornalistas profissionais. Esta prática se caracteriza pela maior liberdade na produção e veiculação de notícias, já que não exige formação específica em jornalismo para os indivíduos que a executam.

O Washington Times (WT) decidiu dedicar uma página por dia, na versão impressa, ao jornalismo produzido por cidadãos. Às segundas, histórias sobre o mundo académico; às terças, o destaque é para os subúrbios de Maryland e Virginia; as quartas são dedicadas ao distrito de Columbia; as quintas focam as bases militares locais; às sextas é a vez das comunidades religiosas e aos domingos as obras de caridade e o serviço público. (a notícia não refere o sábado).

É já na próxima segunda-feira, dia 20, que é publicada a primeira página de jornalismo colaborativo, no contexto desta iniciativa. Citado no artigo acima linkado, Jonh Solomon, editor executivo do WT, afirma: “sabemos que existem muitos assuntos e comunidades que não temos sido capazes de cobrir totalmente dentro dos limites do orçamento de uma redacção, e estamos entusiasmados por capacitar cidadãos dessas comunidades para nos fornecerem notícias que interessarão aos nossos leitores.” Ainda segundo Solomon, “ao mesmo tempo que expandimos o nosso alcance através deste projecto, não estamos a diminuir a nossa qualidade editorial. As histórias dos cidadãos têm de obedecer aos mesmos padrões rigorosos de precisão, razoabilidade, equilíbrio e ética (accuracy, precision, fairness, balance and ethics, no original) que as que são escritas pelo pessoal que trabalha na redacção.” Pode ler-se na notícia do WT que cada cidadão jornalista receberá um conjunto de regras para a escrita jornalística bem como cópias do regulamento oficial do jornal nas questões relacionadas com ética, fontes anónimas e outros padrões jornalísticos.

É interessante verificar que esta opção editorial traz para a versão impressa do jornal o que seria muito mais fácil, simples e menos arriscado de fazer na versão online. Uma página de jornal tem um estatuto especial. Abrir  espaço no site a artigos dos leitores é uma coisa. Dedicar uma página impressa a textos produzidos pelos cidadãos é outra coisa. Um sinal a que não podemos ficar indiferentes. O que chama a atenção não é tanto, ou não é apenas, a decisão de chamar os cidadãos a produzir histórias de qualidade e estilo jornalísticos. Há bastantes experiências, talvez mais informais, menos rigorosas e com visibilidade mais limitada, a decorrer nas versões online. O que realmente é marcante é a opção de trazer para a versão impressa esta experiência.

Crise, jornalismo e ambiente: uma ironia

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 6 de Abril de 2009

Robert Cox, sociólogo, é um optimista. Com preocupações.  O ex- presidente do Sierra Club – a maior organização ambientalista norte-americana – esteve recentemente  em Portugal como convidado da Fundação Calouste Gulbenkian,  da Agência Europeia do Ambiente e do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Onde participou na conferência “Os media e o ambiente: entre a complexidade e a urgência“. Segundo a edição do passado dia três de abril do jornal Público , uma das questões centrais em Cox é a falta de interesse relativamente a temas de cariz ambiental, por parte das populações, em época de crise. Financeira ou militar. Problema que se adensa em tempo de reestruturação – para avolumar os eufemismos; termo nosso –   jornalística.

Lança-se uma ironia: ao ler-se o artigo, não deixa de ser digno de atenção o facto de o ambiente – tão ligado a uma economia de longo prazo – ser esquecido em época de balanço. Mas de primeira linha – até há pouco tempo, também empresarial – quando nos entretemos a destruí-lo: mais afincadamente.

Tirania e Comunicação

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 29 de Março de 2009

                                          

Foto retirada do Wiseupjournal (http://www.wiseupjournal.com/)

Foto retirada do Wiseupjournal (http://www.wiseupjournal.com/)

 

Perdoe-me Ignacio Ramonet. Se existe uma “Tirania da Comunicação“, poderá ela existir sem informação? Ou ainda, mais objectivamente, para além do controlo, moralização e vigilância a que esta última, necessariamente, conduz? Até onde teria ido – e mesmo assim… – George W. Bush  – o homem  que mais sentenças de morte assinou enquanto governador do Texas; facto esquecido – como presidente dos Estados Unidos da América sem um financiado e eficaz sistema da comunicação social? O instinto perdura, inalterado, na raça humana. Enfeitado, apenas, pela palavra, justiça ou moral social que, de resto, é modificável. Houve quem dissesse que a sociedade corrompe o homem apesar de “infinitamente bom”. Outros contestam e perguntam se não passará a vida a tentar provar que o é.

 

A crescente diminuição na venda de publicações em papel cujo foco se direcciona, ainda, para o conteúdo e para um público antigo que “percebe”, objectivamente ou não, o propósito do jornalismo como denúncia, a contaminação social pela noção de entretenimento ou a valorização abusiva das plataformas digitais como veículos de transmissão de conhecimento transferem a eficácia da investigação para um princípio de rapidez e formatação que ultrapassa – e desvirtua – a importância da coesão social baseada na observação. Que apenas um meio de comunicação pago e generalista – e mesmo assim condenado a uma série de factores politico- económicos, consegue. Como se uma inovação, só por o ser, fosse sinónimo de modernidade. Como se um jornal digital, por ser actual, fosse eficaz. Como se o futuro não fosse o passado de outra coisa qualquer. Como se no presente não existisse uma constância qualitativa, transmissível, independente da matéria. Como se a tecnologia, apenas por se apresentar como tal, fortalecesse uma perspectiva sobre a realidade. Como se “andar para a frente”, o futuro e o fugir fossem essenciais. São. Mas não implicam esquecer o passado. E não deixam de vaguear, por aí, profetas carregados de interesses monetários e industriais a acelerar a transição. Somos, por isso, olhados de soslaio: escravos do Twitter.

 

Se, como refere Nuno Miranda Ribeiro em A nostalgia do papel” no blogue do MFJEP (Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago), a geração que se encontra agora na casa dos 30 anos é motor e vítima de uma metamorfose entre a tradição e o digital, também ela poderá ser, para além da constatação de uma inevitabilidade, promotora de uma comunhão; unificação para o essencial. E a rapidez, aqui, desce para um degrau inferior. O “tempo real”, a actualização constante, a “Breaking News” e a interactividade é cada vez menos, informação. É que, a partir deste momento, mais rápidos, só se soubermos o que vai acontecer antecipadamente.

 

O discurso, excessivamente direccionado para o mercado, afasta-se das pessoas. Procura-se o formato – uma série deles se seguirá – e esquece-se o ponto central: para que serviu – e serve – o jornalismo. Não se trata aqui de ignorar a dinâmica social mas de a complementar. Para além do mais – assim como o meu parecer – os movimentos não carecem de subjectividade. Já diversas experiências – falhadas – se fizeram em nome da salvação do jornalismo. Como alguma semi- tabloidização de veículos de referência – e perda de importância anteriormente conferida a secções de opinião – que acabou por afastar leitores mais exigentes.

 

O “Financial Times anunciou recentemente um novo método de trabalho como forma de integrar o papel e o formato em linha dando especial relevância a este último. Como sempre, o “alarme” está no detalhe. A noção de “right first time” levanta algumas interrogações. O objectivo é o de refinar e simplificar o processo de produção. Observemos esta directiva: “Isto (controlo de qualidade) é importante para o conteúdo on- line mas também o é para o formato em papel”. O digital passou para primeiro plano. Não só a exigência do consumidor se impõe como as próprias redacções a parecem incentivar.

 

José Manuel Fernandes, director do “Público”, anunciou também há dias uma mudança estrutural: “a internet é o futuro”. Não é. A internet é o presente. O futuro passa por uma consciencialização relativamente ao papel – e não necessariamente “em papel” – da investigação jornalística como um dos alicerces essenciais para a manutenção e revitalização de um regime democrático – numa esplanada ou num e- journal – por parte de entidades civis e governamentais.

 

A “sociedade de filhos únicos”, radicalização de fenómenos anteriores, intolerante face à frustração, cuja publicidade lhe é quase exclusivamente direccionada e que tem no prazer o seu leitmotiv, reflexo e imposição de direitos das crianças”, há já muito que se desabituou – ou nunca o sentiu – de financiar a cultura ou a valorizar o esforço que a sustenta. Agrupamentos musicais, que antes promoviam um determinado culto da personalidade e distanciamento face ao seu público- alvo, vêem-se assim, obrigados a serem amigos no Myspace  ou como fizeram recentemente os Radiohead com o seu último trabalho de originais – a distribuírem gratuitamente as composições debaixo do argumento da inovação como estratégia de divulgação. As salas de cinema, encaradas anteriormente como pretexto para alguma sociabilização, esvaziam. Fenómeno a que não é alheia a concentração de filmes em grandes superfícies. Contudo, lança-se a questão: o cinema? Ou mero shopping? São inúmeras as salas de projecção tradicionais que têm vindo a encerrar nos últimos anos. A net aqui ao lado: o download em vinte minutos; as legendas em português do Brasil; o desvio na coluna; os problemas oculares; a solidão. Mas de forma gratuita. A multinacional do aluguer Blockbustar começou já a antever um provável risco de falência. Uma empresa de consultadoria foi contratada para a eventualidade. Em diversos sectores culturais existe uma preferência pelo isolamento, através da gratuitidade, em detrimento da convivência e da qualidade. Característica que afecta, também, a informação e o conhecimento. Limitados a um formato empobrecedor.

 

Lança-se, por tudo isto, um atrevimento: se existe uma geração – descontando a óbvia generalização – que está, de determinada forma, alheada e abstraída num certo autismo existencial, tuiterizada e intolerante perante o mundo real e com uma ligeira inclinação para o narcisismo e o individualismo, que tipo de governantes enfrentará uma humanidade futura? A questão do défice de concentração e da promoção de um autismo por uma sociedade intoxicada pelo excesso de entretenimento tem já sido problematizada por alguns psicólogos embora, como é usual, uma facção mais radical dos militantes da neurologia defenda como explicação a origem genética. De qualquer forma, neste caso, parece-me faltar substância. Alguns neurologistas pecam por demasiada necessidade de simplificação psicológica, parecem desejar fechar o tema rapidamente e não continuar o debate. Existirá o gene do “medo da especulação”? A dopamina explica demasiadas coisas.

 

Haverá, no futuro, uma maior tendência para a imposição e para o ditatorial como reflexo de uma sociedade de um menor esforço baseada no excesso de recompensas e de alguma revolução no tipo de família actual? A confirmar-se, como conjugar este caminho com o decréscimo de qualidade jornalística e consequente falta de atenção face ao poder? O sistema educativo, parental e estatal, a par da modernidade, desresponsabiliza-se. Aumentam os casos de pais que utilizam, como bode expiatório, o sistema de ensino para se poderem considerar, a eles próprios, bons educadores. E aquele, em nome da estatística, facilita a aprendizagem. O que contribui para uma espécie de culta fachada europeia. A ministra da educação ignora, assim, o debate que se desenvolve actualmente nesta área. Pelos vistos, para já, apenas nas livrarias. Também ela será adepta da neurologia. Um exemplo: “Da criança rei à criança tirana” de Didier Pleux (Sinais de Fogo, 2005).

 

Não é só por aqui. Há quem bata mais no fundo: no Reino Unido está a ser preparado um programa de alteração escolar que prevê que os alunos das escolas primárias britânicas irão aprender – como se não o fizessem já em casa – a dominar ferramentas Web como blogues, podcasts, a wikipédia ou o twitter (?) em detrimento do ensino de períodos históricos como a época vitoriana ou a segunda guerra mundial (?). Rasgo de génio. Rasgo político.

 

É esta a nata. Resta esperar por aquela que a sucederá.

 

 

Afonso Pimenta

 

 

Colunista menoriza conclusões de “gurus” da internet sobre jornalismo tradicional

Posted in Notícias by Afonso Duarte Pimenta on 24 de Março de 2009
Mark Morford, foto retirada da galeria de Steve Rhodes

Mark Morford, foto retirada da galeria de Steve Rhodes

Mark Morford, colunista, analisa em “Die, Newspaper, die?”, publicado a 20 de Março no San Francisco Chronicle, a perspectiva e as soluções propostas por Clay Shirky, consultor para os efeitos sócio- económicos das tecnologias de informação, Steven P. Johnson, um dos pioneiros do formato webzine e por Dave Winer, programador, para a actual crise publicitária e jornalistica da imprensa internacional. Para chegar a uma conclusão: a inexistência de alternativas crediveis numa perspectiva profissional. Antes um descentramento baseado em algum alheamento e fascínio ao olhar para o suporte; demagogia na importância atribuída ao jornalista doméstico: na procura e concepção. Simplificando: o estilhaçar de um livro de estilo. No contexto norte- americano, ideologia de oposição às corporações que sustentam a comunicação social: hipérbole; reflexo de um eterno receio de ingerência na vida privada. Paranóia política. Que ilude a importância da informação.

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