O Papel das Notícias

Do Medo do “Elitismo”: Chantagem Cultural

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 3 de Outubro de 2009

Imagem retirada de http://www.ehow.com/

 Afonso Pimenta

Começou a guerra pela exposição. Embora a noção “jornalismo de cidadão”; apesar da justificação democrática: o twitter é, além de atalho, mais do que um passo na aniquilação da diferença. Apelidá-lo de “jornalismo”, apesar de instrumental, peca por abuso. Na ausência de um provedor. Na inexistência de um livro de estilo. Mesmo que utilizado, como exemplo, para relato, mais ou menos nebuloso, de manifestações de vigília e protesto como as que ocorreram no Irão. Ou para denúncia face à fraude eleitoral por parte do regime de Mahmoud Ahmadinejad. A não ser que “cidadão”, aqui, seja sinónimo de impreparação. Posto às claras.

Na recente aproximação cultural entre leitor e jornalista – audiófilo e compositor; aspirante e autor – um criador está, doravante, sujeito a inclinar-se – e a oferecer – em nome de um novo conceito libertário. Sob pena de ser  rejeitado. “Preserva, ainda, uma intimidade? O seu direito? Individualidade? Aponto-lhe um dedo. Anti- democrata!”. Contudo, como bom “comunismo”, será, ainda assim, consumido. Mesmo que mal digerido: será bem descartado. Com 140 caracteres.

O sonho, a projecção e a imaginação tomam a forma de uma amizade. Redutora de conteúdos. A megalomania, hoje incolor, era privacidade. Vontade de criação para algo maior. Agora é plural, de contacto, de partilha e, acima de tudo, acessível: nivelada. Em detrimento de um confronto: originalidade perigosa. Criar, na zona cinzenta, não é nada civilizado. É o medo do elitismo. Promovido, e utilizado, pela demagogia panfletária digital. Que usa o modelo de negócio, cada rede social, como instrumento para a ascenção ilusória individual. O cidadão, na ânsia de poder, é desviado. Para uma reorganização, apesar de dispersa culturalmente, mais concentrada economicamente. Dominam, subvertendo regras anteriormente – exteriormente – lógicas de propriedade pessoal, os gigantes da World Wide Web. E ganham. Por terem a base a seu lado. O resultado, por não permitir uma audácia, é, afinal, o esbatimento da vontade pessoal. E deriva, antes de mais, de uma sensação, difusa e oculta, de inveja social:

O gratuito é o instrumento de vingança contra a sociedade do espectáculo.

O marketing, na identificação do processo, tornou-o consciente. E, mais uma vez, potenciou a realidade em nome da publicidade. Em nome, na configuração actual, do “nicho de mercado” e do “brand yourself”. Contacto directo entre consumidor e produto. A exigência do indivíduo é a prioridade. Mesmo que se ponha em causa um valor. Se abra caminho ao favor. A obra secundariza-se. Ser-se criativo é fazer “marketing de aproximação”.

Sejamos claros: vislumbrar o essencial na sociedade do livre acesso torna-se, no meio dos escombros, uma tarefa. A consequente eliminação do desejo e vontade de criação – esforçada; demorada – conduz, a meu ver, a um movimento de atracção mútua através da qual a substância passa, definitivamente, para segundo plano. A agregação de quem se deseja ser aquele que deseja ser tem como objectivo, bem disfarçado por uma retórica, a ultrapassagem do segundo pelo primeiro. Nada de novo.

Olhando o jornalista, o músico ou o designer que se promovem, minuto a minuto, através da actualização, na ilusão propagandeada de tal ser necessário (acaba por ser, por um momento), só nos atrevemos a uma expressão: desespero. Links irreflectidos atrás de posts ignorados. Consideramos, se ainda fossemos suficientemente humanos para isso, o que se tornou dispensável. É verídico: estamos às apalpadelas. A fuga ao instinto através do gadget tecnológico. Está em curso a ligação neuronal pré- biónica planetária. E já acena, por aí, o Google Wave.

Apesar do extremo conseguido até agora foi ao Myspace que coube a inauguração da desmoralização do estatuto. Se Madonna era religião agora suplica. Que sejamos, na sua página, um amigo. O mistério e o mundo interior, arrancados à força, perderam valor moral. Esta  necessidade, de agradar, transforma- nos, consumidores, em parasitas. Exigimos gratuitidade. Deixamos, aos poucos, de conceber o seu contrário. Estamos demasiado perto. Ainda assim, perdidos num excesso, intitulamo-nos “democratas”. Útil virtude a favor da chantagem.

Os Radiohead, ao iniciarem o ciclo das ofertas conscientes de um álbum de originais, elevaram-se a símbolo de uma subserviência. Que contamina outros sectores culturais. Entre os quais o jornalismo. Relevante por representar um intuito concreto: manutenção do regime democrático. Este objectivo – mais ou menos evitado; mais ou menos esquecido – implica a aceitação social da especialização. Da importância de um financiamento responsável.

Mas a criança, hoje, é rei. Exige ser tratada por “tu”. Denunciamos, também aqui, um masoquismo. E constatamos: proliferam workshops, formações, espectáculos musicais, debates culturais, cineastas, jornalistas, “bienais”, exposições e instalações artísticas. E nunca foi tão vulgar o download. Mas gostaríamos de ver,  no meio do pântano, uma planta carnívora. Mas é o medo do elitismo. E, por certo: pouca vontade de sobrevivência.

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Destruir e Acreditar

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 1 de Julho de 2009
Fotografia por João de Medeiros

Fotografia por João de Medeiros

 

 João de Medeiros    

Interrompi a rotina diária ao ler a crónica do Afonso, “O Terror da Opinião/Relativismo Nacional”, agarrado por uma ideia gratificante de consciência. Dizem que a consciência é o primeiro passo para a correcção. Ou, se não quisermos entrar nos preconceitos de certo ou errado, bem e o mal, diria: o primeiro passo para mudarmos. Se o nosso mundo se encontra numa situação onde autores se vêem reduzidos ao desabafo, sob a forma de movimento de ruptura com as actuais ideias e valores praticados, encontro apenas refúgio naqueles que, perdidos na morte e passado, nos deixaram um legado premonitório. E é com grande contrariedade e grande paixão que me revejo nas palavras de Ayn Rand. No seu grande romance, “Atlas Shrugged”, onde exercita as noções e conceitos do seu “Objectivismo”, encontramos um enorme paralelismo com a realidade actual: é a história de um grupo de artistas, empresários, industriais e intelectuais que decide revoltar-se contra a crescente sociedade medíocre que os rodeia. Onde a competência é sancionada. Onde a sociedade implacavelmente persegue aqueles que defendem  a liberdade de trabalhar por mérito e lucro. Onde o sucesso monetário é visto como um inimigo social: talvez mesmo o mais perigoso. Revejo muito o destino de Mr.Rearden na cultura. E, quando digo cultura, incluo o jornalismo em Portugal. E passo a citar do original:

 – “You pose as a champion of freedom, but it’s only the freedom to make Money that you’re after.”

-“Yes, of course. Al I want is the freedom to make Money. Do you know what that freedom implies?”

-“Surely, Mr.Rearden, you wouldn’ t want your attitude to be misunderstood. You wouldn’t want to give support to the wide spread impression that you are a man devoid of social  conscience , who feels  no concern for the fellows and Works for nothing but His own profit.”

-“No. I do not want my attitude to be misunderstood. Ishallbeglad to state it for the record. I am in full agreement with the facts of everything said about me in the newspapers – with the facts, but not with the evaluation. I work for nothing but my own profit – wich I make by selling a product they need, to men who are willing and able to buy it. I do not produce it for their benefict at the expense of mine, and they do not buy it for my benefict at the expense of theirs; I do not sacrifice my interests to them nor do they sacrifice theirs to me; we deal as equals by mutual consent to mutual advantage – and I am proud of every penny that I have earned in this manner. (…) I shall answer all the questions you are affraid to ask me openly.

Do I wish to pay my workers more than their services are worth to me? I do not. Do I wish to sell my product for less than my customers are willing to pay me? I do not. Do I wish to sell it at a loss or give it away? I do not. If this is evil, do whatever you please about me, according to whatever standards youhold. These are mine. I am earning my own living, as every honest man must. I refuse to accept as guilt the fact that I am able to do itand to do it well. I refuse to accept as guilt the fact that I am able to do it better than most people the fact that my work is of greater value than the work of my neighbors and that more men are willing to pay me. I refuse to apologize for my ability (…) 1

A primeira reacção que tenho é aquela palavra que nos é tão estranhamente familiar sem sabermos porquê: igualdade. Equals: iguais nos meios de comunicação, nas relações pessoais e profissionais. Igualdade social. A segunda reacção prende-se de forma óbvia com a crónica do Afonso. Atitude, diria até carácter, que nos dias que correm incorpora um fugaz conceito de um passado onde era normal a confrontação de valores e consciencialização dos mesmos. Os Zé Marias – nada tenho contra este individuo sendo o uso desse nome apenas uma ilustração de um fenómeno social – que criaram esse novo vocabulário de clusters, indústrias e bloqueios criativos servem apenas os interesses dos mesmos que acusam Mr.Rearden neste pequeno excerto. Não foi por acaso que citei do original Ayn Rand. Fi-lo porque houve tempos em que “News – Noticias”, vulgo jornalismo, significou oferecer novas visões, pontos de vista, argumentos. Acima de tudo questionamento. Para criar. Não deveríamos submeter os nossos ideais ao conforto das massas. Nem deixar de estabelecer contacto com o público através de um processo de troca. Acima de tudo, deveríamos ter orgulho em defender na praça pública,de forma crua e transparente, aquilo que nos move, aquilo nos representa, aquilo em que acreditamos e aquilo que somos.  E infelizmente tivemos, com o fenómeno de abstenção nas eleições europeias, mais uma demonstração do perpétuo ciclo em que vivemos. Onde não há derrotados. Só vencedores. Onde não existe humildade nem bom senso. Onde na hora mais importante que temos numa democracia plena, os que nos representam não são o melhor que temos mas sim os que apareceram. Se vivêssemos num universo de Rand, há muito tempo que a massa competente teria desaparecido desta sociedade. E agora que tomo consciência disso não estamos tão distantes desse universo ao vermos gerações saírem deste Portugal que é tão nosso. O que será “Liberdade”? E o que serão “Valores”?

 1 inchapter IV “Atlas Shrugged” byAyn Rand

 

O Terror da Opinião/Relativismo Nacional

Posted in Crónicas by Afonso Duarte Pimenta on 8 de Junho de 2009
Fotografia retirada de www.lhwe.org

Fotografia retirada de http://www.lhwe.org

Tendência estrutural, em Portugal, chama-se: desresponsabilização; culpabilização externa. Astutamente polida com retórica democrática. A nomeação de um líder recai – outra vez, outra vez – em figura dissimulada, indefinida, desorientada, paroquial. Descansa. Com um dedo no passado e outro na fronteira. Assim como nós – prolongando, assim, a lamentação – o faremos. Com o nosso.

Não é raro o fenómeno de projecção. Passam vários anos desde a desmoralização do Reality Show. Em primeiro Big Brother, Zé Maria, personagem fugidia, assistia – de sorriso contínuo – à sua elevação a símbolo nacional. E, com contornos clericais, pontuava sentenças de superior agressividade com um amaciador: “mas no bom sentido”. Até hoje não se chegou a perceber quem é. Nem ele. Para aumentar a fasquia de identificação: o premiado de uma segunda edição era padre assumido. No ano de 2005 – e depois de ter assistido ao vácuo discursivo inaugural de José Sócrates – entendi: também eu tinha votado em Zé Maria.

A eleição contamina qualquer quadrante. A definição é arrumada através de uma espécie peculiar de psicologia de pacotilha chantagista popular: ter opinião é sinónimo de frustração”. Não são raros os exemplos em que a pseudo- interpretação generalizadora, a nível nacional, é utilizada como carimbo de desvalorização. Instrumento moral a favor de um silêncio abstencionista colectivo. Como também a cor política é objecto de arremesso. A posição vincada é, como defesa, atirada para a armadilha partidária. Valorizando a neblina; um bloco central. A indecisão promovida a “sensatez”. Filha perversa de um estado novo que teimamos em acreditar que repudiamos. E virtude unificadora para a irresponsabilidade civil. Relativismo português necessita de condição prévia: almofadar a realidade. O terror do radicalismo, aqui, é subserviência. Procura a todo o custo o olhar certo. E, nesse processo, passa a ser falso. Sem crítica, auto- critica ou tolerância à critica não haverá entendimento que nos salve. O que se discute – quando se discute – é feito, em comunhão, já às portas do abismo. E, apenas, se não for censurável.

Exceptuando o caso isolado, fora de sitio, redacções e orgãos televisivos não escapam a um marchar: o artigo de opinião tem cartão partidário, institucional e empresarial. A liderança está na mesa redonda. O olhar – à distância – do psicólogo, historiador, sociólogo ou filósofo é evitado.

 O debate desenvolvido em torno de um novo modelo de negócio jornalístico parece ignorar, em larga escala, a sedução do leitor relativamente à importância determinante da opinião e da investigação na defesa do regime democrático. A gratuitidade cultural manipula o discurso em direcção ao formato. Toda uma demagogia digital que utiliza o direito do consumidor, uma noção ilusória de intervenção individual e o ódio à instituição – como se as empresas que os promovem não o fossem –  como argumentos mobilizadores. E externos ao próprio jornalismo.

 Tão peculiar oposição abre caminho à caça ao voto. Qualquer ideia é preterida a favor da propaganda. Culparemos, mais tarde, a política. Que foi aquilo que desejamos que fosse. Sempre de pedra na mão não há espelho que resista. Apontei-vos o dedo. Mas no bom sentido. Outra vez.

 

Afonso Pimenta

Revista I: Protótipo de Salvação

Posted in Apontamento by Afonso Duarte Pimenta on 20 de Maio de 2009
Imagem retirada de www.jonworth.eu

Imagem retirada de http://www.jonworth.eu

De acordo com o El País do passado dia cinco de Maio, Javier Rodriguez Zapatero, director geral da Google em Espanha, assegurou que a companhia não contempla o fim do formato em papel apesar de inevitáveis falências:

Dentro de dez anos existirão menos publicações. Serão destinadas à leitura reflexiva. 90% do tempo será ocupado com notícias através da rede.

Assegurou; existirão; serão; será: sem querer destruir tão belo desejo profético, este optimismo mercantil – para lá da preguiça – não parece consonante com um dos principais polos de atracção do digital: a sua mutabilidade. E, exactamente porque o excesso de movimento não deixa espaço para a metáfora, resta saber se toda esta acomodação – deslumbre pela actualização – fará nascer amor repentino pela abstracção. Mas não é já alguma opinião, por exemplo, parte constituinte do melhor jornalismo que se faz?

Ao destacar a internet, deixando-se manipular pela promessa do momento, a revista I – protótipo de futuro – promove o negócio externo; conduz à divisão. Ao nomear, em editorial, a sua escrita de reflexiva, também empobrece a noção. Por ser análoga ao habitual nos exemplos superiores de jornalismo integrado. Como o Público. Mas no presente foi a certeza mais fashion que encontramos.

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O que tem o jornalismo de tão especial?

Posted in Crónicas by nuno miranda ribeiro on 2 de Abril de 2009

Foto de Tim Silverman - http://supertim.deviantart.com/

Foto de Tim Silverman - http://supertim.deviantart.com/

O YouTube mantém o lema inicial: “Broadcast Yourself”. O fenómeno dos blogues, cujo crescimento parece ter abrandado seriamente, veio transformar cada pessoa com um computador com ligação à internet num autor (ou em muitos casos, num simples autómato de repetição ou mesmo plágio). O Twitter, com a pergunta “what are you doing?” veio sugerir-nos que é importante, para os outros, o que estamos a fazer, a pensar, a viver. O nosso ego, neste início do século XXI, tem uma série de ferramentas para se expressar, expandir e convencer de que é especial.

Dizia o Afonso Pimenta, no texto que iniciou o MFJEP, “O jornalismo escrito, enquanto produto, não pode ser encarado exclusivamente como tal: ele é aquilo que me alerta para o que eu não sou. O único veículo que possuo para estar atento relativamente ao que é exterior à minha diminuta capacidade de alcance e atenção: o poder.

Sempre seleccionámos a informação, como qualquer outro produto, segundo os nossos apetites, a nossa cultura e os nossos preconceitos, a nossa personalidade, os grupos de que fazemos parte e os hábitos que fomos adquirindo. Hoje, em 2009, a internet tal como existe reforça o nosso papel de decisores face ao que nos é dado consumir. Há tanto por onde escolher (quanto à forma, ao conteúdo, ao estilo, à fonte, ao suporte, etc), que somos mesmo forçados a escolher, a todo o instante.

O sucesso do YouTube veio confirmar (pregando um valente susto às grandes cadeias de televisão) que as gerações mais novas não têm paciência para esperar pela emissão à hora x de determinado conteúdo. Preferem procurar o conteúdo desejado e vê-lo de imediato. A minha geração, e as gerações anteriores também, de forma mais cautelosa, aderiram à facilidade de aceder ao que se quer quando se quer. Os mais novos já não se sentam tantas horas em frente à televisão como a minha geração fazia. Algumas dessas horas são agora passadas em frente ao ecrã do computador. Vai-se à procura do que se quer ver e ouvir, em vez de se esperar pela transmissão à hora marcada.

Da mesma forma, deixou de se comprar o jornal, para se ir à wikipedia, ler blogues, ocasionalmente consultar a página de uma publicação, principalmente se alguém conhecido nos atirou com um link. Esta mudança de atitude, amplificada pela valorização desmedida do ego, tem algumas consequências nefastas. Grande parte do tempo não estamos receptivos à aprendizagem, ao novo, ao confronto e à surpresa. Apenas procuramos reforçar com mais dados aquilo que julgamos saber, apenas queremos encontrar validação para os nossos valores e preconceitos. Somos o editor e o censor de nós próprios. E com algum sucesso, se deixarmos de consultar a informação que é agregada e difundida por profissionais, sem o filtro da nossa conveniência.

Quando andamos na escola há um programa, que pode ser adaptado aos alunos mas que é razoavelmente fixo. Foi estabelecido como um conjunto de conhecimentos que são essenciais e desejáveis. Na vida adulta, o jornalismo é uma fonte de conhecimento importante. Já não existe a benevolência mais ou menos contaminada, mais ou menos iluminada dos programas escolares. Existe uma selecção, feita por profissionais, do que é importante saber sobre o que está a acontecer.

As regras e o método com que é produzido o jornalismo pretendem contribuir para que o bolo da informação difundida se ponha a jeito de ser apreendido enquanto conhecimento. A alteridade de que o Afonso falava é de extrema importância. Independentemente do mundo em que eu preferiria acreditar, o mundo é o que é. Os jornalistas não me dão o mundo, é verdade. As notícias não devem ser confundidas com a realidade. Mas são resumos, retratos, relatórios, crónicas do que é real e existe fora de mim.

Os jornalistas estão obrigados a distinguir com clareza o que é facto do que é opinião. Algo a que os bloggers, obviamente, não têm de ligar importância. A propósito, o que aqui neste blogue é produzido não é jornalismo. Há uma grande exigência, que nos compromete. Mas damos a nossa visão particular sobre as coisas. Seleccionamos o que julgamos importante segundo o contexto em que criámos o MFJEP. Os jornalistas ouvem as várias partes envolvidas numa história, e devem, embora nem sempre o façam, confrontar as versões obtidas com os factos apurados.

Os editores têm a missão de escolher, de entre avalanches de informação, o que deve ser noticiado. E fazem-no, a isso os obriga a deontologia, segundo o interesse público e não segundo critérios pessoais, políticos ou comerciais. Numa democracia, são os jornalistas que “vigiam” e reportam a actualidade, a acção dos políticos e “o que acontece”, são eles que nos trazem o que de novo se produz em ciência e arte, que nos põem em contacto com o mundo em que vivemos.

Qualquer ameaça à integridade e qualidade do jornalismo é uma ameaça à nossa liberdade. A ignorância e a alienação (que o jornalismo previne e combate) são ameaças constantes à liberdade. Confundimos, desde sempre, “capacidade de fazer coisas” com liberdade. Porque temos dinheiro suficiente para consumir mais, viajar mais, fazer mais coisas que os nossos vizinhos de planeta que habitam na metade pobre, não somos mais livres. Somos livres enquanto soubermos quais as opções que se nos apresentam, somos livres enquanto pudermos construir a nossa escolha. E sem o jornalismo e a sua função de mediação entre realidade e personalidade e de formação da consciência colectiva, não passamos de animais com dinheiro no bolso.

Nuno Miranda Ribeiro

Revista Nature reflecte sobre o declínio do jornalismo cientifico

Posted in Notícias by Afonso Duarte Pimenta on 19 de Março de 2009

As repercussões actuais relativas ao jornalismo escrito não se esgotam na imprensa generalista. O campo científico , segundo o artigo “Science journalism: Supplanting the old media?” , da autoria de George Brumfiel e publicado no passado dia 18 de Março no site da revista “Nature”, também está a ser afectado. A ter em conta, de forma adicional, o artigo de opinião “Filling the Void” .

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